Parece ter sido ontem, mas foi há 20 anos. No dia 28 de Fevereiro de 2005, o blogue ‘O Insurgente’ foi posto no ar com uma série de autores que, na sua maioria nem sequer se conhecia pessoalmente, como era normal na época. Aliás, como não havia fotografias, não sabíamos sequer como cada um dos outros era fisicamente. Ainda me recordo do primeiro almoço, num sábado na Palma de Baixo, em Lisboa, onde pude finalmente pôr uma cara em cada nome com quem partilhava um espaço de escrita na internet.
Tive o privilégio de ter sido colaborador logo no primeiro dia d’O Insurgente’ por convite dos dois fundadores, o André Azevedo Alves e o Miguel Noronha. A ideia, conforme o mail que o Miguel me enviou à data, era juntar num blogue colectivo uma série de bloggers liberais que escreviam nos seus blogues individuais. O Miguel tinha ‘O Intermitente’ e eu (o que não deixa de ter alguma graça agora que escrevo para este jornal) um chamado ’O Observador’. Connosco começaram, só para nomear alguns, o Luís Ramos da Silva, o Luís Tribuna, o José Tomaz Castello Branco, o Hélder Ferreira, o Miguel Botelho Moniz e o Fernando Cruz Gabriel, grupo que foi engrossando até se tornar na longa lista que podem ver no lado direito do blogue.
Na altura era difícil sabermos ao certo quantos liam o que escrevíamos, mas os dados diziam-nos terem sido cerca de mil logo na primeira semana. A partir daí foi sempre a subir. Da nossa parte procurávamos ser disruptivos, escrevíamos sobre o país e o mundo, política, economia e os muitos livros que líamos, uns textos longos outros curtos, todos densos, mais ainda se comparados com o que são os tweets de 280 caracteres. Tínhamos trabalho em escrever aquilo e, por incrível que possa parecer, havia quem se desse ao trabalho de os ler e, mais que isso, apreciá-los. Ao contrário do que acontece hoje, em que é possível saber com quem interagimos nas redes sociais, quem nos lia não passava de um número que aumentava todas as semanas, a cada vez mês que passava. Apenas ao fim de uns anos tomei consciência do verdadeiro impacto e da influência que ‘O Insurgente’ teve na propagação das ideias liberais. Principalmente entre os mais novos, raparigas e rapazes, agora nos vinte e muitos, trintas e qualquer coisa, e que na altura não passavam de miúdos. Alguns acabaram por fazer parte do projecto e passaram a escrever ao nosso lado. Dezenas de pessoas disseram-me que liam diariamente o blogue, uns mais novos outros mais velhos, uns porque viram finalmente quem pensasse como eles outros porque encontraram algumas respostas e também muitas perguntas.
Até há 20 anos era comum dizermos que não conhecíamos outros liberais. Afastados uns dos outros, cada um estudava, lia e inquiria sozinho. Hoje há um partido político liberal com 8 deputados na Assembleia da República e que é o quarto maior do país. O liberalismo deixou de ser um insulto para passar a ser uma tradição que capta a atenção de cada vez mais pessoas. Costumo dizer que quando for velho a maioria definir-se-á como liberal e não mais como socialista ou social-democrata, como sucedia quando eu não passava de um rapaz. Liberal clássico, social, libertário, o que seja. Digo isto até porque nem todos se revêem na Iniciativa Liberal. Há quem considere que o liberalismo não se esgota num partido, mas que antes deve entrar e diluir-se em vários, de preferência nos que existem. A verdade é que o que começou nuns blogues encontra-se assente no actual discurso político. Não é uma moda passageira, como Marcelo Rebelo de Sousa gostaria que fosse, mas uma tradição com mais de 200 anos recuperada por milhares de pessoas: uns quantos que escreviam e muitos mais que liam.
Foi obra.