Ainda nem começou, mas já se sabe que este Verão vai ser marcado por dois dos mais mediáticos julgamentos a que já assistimos. O de José Sócrates, justamente considerado o “Julgamento do Século”. E o de Joana Marques, também apropriadamente crismado “Julgamento do Séc. XVI”. É que o teor da queixa traz um cheirinho a Inquisição.

No processo que começa hoje a ser julgado, a Joana Marques é acusada por Nélson e Sérgio Rosado, os irmãos do duo Anjos, de lhes ter causado avultados danos patrimoniais e não-patrimoniais, a nível pessoal e profissional, com um tiro. Estou a brincar, foi com uma piada.

Em 2022, depois de os Anjos terem cantado o hino numa prova de motociclismo, alguém considerou a interpretação d’A Portuguesa, digamos, peculiar e merecedora de atenção, ao ponto de ter colocado na internet um vídeo da performance. A Joana Marques pegou nesse vídeo, entrecortou-o com imagens do júri dos Ídolos (do qual fazia parte na altura), como se os jurados estivessem a ouvir os Anjos. No fim, coloca o cantor Tatanka (outro dos jurados) a dizer “Depois entraste ali num campo muita delicado, que foi assassinar uma música destas e eu tive de mandar parar”. A legenda deste vídeo, publicado no Instagram de Joana Marques, é “Será que foi para isto que se fez o 25 de Abril?”

Os irmãos Rosado sentiram-se de tal forma incomodados com a piada que atribuem à Joana Marques a responsabilidade de uma série de desastres, entre cancelamentos de concertos e queixumes de saúde, que avaliam em mais de um milhão de euros.

Este processo vem mostrar que a Joana Marques faz piadas com uma virtude muito rara: com o passar do tempo tendem a ficar cada vez mais engraçadas. No início, parecia ser um simples gozo à forma extravagante de cantar o hino, com um entusiasmo desmedido e floreados embaraçosos. Entretanto, com tudo o que aconteceu, transformou-se numa piada certeira à vaidade de dois cantores que consideram insuportável que haja quem não tenha achado extraordinária a sua interpretação do hino num prestigiante certame de motociclismo. O que principiou como humorismo sobre voz de cana rachada, metamorfoseou-se em chacota a uma soberba que tem vindo a acastelar-se até culminar neste uso do aparato judicial para castigar quem diz publicamente que não aprecia a cantoria.

(Pode não se gostar da performance, mas é impossível dizer-se que não tem impacto emocional.  Eu, quando ouvi esta versão e os Anjos chegaram ao “contra os canhões marchar, marchar”, senti um ânimo tal que desejei jogar-me para baixo de um tanque de guerra, só para acabar com o meu sofrimento. A questão não é os Anjos terem desafinado a música. É também terem conseguido desafinar 7 ou 8 das motas que iam correr).

Parte da queixa dos Anjos dedica-se a explicar que a sua execução musical foi tecnicamente irrepreensível e isso bastaria para não poder ter sido alvo de crítica. Como se um restaurante processasse um cliente que diz não ter gostado da sopa, arregimentando os pareceres de vários cozinheiros a garantirem que a sopa era estupenda. Essa tese peregrina, que pretende eliminar a subjectividade da opinião, esbarra numa incoerência dos próprios Anjos: é que, antes de a processarem, os manos Rosado pediram à Joana Marques que apagasse o vídeo do seu Instagram. Ou seja, reconheceram que havia ali matéria de gozo. E, como ficaram envergonhados, pediram para retirar.

Se achassem que a sua actuação tinha sido estupenda, não se importariam que continuasse na internet. Nesse caso, o vídeo que a Joana Marques publicou seria apenas uma opinião contrária de alguém que nem sequer é especialista, ao contrário dos peritos convocados para testemunhar sobre a mestria técnica e artística do duo. Os Anjos estariam orgulhosos da sua exibição e, quando muito, reprovavam publicamente a Joana Marques do alto da sua posição de autoridade.

No entanto, ao revelarem embaraço por ver a performance tornada pública, admitem que fizeram algo ridículo, logo há matéria para a piada. Quando pediram à Joana Marques para tirar o vídeo do Instagram, os Anjos deram-lhe razão. E ao queixarem-se de ter perdido trabalho porque houve promotores que, ao ver aquilo, concluíram que os Anjos são sofríveis, deram-lhe razão uma segunda vez. Apesar disso, pedem-lhe dinheiro.

Portanto, processam-na porque ela não percebe nada de música e a análise que fez à actuação é injuriosa, mas o pedido para apagar o vídeo revela que a Joana Marques estava certa: a encenação é gozável, por mais que técnicos eminentes afirmem o contrário. Aliás, recorrer a experts para nos dizer que aquilo que nós ouvimos não é bem aquilo que nós ouvimos seria a mesma coisa que, na história “O Rei vai nu!” o monarca convocar um industrial têxtil para afiançar que existe um tecido 100% transparente e é por isso que, apesar de ser verem todas as pendurezas do Rei, não é tecnicamente correcto dizer que Sua Alteza vai nua.

A pergunta “quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete?” era uma imagem usada para troçar dos filósofos escolásticos que perdiam tempo a debater questões sem importância. É provável que em breve a expressão para perda de tempo com temas patetas mude para “quantos alfinetes cabem na cabeça dos Anjos?”, porque estamos a gastar recursos que a Justiça não tem para descobrir quão picados estão Nélson e Sérgio Rosado.

No fundo, este processo deve-se ao vexame sentido pelos Anjos. E ao seu desejo de castigar quem gozou com eles. Compreendo que se tenham sentido ofendidos e que isso aleije o ego. E admito que haja quem, melindrando-se, exija reparação. Sucede que o tipo de justiça que procuram não devia ser aquele dispensado pelos tribunais, mas aquele aplicado por uma educadora de infância quando, a bem da harmonia na sala dos 5 anos, pede à Joaninha para não fazer pouco dos meninos Nélson e Sérgio, que ficaram amuados. Desde que um coro celestial cantou o nascimento de Jesus Cristo que não se ouviam Anjos a anunciar a chegada de meninos.

A Joana Marques é muitas vezes acusada de cometer o grave crime da descontextualização. Desta vez não foi diferente. Segundo a tese dos queixosos, aquela actuação dos Anjos, se vista e ouvida no seu contexto, deixaria de ser ridícula e a Joana Marques já não teria por onde pegar. Não tenho tanta certeza. Não possuo imaginação suficiente para fantasiar um contexto em que aquela forma de interpretar o hino não seja notoriamente caricata. A não ser, claro, que a Joana Marques tivesse omitido a parte, mesmo antes de começarem, em que um dos Anjos avisasse: “Vamos agora interpretar o hino de forma notoriamente caricata”.

Mas isso seria truncar. Que não é o que a Joana Marques faz. Ela selecciona as partes que quer salientar e que, separadas do ruído, se revelam em toda a sua preciosa estupidez. Destaca excertos, coloca-os lado a lado para dar ênfase e mostrar como surgem repetidamente, não aparecem por acaso. Ou eleva algum fragmento a uma posição cimeira, para que, em evidência, possa ser admirado. E escarnecido. Ela faz curadoria de parvoíce. Isso é descontextualizar no sentido em que um mineiro peneira no rio para apartar o ouro do cascalho sem valor. Não há memória de alguém ter desdenhado da pepita de um garimpeiro dizendo “isso é só terra tirada do contexto, pá”. Ou ter-se criticado um cientista que descobriu um vírus ao microscópio por ter tirado o bicho do seu contexto celular.

A Joana Marques é como o escravo na quadriga do general romano que celebrava um Triunfo. No auge da parada triunfal, enquanto era aclamado imperator pelo povo, o general ouvia o escravo dizer-lhe “lembra-te que és mortal”. No momento da sua consagração como romano mais importante, tinha um escravo, o mais baixo de todos os seres, a chamar-lhe a atenção para o facto de, contas feitas, serem os dois igualmente reles e futuro pó. “Psht, general. Recorda-te que, no fim do dia, não vale assim tanto”. É maçador, no nosso momento de glória, acontecer isto. Seja a desfilar em direcção ao Capitólio depois de subjugar várias tribos de bárbaros, seja no meio de um autódromo em Portimão a cantar para meia-dúzia de pessoas que, para dizer a verdade, já estão de tampões nos ouvidos. Mas é uma maçada que não vale um euro, quanto mais um milhão. E nunca por nunca exigidos ao escravo que se limitou a constatar “olha que não cantas assim tão bem, pá”.