Quem entra na Capela do Rato, meia hora antes do início da missa, pensando que chega cedo de mais, bastante a tempo de encontrar lugar sentado, ficará surpreso ao descobrir que que se engana – encontra a Capela já cheia, todas as cadeiras ocupadas, há pessoas sentadas no chão, nos degraus até, que dão acesso ao altar. Embora não falte espaço na pequena capela, para o recém-chegado, a viagem neste pequeno elétrico da Igreja peregrina de Lisboa, terá de a fazer de pé.

Nos tempos que correm, sobretudo em semana de Rock in Rio, parece estranha tão numerosa multidão para assistir à missa, numa sociedade que positivamente se qualifica de atual, racionalista e laica. Seria, enfim, a reação de quem desconhecesse que o celebrante é, na realidade o “Vieira dos nossos dias”. Nesta capela, como na Igreja de S. Roque, no séc. XVII, também é necessário “lançar tapete de madrugada”, a quem pretenda ouvir comodamente o Pe. Tolentino de Mendonça. Nos minutos que entretanto, se sucedem, mais e mais pessoas vão entrando, assumindo a mesma reação e resignando-se a permanecer ao fundo e de pé, mantendo o seu desejo de participar na celebração.

Assim soa o cântico de entrada, e o Pe. Tolentino se encaminha para o altar, imediatamente os acordes da melodia são submergidos por uma maré de aplausos que aclamam o padre-poeta. Esta saudação é justificada pela nomeação do celebrante como arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano e bibliotecário da Biblioteca Apostólica, que conserva tesouros literários e artísticos tão antigos como preciosos. Mais uma vez, o Pe. Tolentino faz lembrar Vieira: “Nascer pequeno e morrer grande é chegar a ser homem (…) Para nascer Portugal: para morrer o mundo.” [1]

Meses antes, o Pe. Tolentino havia orientado o retiro de Quaresma do Papa Francisco e da Cúria Romana. As meditações desse retiro foram reunidas num livro – Elogio da Sede (editado pela Quetzal), com prefácio e mensagem final do Papa Francisco. Conta o Pe. Tolentino que, quando o Papa Francisco lhe endereçou o convite, se apressou a responder: “sou um pobre padre.” Porém, quem o escuta atentamente, ou assiduamente o lê, reconhece nele a simplicidade do poço, simples e ao mesmo tempo profundo. É o lugar onde se busca água; é onde a água nos ensina a sede. Para o Pe. Tolentino, “sede de alcançar as nossas sedes, de entrar em contato com os nossos desertos, com nossas feridas.” Sede de quem caminha, sede de humanidade, sede de transcendência, sede de respostas, sede de perguntas, sede de mais sede.

O Papa Francisco agradeceu as meditações quaresmais do Pe. Tolentino, por ter feito recordar que “a Igreja não é uma gaiola para o Espírito Santo”. Mas o Espírito sopra onde quer [2] e, nesta ocasião, chama para Roma o Pe. Tolentino. “Não se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire” [3], afirma Cristo em certo passo do Evangelho. Perante esta passagem, somos obrigados, mais uma vez, a recordar Vieira – “sal da terra, luz do mundo” [4] – sal que causa sede, calor que clama por água.

A ordenação episcopal será presidida pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, e terá lugar no dia 28 de Julho, pelas 16h00, no Mosteiro dos Jerónimos, igreja que materializa a sede dos portugueses por novos mundos. Simbolicamente, foi atribuída a Tolentino de Mendonça a arquidiocese de Suava, no Norte de África. Com esta localização geográfica, será possivelmente “terra árida e sequiosa”, [5] não fora tão-somente a sede a sua verdadeira arquidiocese. Na verdade, Tolentino de Mendonça apenas passará a ser, a partir de agora, “o arcebispo da sede”.f

Médico, Assistente Convidado da Universidade de Lisboa

[1] António Vieira, Sermão de Santo António, 1670
[2] Jo 3, 8
[3] Mt 5, 13-15
[4] António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes, 1654.
[5] Sl 62, 2