Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Temos por hábito olhar para os acontecimentos no presente, para o impacto que eles criam e para as consequências que sofremos no nosso dia a dia. Raramente olhamos para a causa, dificilmente nos preocupamos em ver na história as bases para o que estamos a viver e com isso, na esmagadora maioria das vezes, hipotecamos as possibilidades de solucionar efetivamente os problemas. Hoje, mais que nunca, importa procurar as causas para podermos construir as soluções e o futuro.

Que tempestade perfeita envolve a Europa?

No dia em que escrevo este artigo os portugueses já pagam dois euros por litro de gasolina, a eletricidade bate recordes e operadores com menos capacidade fecham as suas operações. No Reino Unido já assistimos a 13 vítimas mortais desde o início desta crise que já afetou, pelo menos, 2 milhões de pessoas. Na última semana foram registados apagões no Líbano, supermercados no Reino Unido sentiram escassez de oferta e responsáveis americanos alertaram para uma possível crise de alimentos no Natal. Adicionalmente, as reservas de gás europeias, onde Portugal surge num perigoso lugar, estão em mínimos num momento em que ainda nem o frio chegou. Com todo este cenário, a Rússia e o seu líder, Vladimir Putin, têm neste momento uma oportunidade política e económica que pretendem capitalizar, uma vez que, a Rússia possui a segunda maior reserva de gás natural do mundo.

A explicação económica

Comecemos por olhar para o que nos contam e perceber como, economicamente, se explica como chegamos a este momento. O preço das matérias-primas energéticas disparou, tendo o gás natural inflacionado a sua cotação na Europa em cerca de 500% e com isso colocou a nu algo que já se vinha a sentir de forma efetiva desde o início do ano: a um aumento brutal do custo das energias e a um agravamento substancial do custo de vida.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Podemos começar por uma explicação rápida. Imaginemos a base da formação de um preço, ou seja, a relação entre a procura e a oferta. Ora, perante esta visão muito simplista, pensemos, agora, que o preço sobe quando a procura supera a oferta, levando a uma pressão do lado da compra e comecemos por aí. A procura subiu substancialmente, potenciada por um inverno mais rigoroso e longo (nalguns locais da Europa tivemos a utilização dos aquecimentos das habitações até Abril), uma pandemia que levou a que as pessoas tivessem em suas casas por períodos mais longos, elevando a sua necessidade por eletricidade e utilização de sistemas alimentados a gás natural e, como se já não fosse suficiente, um aumento da procura de clientes asiáticos que se juntaram aos europeus na pressão compradora. Numa visão rápida, e, repito, simplista, conseguimos perceber o que levou ao aumento da procura, mas isto, por si só, não consegue explicar 500% de subida no preço. Falta nesta equação o lado da oferta e aqui a Europa teve um “inimigo” de peso, porque, se por um lado, a procura subiu, por outro, a oferta desceu, ou seja, o mercado, numa versão quase maquiavélica, criou constrangimentos para um estrangular da oferta e de repente a Europa tinha menos “produto” que anteriormente e muito mais necessidade do lado do consumo. Nesta equação temos uma década de desinvestimento nestes combustíveis que manteve uma produção estável e não adequada ao crescimento natural do consumo.

O Inverno mais longo, o maior consumo das pessoas e uma maior procura de outros mercados, justificam a procura, mas, coloca-se a questão, como pode a oferta diminuir? Temos, essencialmente, dois fatores e ambos deles políticos. Começando pelo fator interno, a Europa, enquanto bloco político e económico, definiu uma estratégia de transição para energias verdes. Esta estratégia passa por uma redução da sua produção de energias fósseis e da utilização de opções como o carvão e outras commodities similares e mais poluentes. Nessa linha, e a título de exemplo, o maior produtor de gás natural da Europa, os Países Baixos, iniciaram em 2018 a desativação da sua maior unidade de produção em Groningen. Se em teoria este é o movimento correto para um mundo melhor, o problema é que a produção de energias alternativas não acompanhou este movimento. A produção eólica teve um ano terrível e os grandes projetos de energias limpas teimam em arrancar ou em produzir as quantidades necessárias para o consumo europeu.

E quando poderíamos pensar que sozinhos tínhamos conseguido criar o cenário perfeito para uma crise de preços e disponibilidade da matéria-prima, eis que a Rússia, no seu novo imperialismo económico decide “dar uma ajuda”. A Rússia é responsável por 40% do gás natural consumido na Europa e, como tal, um player crucial na estabilidade do mercado. Acontece que, curiosamente no mesmo momento em que o Kremlin pressiona a Europa sobre o novo Pipeline (Nord Stream 2) os seus níveis de fornecimento diminuíram alegando constrangimentos de produção e um aumento da procura por parte de clientes asiáticos.

Como conclusão, a Europa apresenta neste momento um stock de gás natural de 74% (de acordo com o Gás Insfrastruture Europe) quando na mesma data em 2020 registava um valor de 94% e vê-se numa situação em que não tem oferta suficiente e a procura aumentou provocando um aumento perigoso dos preços e uma verdadeira crise no fornecimento.

As razões políticas e a origem de uma crise escondida

Quem, atualmente, levantar dúvidas sobre as energias renováveis, sobre as políticas verdes ou sobre o combate às matérias-primas poluentes, é publicamente atacado e silenciado. Há um consenso imposto pelos Estados em torno de uma estratégia de sustentabilidade como via única à salvação da espécie humana e do planeta Terra. É urgente eliminar combustíveis fósseis, é imperativo escutar todas as Greta Thunberg do planeta e não se pode tolerar pensamentos não radicais que ponham em causa todas as políticas “verdes”. A Alemanha, por exemplo, infelizmente caiu nesta “armadilha” erradicando energias como o urânio na produção de eletricidade, na tentativa de substituir por energias eólicas e solares. Refira-se de forma muito clara, que esta estratégia resultou num redondo insucesso.

Há anos que alerto para o perigo do politicamente correto, mas nunca como hoje a falácia da única via para salvar o planeta e a raça humana nos colocou tão em perigo. Estamos todos de acordo que é necessária uma alteração de paradigma no tema das energias e políticas sustentáveis, mas, esta alteração, tem forçosamente de ser feita entendendo os ritmos de substituição das soluções energéticas, o ritmo de crescimento e necessidades de consumo e os constrangimentos de fornecimento. O que os políticos fizeram foi um ataque à produção de matérias-primas poluentes sem acautelarem a oferta ao mercado de igual quantidade com origem em energias renováveis. Como resultado, o mercado cresceu, o consumo cresceu, mas a disponibilidade de matérias-primas foi drasticamente reduzida.

Na Europa, mantem-se uma visão amblíope onde o que é necessário é apostar em mais centrais de produção de energia verde, mas isso tem um tempo de implementação que pode colocar em causa a sustentabilidade das famílias. Prova disso vimos recentemente Ursula von der Leyen reforçando que a subida do preço do gás natural prova que o futuro deve concentrar-se em energias verdes, esta utopia, em linha com a narrativa do combate às alterações climáticas, está a prejudicar diariamente o consumidor. A China, a maior economia do Mundo, já percebeu que isto não é viável e voltou a apostar na produção de energia com base em combustíveis fósseis. A Europa tem uma oportunidade de recuperar o Urânio como uma solução viável para a transição verde, outrora visto como uma energia poluidora. Gradualmente, os políticos europeus começam a entender a importância do mesmo, bastando observar o que a França, Holanda e Reino Unido estão a fazer e a incluir na sua estratégia de Zero Emissões.

Gasolina a dois euros, e agora?

O preço dos combustíveis tem estado diariamente em destaque na comunicação social. A eletricidade está a bater perigosos recordes e os bens de consumo não param de sofrer aumentos de preços e diminuição da sua disponibilidade. Perante isto há várias posturas possíveis. Desde logo o enfiar a cabeça na areia, afastar responsabilidades, manter o discurso que tudo isto só prova que a solução está nas energias verdes e esconder-se atrás da bazuca. Esta solução vai levar a um continuar dos preços dos combustíveis – não tenho muitas dúvidas que o mesmo pode bater os dois euros e cinquenta cêntimos na gasolina – a um aumento da eletricidade, a falhas no abastecimento de energia durante o Inverno, ao aumento de falências em sectores como os transportes e distribuição e a um agravamento substancial da inflação pondo em causa o crescimento económico e a sustentabilidade das famílias.

A outra solução é olharmos de frente para o problema, assumirmos que falhámos, que o caminho foi mal feito e que é necessário recuar um pouco antes de podermos eliminar de vez tudo o que não é verde, pelo menos enquanto a oferta sustentável não é suficiente e com produção estável e acessível. Para ser frontal parece-me que esperar que a classe política e os lobbies de Bruxelas façam um assumir de responsabilidades e definam alternativas parece-me tão utópico como um mundo sem energias poluentes em 2030. No entanto, acredito que num momento tão difícil não fazer mais que lamentar a cada notícia de aumento de preços é contribuir para que a crise energética possa gerar uma verdadeira crise social.

“Às vezes não é suficiente fazer o nosso melhor, por vezes temos de fazer o que é necessário” – Winston S. Churchill

*este artigo teve a colaboração de Guilherme Cabrita – Founder da Market Uncharted