No passado dia 8 de Dezembro, Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, o Papa Francisco, pela Carta apostólica “Patris corde”, isto é “Coração de Pai”, convocou todos os católicos para o ‘Ano de São José’, na comemoração dos 150 anos da proclamação do esposo de Maria como padroeiro da Igreja.

Sendo este o Natal do Ano de São José, vem a propósito imaginar como reagiria alguém que passasse pelas mesmas vicissitudes a que foi exposto o esposo de Maria e pai adoptivo de Jesus de Nazaré. Eis, pois, a imaginária entrevista.

– É verdade que a concepção de Jesus em Maria, sua mulher, aconteceu sem o seu consentimento, nem o seu conhecimento?

Absolutamente! E, se quer que lhe diga, o que me fizeram, não se faz a ninguém! Então não é que, sendo eu já casado com Maria, mas ainda não vivendo juntos, como prescreve a tradição e a lei judaica, Deus envia um Anjo à minha mulher e pede-lhe que seja mãe do Filho de Deus?! Onde é que já se viu tal desrespeito por um marido que sempre foi fidelíssimo no cumprimento dos seus deveres matrimoniais?! Não havia nenhuma rapariga solteira, a quem Deus pudesse fazer esse pedido?!

– Sim, mas naquele tempo e região, não era aceitável que uma mulher solteira tivesse um filho.

Bem sei: seria uma desonra para a mãe e para o filho também. Mas, se Deus deu um filho, João Baptista, a dois velhos, como Zacarias e Isabel, também podia ter arranjado, para pais de Jesus Cristo, um casal de muita idade.

– Mas o seu não foi um caso similar?

– De modo nenhum! Em primeiro lugar, Zacarias foi pai biológico de João e eu, pelo contrário, não tive nenhuma participação na concepção de Jesus, embora sua mãe fosse Maria, minha mulher. Por outro lado, antes de João Baptista ter sido concebido maritalmente, Zacarias foi informado pelo Arcanjo São Gabriel, por sinal o mesmo que apareceu a Maria, mas que a mim não disse nada! Portanto, fui ignorado, ofendido e humilhado!

– De todos os modos, Maria foi inocente, porque foi tudo feito segundo a vontade de Deus.

– Olhe que não, porque Maria também não se portou muito bem neste assunto. Na minha opinião, devia ter respondido ao dito São Gabriel que ia pensar e que depois lhe dizia alguma coisa. Era o mínimo e, se a concepção acontecesse uma semana mais tarde também não era grande diferença. Era razoável que, antes de tomar uma decisão desta importância, Maria falasse comigo e, de comum acordo, decidíssemos como proceder: é o que faria qualquer casal normal, acho eu!

– Mas Maria, talvez por prudência, pode não ter querido falar disso a ninguém … pois nem todos iriam compreender e aceitar o que nela tinha acontecido!

Sim, mas mesmo que outros não compreendessem, era óbvio que eu a teria compreendido e apoiado: sentir-me-ia ofendido se ela, ou mais alguém, disso duvidasse! Mas não, em vez de confiar em mim e dizer-me o que se tinha passado, Maria pôs-se a milhas! De facto, foi logo, cheia de pressa, para casa da prima Isabel, que estava no sexto mês da gravidez! Em vez de me dizer o que se passava, foi dizer à prima! Ao marido não disse nada, mas à prima disse tudo! Ou não dizia nada a ninguém ou, se dizia a alguém, deveria ter dito, em primeiro lugar, a mim. Afinal, eu é que sou o marido!

– Quando é que se deu conta de que a sua mulher se encontrava grávida?

Passados três meses, já depois do nascimento e circuncisão de João Baptista, Maria regressou a Nazaré e foi então que reparei que estava grávida. Que choque! Foi uma terrível surpresa e dor! E, também, uma profunda indignação pelo seu silêncio, porque, qualquer que fosse a razão da gravidez, eu estava disposto a perdoá-la e a receber o seu filho, como se fosse meu também.

– Ao dar-se conta dessa realidade, como reagiu?

Decidi deixá-la. Se ela queria viver a vida dela sem mim, que vivesse! Vou-me embora, vou fazer a minha vida para outro lado, talvez até regresse a Belém, já que sou da casa e família de David. Se ela quer ter filhos à margem do casamento, que os tenha, mas eu não estou para fingir que sou pai de quem nem sequer sei de quem é filho! E, se é uma coisa de Deus, Deus que arranje forma de a sustentar, mais ao filho, que eu não estou pelos ajustes. Era o que faltava!

– Porque a não repudiou publicamente?

É verdade que o podia ter feito, porque estava casado com Maria, era verdade que Maria estava grávida e era verdade que o filho de Maria não era meu. Mas, destas três verdades, toda a gente iria concluir a infidelidade da minha mulher. Na altura, já não se apedrejavam até à morte as adúlteras, mas Maria iria ficar desonrada para o resto da vida e o seu filho ficaria, antes ainda de nascer, marcado pela infâmia da sua mãe. Mesmo tendo sido ignorado e desrespeitado, eu seria incapaz de humilhar Maria ou, pior ainda, o seu inocente filho!

– Foi por isso que decidiu repudiá-la secretamente?

Sim, tomei a decisão de abandoná-la, pura e simplesmente, sem dar conta a ninguém. Ao fazê-lo, toda a gente iria pensar o que era óbvio: que eu tinha deixado a minha mulher grávida, porque não queria assumir a paternidade do seu filho. Mas ninguém iria imaginar que o filho não era meu porque, nesse caso, podia e devia repudiá-la publicamente, caindo sobre ela o opróbrio de uma gravidez extraconjugal.

– Então, se tinha decidido deixá-la, porque não chegou a fazê-lo?

Foi quando estava a preparar a minha partida – claro que não disse nada a Maria, porque ela também não me tinha dito nada da gravidez! – que, de noite, me apareceu um Anjo do Senhor. Temi que me viesse castigar por deixar a minha mulher, cometendo a gravíssima falta de quebrar o compromisso matrimonial, que tinha assumido diante de Deus, muito embora, na realidade, a culpa fosse dela, como é óbvio. Mas não era isso o que o mensageiro celeste me veio comunicar, mas que o filho de Maria era, afinal, o Filho de Deus, o tão esperado Messias, que nela fora concebido pelo Espírito Santo!

– Qual foi a sua reação a esse anúncio?

Fiquei muito surpreendido, como pode calcular! Como é óbvio, desisti imediatamente de a deixar e, claro, fiquei contentíssimo com a tão desejada chegada do Redentor! Percebi então que, se a dúvida de Tomé serviu para confirmar o mistério da ressurreição de Jesus, a minha dúvida provava o mistério da concepção virginal do filho de Maria. Afinal, eu que pensava que tinha sido ofendido com aquela concepção extramatrimonial, recebi a imensa honra de acolher o Filho de Deus na minha família, como se fosse meu filho! Como são maravilhosos os caminhos do Senhor: onde, por orgulho, vemos maldições, escondem-se, tantas vezes, as maiores bênçãos!

– E depois, o que fez?

Na manhã seguinte, fui ver Maria, mas já não com o ar carrancudo com que fiquei quando me dei conta de que estava grávida. Disse-lhe que já sabia que era a Mãe de Deus, mas que ainda não percebia porque razão ela não me tinha dito nada, evitando todo o sofrimento por que passei, com a ideia de a deixar!

– E que lhe respondeu Maria?

Disse-me que também para ela tinha sido muito difícil não me dizer nada! Sabe como é, se a qualquer pessoa custa guardar uma tão grande alegria, mais ainda a uma mulher! Tinha já concebido o Filho de Deus e não o podia dizer a quem mais amava nesta terra!  Foi um grande tormento para Maria, mas foi Deus que quis que assim fosse, para que, através desta provação, os casados aprendam a confiar no cônjuge, não obstante as suas palavras, ou os seus silêncios. No mandamento novo do seu amor, Jesus não pediu que nos compreendêssemos, pois nem sempre é possível compreender a infidelidade e o pecado, nem os actos ou omissões incompreensíveis, nem as palavras ofensivas, ou os silêncios injustos. Mas perdoar sim, sempre: basta amar!

Moral da história do Natal: não há casamentos e famílias sem problemas. Todos os casais têm dificuldades, porque até a Sagrada Família passou pela iminência da separação. Mas há casais e famílias que resolvem os problemas que têm e casais e famílias que, infelizmente, os não conseguem ultrapassar. A razão para o êxito de uns é também, em geral, a do insucesso dos outros, porque só a caridade “tudo desculpa, tudo crê, tudo espera e tudo sofre” (1Cor 13, 7). Santo Natal!