Entre 2011 e 2015 o que mais se ouvia era que o PSD não sabia fazer política.

A comparação partia da experiência vivida com Sócrates entre 2005 e 2011.

Tudo era motivo para comparar a ação política liderada por Pedro Passos Coelho com a ação política de Sócrates. Com vantagem para Sócrates. A cultura política do PS era um must!

Sempre achei estranho aquele fascínio por parte dos mais variados sectores da sociedade portuguesa em relação a Sócrates e ao PS que enterrou o País numa crise social e económica sem precedentes. Mas era o PS que sabia fazer Política!

Estranhava, ainda mais, sabendo do controlo apertado que Sócrates e o PS exerciam na comunicação social. Estranhava sobretudo porque Pedro Passos Coelho tinha reposto a normalidade institucional com a comunicação social, exercendo, em pleno, a liberdade de imprensa.

Os resultados apareceram, o Governo PSD/CDS libertou os portugueses do buraco socialista. A economia começou a crescer, o emprego começou a ressurgir, os rendimentos começaram a ser repostos. Todo o Mundo olhava para Portugal como exemplo. E Pedro Passos Coelho voltou a ganhar as eleições legislativas. Pensei, “com estes resultados deveremos começar a ouvir a apologia desta nova forma de fazer política.” Mas isso não aconteceu!

No dia a seguir a Costa recusar ser vice-primeiro-ministro de Passos Coelho, voltei a ouvir que o PSD não sabe fazer política! “Ganharam as eleições e não vão para o Governo porque não souberam fazer política.”

A cultura e ação política do PS continuava a ser um must! Agora liderada pelo antigo número dois de Sócrates.

Sócrates, Costa e o PS é que sabem fazer política.

Costa é hoje o novo Sócrates político que muitos enalteceram. A Política ou o Pragmatismo, como agora muitos rotulam, está de regresso com António Costa.

Mas esta é uma cultura política que persiste no tempo.

Em 2003 vieram a publico noticias de que Costa era um dos principais pivots na tentativa de “obstrução da justiça” no caso Casa Pia. Ao mesmo tempo ouvíamos Ferro Rodrigues afirmar que se estava “cagando para o segredo de justiça.” Já com António Costa como Primeiro-ministro assistimos à interferência em negócios privados através do seu amigo Lacerda Machado.

E as interferências nos reguladores? As críticas públicas ao Banco de Portugal só terminaram quando a administração do Banco aceitou integrar nomes que agradavam a António Costa. Ou os ataques a empresas privadas que não foram inicialmente ao beija-mão de António Costa. Como foi o caso da Altice ou da EDP!

No espaço editorial é ver Silva Pereira, o duplo de José Sócrates, a opinar em vários meios de comunicação social como respeitável político. Ele que foi um dos obreiros da bancarrota e, segundo algumas noticias, também muito próximo do amigo de Sócrates…

Se Sócrates era levado em ombros por ser um “animal político” Costa é hoje elogiado pela sua “habilidade”. A mesma habilidade que Sócrates teve quando privilegiou determinados grupos económicos, a mesma habilidade que Sócrates mostrou no controlo da justiça ou no controlo do sistema financeiro, a mesma habilidade que Sócrates demonstrou no ilusionismo das contas públicas. Os princípios e as ações políticas são as mesmas de António Costa.

Se Sócrates fazia conferências de imprensa para omitir decisões do seu próprio Governo, António Costa dá por encerrados os assuntos mais complicados para a sua imagem. Se Sócrates rotulava a TVI de fazer “um jornalismo travestido”, António Costa acusa a comunicação social de ter uma informação de “péssima qualidade”. Mas se Sócrates era “sedutor” com os jornalistas António Costa também não renuncia a essa prática. Basta vê-lo no final de cada debate quinzenal a confraternizar com os jornalistas pelos corredores da Assembleia.

E as semelhanças entre Sócrates e Costa no que diz respeito à Procuradoria-Geral da República? Também vamos fechar os olhos em relação a isso?

Sócrates escolheu a dedo Pinto Monteiro. António Costa ameaça a atual PGR, que foi nomeada por Pedro Passos Coelho e Paula Teixeira da Cruz com base na liberdade e independência total em relação ao poder político.

Como terá dito Aguiar-Branco “o PS de ontem é o PS de hoje” e o PS de hoje que está a fazer o PS de amanhã é o mesmo. Não mudou nada.

E o silêncio que os líderes do PSD e do CDS parecem querer impor será lida como o apadrinhamento de uma cultura política que devia ser repudiada. Este silêncio contribuirá para a promoção da banalização desta forma de fazer política.

Ao contrário da narrativa instalada, a Política não deve ser isto.

Há algo em que realmente Costa conseguiu vencer Pedro Passos Coelho: Passos quis mudar a mentalidade e a cultura política. António Costa, que personifica a velha mentalidade e a velha cultura política, não deixou. Não quis! E travou a necessária mudança.

Em todo o caso a origem do que hoje debatemos em torno de Sócrates e do PS surgiu no dia em que Pedro Passos Coelho disse não a Ricardo Salgado. E esta é uma vitória política que deve em muito orgulhar os defensores de uma sociedade livre! Mas que corre o risco de não ser duradoura!

António Valle é Consultor de Comunicação