Ainda é cedo para avaliar o pontificado do Papa Francisco, mas já se podem alinhavar algumas considerações a partir de três parábolas evangélicas: a do grande banquete (Mt 22, 1-14), a do administrador sagaz (Lc 16, 1-12) e a do escriba instruído nas coisas de Deus (Mt 13, 52).
Tem sido recorrente a referência ao mote “todos, todos, todos”, para resumir o magistério do último Papa. É uma eficaz expressão da catolicidade, ou universalidade, da Igreja, que deve estar aberta a todos os homens, sem excepção. O Papa Francisco assim o fez, indo, como muitos outros – S. Damião de Molokai, S. Pedro Claver, S. João de Deus, S. Teresa de Calcutá, etc. – ao encontro das periferias, como se prova por tantas instituições católicas que, no mundo inteiro, ajudam os mais desfavorecidos.
Na parábola do grande banquete todos são chamados. O Concílio Vaticano II recordou o evangélico chamamento universal à santidade: “Sede perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celeste” (Mt 5, 48). Nem todos correspondem a esse apelo de Deus e, por isso, nessa parábola, há um convidado que, por não ter a veste nupcial, é excluído, “porque muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos” (Mt 22, 14). Esta segunda parte da parábola tem sido silenciada, por má-fé ou ignorância, talvez para não se admitir que a Igreja, que a todos convida para o seu seio, só integra os que dela não se autoexcluem, ou seja, os que, pela sua fé e vida, com ela se identificam.
Depois do discurso eucarístico em Cafarnaum, muitos deixaram de seguir Jesus, que perguntou aos apóstolos se também o queriam abandonar. A solução para a incredulidade de muitos não passa por alterar a doutrina, ou aligeirar a moral, mas pela fé manifestada por Pedro: “A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! Por isso nós cremos e sabemos que tu é que és o Santo de Deus.” (Jo 6, 69).
A parábola do administrador sagaz recorda as tentativas de potenciar a inclusividade eclesial por via do esvaziamento da fé e da moral católicas. O feitor, sabendo que ia ser despedido, falsificou os recibos das dívidas de que o seu patrão era credor. Jesus elogiou a esperteza do administrador, mas não a sua desonestidade.
No pontificado de Francisco, assistiu-se a uma espécie de amnistia geral para todos os pecados. Com a ligeireza e imoralidade do administrador sagaz, se menosprezaram graves contradições de carácter doutrinal. A este propósito, três exemplos.
Primeiro: há bispos da antes chamada Igreja patriótica chinesa que são do Partido Comunista, uma estrutura política essencialmente ateia e contrária à religião católica. Mas, quando foram reconhecidos por Francisco como bispos católicos, em detrimento da fiel e mártir hierarquia clandestina, não consta que tenham abjurado do comunismo, nem feito nenhuma declaração de fidelidade ao magistério da Igreja, ou ao Papa.
Em segundo lugar, há ‘recasados’ que, apesar de terem validamente contraído um casamento indissolúvel, comungam, graças a uma interpretação pouco ortodoxa da encíclica Amoris Laetitia.
Por último, as bênçãos de uniões de pessoas do mesmo sexo. Cada fiel, mesmo não estando na graça de Deus, pode ser abençoado, como acontece no final da Missa, bem como os casados pela Igreja. Contudo, a Fiducia Supplicans, que foi globalmente rejeitada pelos bispos católicos africanos, permite que as uniões de pessoas do mesmo sexo possam receber uma bênção semelhante, mas não litúrgica.
É muito salutar o propósito de chegar a “todos, todos, todos”, não pela via da falsificação da fé, ou da moral católicas, mas da evangelização. Ninguém é mais inclusivo do que Jesus, que morreu por todos, mas também declarou que nem todos os que dizem “Senhor, Senhor!” entrarão no reino dos Céus (Mt 7, 21-23). É certo que absolveu a adúltera arrependida, mas, depois, disse-lhe: “Não tornes a pecar!” (Jo 8, 11).
Os referidos abusos, ou escândalos, exigem um próximo esclarecimento doutrinal e pastoral. O Papa Francisco, não obstante alguma ambiguidade, não cedeu nos princípios da doutrina católica, porque a sua perspectiva, mais do que doutrinal, era pastoral: acolher todos e abraçá-los, como fez o pai do pródigo (Lc 15, 20). Mas, com frequência, foi omitido o apelo à conversão, embora Jesus pregasse: “o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc 1, 15). Com efeito, só depois desta mudança interior é que aqueles que, como o filho pródigo, confessarem os seus pecados, professarem a fé católica e se propuserem viver de acordo com os mandamentos da Lei de Deus e da Igreja, poderão participar no banquete, ou seja, comungar.
O “todos, todos, todos” não pode significar, portanto, transigência e impunidade para o pecado, mas caridade para com o pecador: uma atitude de acolhimento que é um apelo à conversão, um chamamento para que se baptizem ou confessem, e vivam os ensinamentos evangélicos, nomeadamente o decálogo e as bem-aventuranças.
Embora só possam receber a Eucaristia os que estejam na graça de Deus, a Igreja deve ir ao encontro dos não crentes e dos que ainda vivem em pecado, para lhes pregar o Evangelho e animar à conversão. Também os pecadores, desde que sinceramente arrependidos, podem pertencer à Igreja. Afinal, nós católicos não somos todos pecadores?! Se calhar, os que se julgam mais puros serão os mais hipócritas, como na parábola do fariseu e do publicano (Lc 18, 9-14).
Por último, a parábola do pai de família: “Todo o doutor da Lei instruído acerca do Reino do Céu é semelhante a um pai de família, que tira coisas novas e velhas do seu tesouro” (Mt 13, 52). Nem tudo o que é velho é mau, como nem tudo o que é novo é bom, como julgam os ditos progressistas; nem vice-versa, como pensam os tradicionalistas. É preciso discernir e optar pelo que é bom para a salvação, seja velho ou novo, porque a finalidade da Igreja não é proporcionar aos fiéis uma vida prazenteira, mas garantir a sua felicidade eterna.
Num período de sede vacante, eram candidatos à sede de Pedro três cardeais: um piedoso, outro sábio e o terceiro prudente. São Bernardo, aos que deviam eleger o novo Papa, disse: o piedoso, que reze por nós; o douto, que nos ensine; e o prudente, que nos governe. O mundo e a Igreja precisam de um Papa santo, como João Paulo II; sábio, como Bento XVI; e enérgico e decidido, como Francisco. Assim espero e rezo.