Em 2006, o soldado Gilad Shalit é raptado; em 2008 começam os lançamentos de rockets Qassam contra o território israelita; em 2014, são lançados mais 2.500 rockets, dando origem a uma nova intervenção de Israel para parar com estes ataques, que ainda assim não terminam – e é neste mesmo ano que são descobertos os túneis do Hamas, inicialmente com o propósito de tráfico de armas.
Esta operação reduziu o envio de rockets – 25 em 2015, 15 em 2016, 35 em 2017 –, mas em 2018 os números voltaram a aumentar significativamente, subindo para 370 rockets lançados desde a Gaza. Os rockets continuaram a ser disparados, mesmo após 7 de Outubro de 2023, sendo que foram intercetados na sua maioria pelo sistema antimíssil “Iron Dome”, apesar das vítimas que, ainda assim, provocaram.
Durante todo este tempo, a União Europeia (UE), autisticamente limitada pelo princípio dos dois estados, gastou cerca de 1.2 mil milhões de euros só com a ajuda a Gaza, sem contar com os apoios dos diversos orçamentos nacionais. Só a partir de 2023, a Comissão Europeia já gastou cerca de 450 milhões de euros nesses apoios, segundo números oficiais da própria instituição europeia.
As declarações do presidente Donald Trump no sentido de deslocar os palestinianos de Gaza para fora do território coloca um problema adicional à UE: nem a ajuda financeira, nem os princípios políticos, conduzem a uma conclusão prática positiva. Se a vontade de Trump se realizar, a posição europeia terá uma derrota a todos os níveis e levantará questões importantes a respeito da transparência financeira do orçamento comunitário – a qual, aliás, já deveria ter sido colocada há muito tempo. Não restará à UE uma outra solução que não a de colocar pressão nos outros países sobre a criação de dois estados. A visita do ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, assim o demonstra.
Independentemente de pensarmos que a posição americana é justa ou injusta, o facto é que vai depender de atores internacionais como Israel, Arábia Saudita e, eventualmente, Egito e Jordânia. Será difícil para estes dois países aceitarem a recolha voluntária dos palestinianos a viver em Gaza. Existem várias razões para isso, mas as principais estão relacionadas com questões internas de cada um dos países referidos. Será este o ponto mais importante e mais difícil de resolver: para onde direcionar a população de Gaza? O primeiro-ministro israelita abordou a questão de o destino poder ser a Arábia Saudita, o que foi prontamente recusado.
Porém, existem dois factores que poderão levar adiante o plano de Trump. O primeiro é que a solução de dois estados já está morta há muito tempo. Aliás, os próprios sauditas já tinham manifestado que as suas ações diplomáticas não dependiam dos palestinianos. Tudo indica que tudo já parecia estar planeado há muito tempo e que porventura seria a resposta à proposta do presidente dos Estados Unidos em 2020, o chamado “plano para a prosperidade”.
O segundo factor é o energético e está relacionado com o offshore de Gaza. Não será de excluir o papel que as reservas de gás em offshore na costa de Gaza poderão ter na solução encontrada pela Administração Trump. Este tema poderá resultar na aproximação de dois países europeus, a Grécia e o Chipre, alienando ainda mais a Turquia. Uma presença na região colocaria os Estados Unidos num corredor essencial para o futuro da região, quer a nível político, quer a nível de segurança energética, onde um corredor que vai, pelo menos, desde o Golfo Pérsico até à Macedónia, senão mesmo mais a norte, poderá ser uma realidade concretizável.
A questão prática energética será claramente uma ameaça ao belt and road chinês e poderá ser incluída no projeto global americano sobre a questão energética. Os perdedores desta nova realidade energética serão a China e o Irão, num plano regional e geopolítico, mas também a União Europeia, no plano dos princípios. Se tal ocorrer, será o fim das ilusões europeias sobre a região.
Por último, a questão principal que se coloca em Gaza, para além da recuperação do território, é o que fazer com o Hamas e com a sua liderança disruptiva? Não é claro que a deslocação dos palestinianos de Gaza e a reconstrução do território possam conseguir que o Hamas deixe de ser a referência para a população local. No entanto, parece mais simples acabar com este domínio deslocando a população de Gaza do que a mantendo e restaurando o território.
Sabemos que será muito difícil para a Autoridade Palestiniana substituir o Hamas e que, tanto Israel, como os Estados Unidos, não querem ser os responsáveis pela gestão do território no pós-guerra, pretendendo que essa tarefa seja atribuída aos países árabes – só que estes, por sua vez, não parecem muito dispostos a isso. Se os países árabes estiverem dispostos a deixar cair a solução de dois estados, mais difícil será aceitarem os refugiados palestinianos. E é aqui que a Administração Trump vai ter de ser mais criativa, nomeadamente com a Arábia Saudita.