Pedro Nuno Santos já demonstrou claramente que o seu entendimento de  liberdade implica não confiar nos cidadãos. Porém, invoca-os sempre que precisa. O povo escolheu alguma coisa no tempo em que a TAP foi uma empresa pública? Não vou ser eu ou qualquer um dos leitores a escolher. Não. Quem escolhe é o Ministro. E Pedro Nuno Santos escolheu mandar.

Temos maestro. A TAP vai tocar outra música. Mas as falácias continuarão a ser as mesmas. Por norma, as “bandeiras políticas” desfraldadas em defesa de empresas estratégicas significam duas coisas: custos elevados aos contribuintes e partidarização dos recursos humanos. Para além disso, são validadas num sofisma, “o serviço público diferenciado”, o qual, no caso concreto da TAP, invariavelmente representa discriminação regional.

Vejamos o significado da obstinação de Pedro Nuno Santos. Qual é o impacto duma TAP pública? O que é mais importante para um albicastrense, para um bragantino ou para um guardense? Uma empresa “estratégica” de aviação, que irá servir essencialmente Lisboa,  ou o reforço dos serviços de saúde e/ou de educação nas respectivas regiões?

E reparem nesta incoerência. Que se saiba, o cidadão Pedro Nuno Santos não investiu um euro do seu dinheiro na TAP. Já como Ministro das Infraestruturas e da Habitação está disponível para desperdiçar milhões. Ou seja, a TAP não presta para Pedro Nuno Santos, mas para o Ministro é o Santo Graal das suas prioridades.

Recorde-se que o Estado português é o acionista maioritário da TAP. O consórcio privado (entre o empresário português Humberto Pedrosa e o empresário norte-americano David Neeleman) só detém 45% do capital social da empresa. O Ministro sabe-o Tal como também sabe que o sector da aviação é um dos mais afectados pela crise. Portanto, a questão não é tanto o montante de investimento e quem investe, mas antes o controlo da gestão da empresa. Pedro Nuno Santos quer mais boys na TAP. Preferencialmente, os seus.

Não se iludam. Pedro Nuno Santos não está preocupado com quem investe, nem com quanto mais o povo irá pagar pela TAP. O que o preocupa é instrumentalizar o maior número possível de meios para ser líder do PS. Perguntam porquê? A resposta é óbvia. Presentemente, é impossível ser líder do PS sem distribuir benesses ou, pelo menos, de as garantir. Como o PS é o partido com mais boys na administração pública e em todos os sectores em que o Estado detêm participações…

Então, qual é a motivação para esta algazarra? Visibilidade. A gestão da crise COVID-19, fez de Pedro Nuno Santos um quase desconhecido. Quem está diariamente nas notícias são António Costa, Siza Vieira e Marta Temido. Para um homem com tantas ambições políticas, pouco mediatismo não é bom.

Considero que Pedro Nuno Santos é um caso de estudo na política portuguesa. Não o é pela originalidade. São perceptíveis vários casos de escolhas tácticas relativamente à discrepância entre o posicionamento ideológico e a opção partidária. Pedro Nunos Santos é só mais um. Contudo, não deve ser identificado com o socialismo de Mário Soares ou de António Guterres. Nem tampouco com o de António Costa. Pedro Nuno Santos está muito mais à esquerda.

É curioso porque sempre que me lembro de uma das velhas máximas de Trotsky – num país em que o estado é o único empregador, oposição significa morrer lentamente de fome. O velho princípio «quem não trabalha, não come» foi substituído por um novo: «quem não obedece, não comerá» (1937) – quem imagino a expressá-la com mais convicção e encanto não é Francisco Louçã. É este Ministro socialista.

Se hoje o PSD de Rui Rio quase não se distingue do PS, com Pedro Nuno Santos, o PS não se distinguirá do BE. E com Pedro Nuno Santos na liderança, o PS  sofrerá o destino previsto para os pés de barro no sonho de Nabucodonosor. Não haverá maior tremedeira de pernas. Por outro lado, um BE com Pedro Nuno Santos teria outra melodia. A arrogância e animosidade que patenteia comprovam-no. Para Pedro Nuno Santos não há negociações. Há guerras.

Só mesmo um homem assim fala de milhões para a TAP em tempos de vírus. Porém, não estranhem. Falamos da mesma pessoa que se estava a marimbar para os credores. Diziam que era jovem e que não pensava. Enganaram-se. A irresponsabilidade é crónica. Existirá melhor exemplo duma postura Varoufakis em Portugal?

Relativamente ao Ministro das Infraestruturas e da Habitação só tenho uma dúvida. Quem é o melhor amigo dele? José Sócrates tinha o Carlos Santos Silva. António Costa tem o Diogo Lacerda Machado. E quem tem Pedro Nuno Santos?

Só há um plano com sucesso: deixar o mercado funcionar. Todavia, como Pedro Nuno Santos é um oportunista, ainda por cima sem qualquer plano estratégico para a TAP, não é isso que acontecerá.

Repito: não se iludam. Assistimos ao desenrolar de um projecto de poder pessoal.

Post-Scriptum – Só sem a interferência do Estado é que a TAP terá futuro. A proposta da IL para a privatização total é a melhor solução para a empresa.

Professor Convidado EEG/UMinho