Futebol

O nojo em que mergulhou o futebol português /premium

Autor
  • Filomena Martins
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Um magistrado dizia que investigar um ex-primeiro-ministro como José Sócrates é mil vez mais fácil que ‘mexer’ no futebol em geral, ou num clube em particular como o Benfica.

É imperioso escrever sobre o nojo em que mergulhou o futebol português. Confesso que é um tema sobre o qual tenho pruridos em falar. Mas não há reservas que resistam ao estado de putrefação que anda há anos a ser disfarçado com uns bons resultados europeus dos clubes portugueses, o título inédito da seleção, a genialidade de Ronaldo e os êxitos de mais meia dúzia de jogadores e treinadores nacionais fora de portas. O cheiro tornou-se de tal forma nauseabundo que vou pôr os pudores de lado.

Faço um curto interlúdio para explicar as minhas reservas. Depois de ter trabalhado diretamente com a área do futebol durante muitos anos (algo de que muito me orgulho), e mesmo tendo mantido sempre a responsabilidade profissional pela área do desporto até agora, acho que já não tenho os conhecimentos que tive sobre o setor para falar dele como especialista. Além disso, tendo assumidamente uma preferência clubística, e ainda que isso obviamente jamais tenha interferido na forma como trato ou mande tratar todas as notícias de todos os clubes, não gosto, confesso, de ficar sujeita a comentários idiotas.

Mas vamos lá ao nojo, que é isso que interessa. Começo já por lembrar que ele não se instalou, infelizmente, só agora. Aliás, o problema talvez tenha sido esse. Deixar a coisa apodrecer. Não tenho memória curta e infelizmente não vou para nova. Lembro-me do caso Calabote, da fruta do Apito Dourado e de tantos outros até chegarmos aos mails e às (gravíssimas) toupeiras judiciais, às suspeitas de jogos comprados e a todos os processos que estão a ser investigados. Não percebi há décadas como Pinto da Costa e os dirigentes do FC Porto escaparam a uma condenação. Mas também não percebo agora como pode Luís Filipe Vieira manter o seu administrador suspeito de usar uma rede de informadores no interior da Justiça. Nem entendo como de repente há tantas investigações ao Benfica, numa espiral sucessiva e tão intricada que já me parece ir além da simples teoria da cabala com que o clube se defende.

Também estou ainda em choque com o estado de loucura instalado no Sporting. Mas espero que no meio da confusão e dos crimes de meia centena de energúmenos contra jogadores e treinador, ninguém se tenha esquecido das suspeitas da tentativa de suborno a jogadores no hóquei, andebol e futebol, que fez cair o team manager do clube, constituído arguido. Este não foi apenas mais um sinal desta podridão de que falo. Foi um dado muito concreto de que algo vai mal, muito mal. E espero que a Justiça continue mesmo até ao fim e faça uma limpeza geral a todos os clubes que tiver que fazer.

Não será fácil. Um magistrado dizia-me um destes dias que investigar um ex-primeiro-ministro como José Sócrates é mil vez mais fácil que ‘mexer’ no futebol em geral, ou num clube em particular como o Benfica. De um lado, estão sempre milhares de portugueses contra a corrupção. Do outro milhões de adeptos ferrenhos indignados. Mesmo entre os investigadores.

Não sou uma puritana do futebol. Gosto de ver o meu clube ganhar. Sei como se passam muitas coisas. Mas irrita-me, irrita-me solenemente, ver uma equipa que está a jogar bem perder por erros que muitas vezes me parecem demasiado suspeitos e perceber apenas anos depois que as minhas suspeições e de muitos adeptos afinal tinham razão de ser. E a primeira divisão é apenas uma pontinha muito pequenina do icebergue. O maior problema do futebol português está nas divisões inferiores. É lá que se jogam hoje em dia as grandes trapaças desportivas. É lá que está o grande monstro escondido. O mundo por investigar das apostas desportivas on-line vai um dia revelar esse enorme buraco negro da corrupção desportiva.

Se ela já chegou à primeira divisão, como se suspeita com os recentes casos do Benfica (Mala Ciao) e do Sporting (Cashball). Se já há casos que chegaram a julgamento na segunda e terceira divisão (Jogo Duplo). Imaginem o que está por descobrir. Aliás, pensar na falta de legislação sobre o jogo on-line, que continua por ser regulado de forma global pelo Governo português há mais de dois anos por razões insondáveis, torna o polémico negócio da Santa Casa com o Montepio uma mera brincadeira de crianças.

É preciso olhar para o futebol como um negócio. Um grande negócio. Envolve milhões, das transferências de jogadores e treinadores aos direitos desportivos e televisivos. Mas também nos resultados (e suas variantes) das apostas em todo o mundo. Por isso mesmo tem de ser regulado e controlado. Não é. Ou não querem que seja. Daí ter chegado ao estado de nojo em que está. Agora a Justiça parece estar finalmente a mexer-se. Ainda bem. Aplaudo de pé. Ainda que mantenha o cachecol a tapar-me a boca e o nariz.

No meio de tanta lixeira, valha-nos a seleção. A Federação conseguiu em poucos anos passar de uma associação amadora, como se vê pelo nível da discussão pública que Carlos Queiroz manteve com Quaresma, a uma empresa profissional de sucesso comprovado. Espero que esse êxito ajude a seleção a continuar no Mundial da Rússia este sábado. É merecido. E uma brisa de ar fresco no futebol conspurcado que temos.

Só mais duas ou três coisas

  • O Ministério Público chamou-lhe Tutti Frutti. Porque a investigação incide sobre o financiamento partidário ilícito ilegal em vários partidos, ou seja em várias cores políticas. Mas há uns mais suspeitos que outros. O PS está na mira dos investigadores. Mas é sobretudo sobre o PSD que tudo gira. Foi curioso por isso ver José Silvano, o secretário-geral do partido, correr apressado a dizer que este processo nada tem a ver com a atual direcção. Afinal Rui Rio, que conseguiu ganhar a Costa a corrida de restabelecer mais rapidamente as relações com esse exemplo de país não corrupto que é Angola, fez do banho de ética a sua bandeira eleitoral. Esqueceu-se foi que se uns têm Luis Newton e Carlos Eduardo Reis, ele e Silvano têm Salvador Malheiro e Elina Fraga.
  • O Banco de Portugal e a Associação Portuguesa de Bancos estão contra a divulgação da lista dos grandes devedores à banca. Entre eles, claro, os da Caixa Geral de Depósitos. Dizem ambos que viola o sigilo bancário. É curioso que ninguém ache o mesmo sobre a lista dos grandes devedores ao Fisco, que todos os anos as Finanças decidem dar a conhecer. Quer em Portugal, quer em Espanha, como aconteceu esta semana.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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