A administração Trump apresentou um plano de 28 pontos para a paz na Ucrânia. Poderia haver quatro cenários para responder à iniciativa norte americana: um, a Ucrânia e a Rússia recusavam o plano e nem o consideravam; dois, os dois países aceitavam a proposta de paz sem mais; três, tratar o plano de paz como uma proposta inicial e negociar alterações; quatro, apesar das negociações, não haver um acordo final. Os dois primeiros cenários não aconteceram. Restam o terceiro e o quarto. Neste momento, estamos no terceiro cenário. Veremos se no fim prevalece o quarto cenário, e a guerra continua.
Desde o início, a autoria do plano de paz nunca foi clara. Parece que resultou sobretudo de conversações entre Witkoff e os russos (e, obviamente, o enviado de Trump, sem experiência política, é manipulado pelos oficiais da KGB). Trump demorou uns dias a apoiar publicamente o plano e já disse coisas diferentes. Rubio criticou abertamente o plano inicial (depois recuou, mas a critica estava feita). Além disso, muitos congressistas republicanos estão contra o plano inicial. Desde que os republicanos forçaram Trump a aprovar a publicação dos emails de Epstein, a relação de forças no partido republicano mudou. Depois de assistir a tudo isto, Trump permitiu que Rubio (e não Witkoff) negociasse o plano de paz com os europeus e com os ucranianos.
Mais uma vez, os europeus (União Europeia e Reino Unido), com o apoio do Canadá, reagiram bem, e ao lado da Ucrânia. Criticaram os pontos mais desfavoráveis para a Ucrânia e estão apostados em mudá-los, sem rejeitarem a paz. Como disse Von der Leyen, um tratado de paz deve respeitar a soberania da Ucrânia, e não pode reconhecer o direito de mudar fronteiras pela força. As negociações não vão ser fáceis para os europeus. Na questão das fronteiras, não vale a pena ter ilusões: a Ucrânia não vai recuperar os territórios conquistados pelos russos. Mas também não deve abdicar de territórios que os russos não conquistaram. Seria espantoso que os russos conquistassem pela paz o que não conseguiram em mais de dez anos de guerra (desde 2014).
Os europeus também querem, e bem, clarificações sobre as garantias de segurança à Ucrânia após o fim da guerra. O plano de paz diz apenas que devem ser dadas garantias de segurança à Ucrânia, sem explicar como. Os europeus querem saber como se vai conter o poder da Rússia no futuro, o mesmo que das garantias de segurança à Ucrânia.
Finalmente, os europeus nunca aceitarão o destino que o plano inicial previa para os fundos russos (aqui, a proposta é patética), nem sequer o fim das sanções de um modo automático, ou o regresso da Rússia governada por Putin ao G8.
Zelensky enfrenta um dilema: não podia aceitar o plano de paz inicial (seria a sua morte política); mas quer negociar um acordo de paz porque deseja acabar com a guerra e, sobretudo não quer ser acusado por Trump de ter rejeitado um acordo de paz.
Nas próximas semanas, muita coisa vai acontecer e o plano de paz inicial vai levar muitas voltas. E não podemos excluir o quarto cenário: Moscovo recusar o plano que vai ser negociados por americanos, europeus e ucranianos.