Há momentos na história em que uma guerra regional altera silenciosamente toda a arquitetura económica do planeta. A Guerra do Yom Kippur, em 1973, foi um desses momentos. Embora o conflito tenha durado apenas algumas semanas, as suas consequências continuam hoje a moldar a economia global, a dívida norte-americana e até a forma como entendemos o poder financeiro.
Muitas vezes olhamos para o petróleo apenas como uma commodity energética. Mas, desde os anos 70, o petróleo transformou-se num instrumento geopolítico capaz de financiar impérios, sustentar sistemas monetários e redefinir equilíbrios globais. O mundo contemporâneo não pode ser compreendido sem perceber o nascimento daquilo que ficou conhecido como o sistema dos “petrodólares”.
Quando os países árabes produtores de petróleo decidiram reduzir a produção e impor embargos ao Ocidente após o apoio dos Estados Unidos a Israel, o preço do petróleo disparou. O choque petrolífero de 1973 não foi apenas uma crise energética: foi uma transferência massiva de riqueza das economias consumidoras para os países exportadores de petróleo.
Subitamente, Estados como a Arábia Saudita, o Kuwait ou os Emirados acumulavam quantidades gigantescas de dólares americanos. Mas não foram apenas os países árabes. Também nações como a Venezuela, a Noruega ou outros produtores energéticos passaram a deter reservas financeiras sem precedentes.
A questão era simples: onde colocar tanto dinheiro?
A resposta acabou por redefinir o capitalismo moderno. Grande parte desses dólares regressou ao sistema financeiro americano, sobretudo aos bancos de Nova Iorque. Os Estados Unidos ofereciam estabilidade institucional, profundidade financeira e uma moeda globalmente dominante. Assim nasceu o ciclo dos petrodólares: o petróleo era vendido em dólares, os dólares eram reinvestidos nos bancos americanos e esses bancos utilizavam essa liquidez para expandir massivamente o crédito.
É aqui que entra Ronald Reagan.
Quando Reagan chegou à presidência em 1981, encontrou um sistema financeiro inundado de liquidez internacional. A sua visão política assentava numa combinação muito própria de conservadorismo económico, anticomunismo ideológico e crença profunda na superioridade do mercado.
Reagan acreditava que o Estado social americano tinha crescido demasiado. Para ele, programas públicos, apoios sociais e grande parte da intervenção estatal representavam uma deriva “socialista” incompatível com a essência dos Estados Unidos. A sua solução passou por uma estratégia aparentemente contraditória: cortar impostos, sobretudo aos mais ricos, enquanto aumentava brutalmente os gastos militares.
A lógica era simples. Ao reduzir as receitas fiscais e aumentar a despesa, o défice dispararia. Isso obrigaria futuramente os americanos a aceitarem cortes no Estado social. Era a famosa lógica do “starve the beast”: enfraquecer financeiramente o Estado para reduzir o seu tamanho.
O problema, ou talvez o que tornou o sistema sustentável durante décadas, foi que Reagan encontrou uma circunstância histórica excecional: os bancos americanos tinham acesso quase ilimitado a capital vindo dos petrodólares.
Essa abundância de liquidez permitiu aos Estados Unidos financiar níveis de dívida impensáveis noutras épocas. O défice deixou de ser um travão imediato porque existia procura constante por ativos denominados em dólares. O sistema financeiro americano tornou-se o centro gravitacional da riqueza excedente produzida pelo petróleo global.
Hoje, existe frequentemente a ideia de que a dívida americana está “nas mãos da China”. A realidade é mais complexa. Embora países estrangeiros detenham parte importante da dívida dos EUA, a maioria encontra-se em instituições financeiras americanas, fundos, bancos e investidores domésticos. A China possui apenas uma fração do total da dívida federal.
O Japão detém a maior parte da mesma por um país estrangeiro. O verdadeiro suporte estrutural do sistema continua a ser a confiança global no dólar e a profundidade do mercado financeiro norte-americano.
No fundo, o que nasceu nos anos 70 foi uma simbiose entre petróleo, dólar e dívida.
Mas talvez a parte mais interessante desta história não seja económica. É psicológica.
Existe uma tendência humana para acreditar que os sistemas globais são governados de forma racional e estratégica. Na prática, grande parte das decisões históricas nasce de medo, emoção, reação impulsiva e perceções momentâneas de ameaça. O choque petrolífero foi amplificado por pânico coletivo. As respostas políticas foram moldadas por ideologias. Os mercados reagiram emocionalmente. E os líderes, longe de serem máquinas frias de cálculo, agiram muitas vezes condicionados pelas suas próprias crenças pessoais.
A própria presidência Reagan ilustra isso. O homem que ajudou a redefinir o capitalismo moderno era simultaneamente movido por convicções ideológicas profundas, algumas quase messiânicas, sobre o destino dos Estados Unidos no mundo. A política internacional nunca é apenas racionalidade económica; é também visão, medo, identidade e emoção.
Talvez seja esse o maior equívoco da modernidade: acreditarmos que a humanidade age racionalmente quando, na verdade, tende sobretudo a racionalizar decisões já tomadas emocionalmente.
Os mercados fazem-no. Os governos fazem-no. As sociedades também.
Primeiro age-se. Depois constrói-se uma narrativa para justificar a ação.
O sistema económico global atual, baseado em dívida crescente, liquidez permanente e confiança quase religiosa no dólar, nasceu precisamente dessa mistura improvável entre guerra, petróleo, ideologia e emoção humana.
E talvez seja por isso que continua simultaneamente tão poderoso e tão frágil.
P.S. A América descobriu uma alquimia moderna: transformar petróleo estrangeiro em procura contínua pela sua própria dívida. O petrodólar tornou-se o mecanismo através do qual o mundo financia o império que o consome. Sem esse fluxo, não desaparecem os Estados Unidos, desaparece, isso sim, a facilidade quase ilimitada com que o sistema sustenta défices gigantescos sem consequências imediatas.
Em termos concretos, cerca de 76% da dívida é detida internamente por instituições e cidadãos americanos, enquanto os restantes 24% estão em mãos estrangeiras. Dentro desta fatia externa, o Japão é o principal detentor com aproximadamente 3,3% do total da dívida federal, ao passo que a China detém agora cerca de 2,2%, confirmando que o suporte do sistema é maioritariamente doméstico.