1 Após uma “hecatombe” nas legislativas de maio em que passou a ser terceira força política no Parlamento, o PS voltou para ser a “única alternativa” ao PSD. Esta foi a reação de José Luís Carneiro à derrota clara nas autárquicas. Os socialistas lideraram o mapa autárquico durante 16 anos consecutivos e na noite eleitoral em que surpreendentemente perdem essa liderança, o líder do PS festeja o facto de ficar em segundo lugar — e à frente do Chega. Isso diz muito sobre o estado do PS.

Contudo, o pior de tudo é que muitos socialistas ainda não perceberam o risco de entrarem numa espiral descendente — sustentada e irreversível. Não é a existência do PS que está neste momento em jogo — e espero que não venha a estar. É, sim, a oportunidade de o PS ganhar juízo — se quer ter futuro.

Mas antes de irmos ao PS em pormenor, há vários pontos prévios que merecem ser assinalados na análise destas autárquicas de 2025:

  • O PSD anulou uma diferença de 34 autarquias que tinha face ao PS — o que não é coisa pouca. Passou a liderar sozinho ou em coligação um total 136 autarquias (mais 22 autarquias que tinha antes) e viu os socialistas perderem 20 autarquias.
  • Logo, o PSD é o grande vencedor da noite e pode mesmo dizer-se que houve uma onda laranja no voto urbano e suburbano dos concelhos com mais população do país. É a primeira vitória do PSD nas autárquicas desde 2009.
  • O PS foi o maior partido português no mapa autárquico durante 16 anos e deixou de o ser devido a uma estratégia para as autarquias determinada pela liderança de Pedro Nuno Santos, sendo o resultado de Lisboa o mais paradigmático disso mesmo.
  • O Chega tem metade das autarquias do CDS — um partido que muitos pensam que já não existe. Dito de outra forma: Nuno Melo tem o dobro das câmaras de André Ventura. Na lógica e na linguagem que o Chega costuma usar, isto é um resultado suficientemente humilhante e fala por si só. Mas só por culpa própria das exageradas expectativas de André Ventura. Tem 137 mandatos (tinha 19 em 2021) e será relevante na governabilidade de muitos concelhos.
  • A CDU tinha 19 autarquias, acabou a noite com 12 e perdeu todas as capitais de distrito que tinha. Em Setúbal, acabou em 4.º lugar, e em Évora e Beja terminou em 3.º lugar. Só Bernardino Soares para dizer que estes resultados representam uma vitória, com disse esta 2.ª feira na CNN Portugal.
  • A IL ganhou dois mandatos (além de participar em muitas coligações lideradas pelo PSD), o BE perdeu os quatro mandatos que tinha (também fez muitas coligações que tentam atenuar esse desaparecimento) e o Livre ganhou uma autarquia (Felgueiras) em coligação com o PS.

2 Falemos do PS a partir do segundo dado mais relevante da vitória do PSD. O partido de Luís Montenegro ganhou Lisboa, Porto, Gaia, Cascais, Braga, Setúbal e apoiou a candidatura de Isaltino Morais. Ou seja, além de ter ganho um total de 136 autarquias que lhe permitiu ganhar as eleições, o PSD ganhou sete do 10 concelhos mais populosos do país.

Nesses sete concelhos teve vitórias mais folgadas (como em Cascais, Oeiras e Vila Nova de Gaia), vitórias claramente tranquilas (como em Lisboa, onde Carlos Moedas ficou no limiar da maioria absoluta) e vitórias mais renhidas (como em Sintra e Braga).

Mas o mais importante é o valor impressionante da totalidade da população que reside nesses sete concelhos: cerca de dois milhões de habitantes. Isto, é, cerca de 1/5 do total da população nacional.

Mais relevante ainda: são concelhos que fazem parte dos círculos eleitorais que elegem mais deputados, 126 deputados no caso. Obviamente que a vitória nesses concelhos não faz automaticamente com que se possa fazer uma extrapolação automática para o resultado de uma legislativas — por exemplo, o PS ganhou o distrito do Porto. Mas é muito relevante a vitória do PSD nesses sete concelhos — até porque traduz uma espécie de onda laranja no voto urbano e suburbano e é legítimo que o Governo de Luís Montenegro leia estes resultados como um apoio do eleitorado à política do Executivo.

Refira-se que Montenegro apostou forte nestas autárquicas: negociando uma baixa de impostos com o Chega e a IL durante o verão, antecipando o Orçamento de Estado e promovendo um novo aumento extraordinário das pensões. É eleitoralismo? É, mas certamente que tal prática não foi inventada por Montenegro — como António Guterres, José Sócrates e António Costa certamente saberão.

3 Acresce a tudo isto outro dado muito relevante. É verdade que o PS conseguiu ganhar nove capitais de distrito (tinha apenas cinco) e passou a ter mais uma do que o PSD — o que levou José Luís Carneiro a dizer que o PS tinha ganho “o voto urbano, mais exigente”.  É verdade que os socialistas passaram ter mais uma capital de distrito do que o PSD (têm nove contra oito do PSD) mas esses concelhos têm cerca de 40% da população dos sete concelhos mais populosos conquistas pelo PSD e fazem parte de círculos eleitorais com muitos menos deputados.

O que me leva um ponto relevante. Sabe o caro leitor a cidade mais populosa que o PS conquistou — ou melhor, que manteve? Chama-se Loures e é governada por Ricardo Leão — autarca que os socialistas bem pensantes que proliferam na comunicação social e os que lideram o Largo de Rato simplesmente abominam.

Sabe qual foi o resultado de Leão? Subiu a sua votação de forma muito significativa, para uma maioria absoluta de 43,3% dos votos, reforçando claramente a votação face a 2021.

Será que vale a pena o PS refletir bem sobre o facto de Loures ter sido o concelho mais relevante em termos populacionais que conquistou?

4 Antes de irmos ao que o PS tem a aprender com Ricardo Leão, foquemo-nos noutro ponto. Vários estudos pós-eleitorais das legislativas de 2024 e 2025, como este do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, confirmam que o Partido Socialista é o partido que:

  • menos voto dos jovens (18-24 anos) consegue atrair em termos de peso no eleitorado total — valeu apenas 2% (2024) e 3% (2025). O PSD tem um peso de 7% em 2025 (quase que duplicou face a 2024) e no Chega o eleitorado jovem tem um peso de 12%.
  • em que o peso do voto idoso (+ de 65 anos) é mais acentuado: 44% em 2025. Esse eleitorado teve um peso de 30% no PSD em 2025, sendo que os social-democratas têm na faixa etária entre os 45 e os 64 anos o seu principal eleitorado (peso de 38%) e o Chega tem na faixa etária entre os 25 e os 44 anos a sua maior concentração de voto (peso de 41%) e apenas 12% no voto mais idoso.
  • em que aqueles que têm estudos universitários tiveram um peso de apenas 14% no eleitorado de 2025 (tinha sido 12% em 2024). O Chega anda muito perto desses valores (10% em 2024 e 11% em 2025), enquanto que o eleitor do PSD com estudos universitários representa mais do dobro (peso de 30% em 2024 e 2025).

Estes dados reforçam outros estudos com resultados semelhantes, como este de Pedro Magalhães feito com base em dados das sondagens à boca da urna cedidos pela Pitagória relativos às legislativas de 2022.

5 Resumindo e concluindo, o PS depende muito do eleitorado idoso, praticamente não tem penetração no eleitorado mais jovem e tem metade do eleitorado do Chega na faixa etária dos 25 anos aos 44 anos. Em termos socio-económicos, o PS tem uma maior penetração nas classes sociais mais baixas e os seus eleitores com estudos universitários têm um peso reduzido face ao eleitorado PSD.

Este diagnóstico não é novo e tem vindo a agravar-se nos últimos anos.

E, refira-se, não  surpreende. Desde os governos de António Guterres que o PS se caracteriza por ser um partido imobilista e conservador — uma imagem que foi consolidada pelos executivos de António Costa. Não lhe é reconhecido um ímpeto reformista, como é ao PSD. Numa palavra, o PS nada quer reformar. Exemplo? Entende que o sistema da segurança social (que tem um problema estrutural de financiamento há anos) está bem, insiste que o nosso sistema de fiscal castrador de criação de riqueza está bem e de acordo com a média da União Europeia (ignorando as paridades de poder de compra dos diferentes países), não quer reformar a legislação laboral, sempre entendeu que faz sentido que setor público e setor privado tenham regras distintas e discriminatórias, etc. etc e etc.

A consequência desta política é simples: os jovens (os mais prejudicados pelo imobilismo do PS) não se sentem representados pelo PS e os idosos e os beneficiários do salário mínimo nacional e do rendimento mínimo garantido seguem mais os socialistas.

O PS está cada vez mais desligado dos problemas reais do país e o que estes resultados das autárquicas demonstram é que a classe média urbana e suburbana está a começar a fugir aos socialistas. Se o PS não tem cuidado, vai começar a perder o eleitorado da função pública para o PSD, por via dos aumentos salariais que o Governo Montenegro tem dado a professores, polícias e outros funcionários públicos. A perda do eleitorado da função pública é uma espécie de alerta vermelho que deve fazer disparar a toda força nas salas apalaçadas do Largo do Rato. Isto, claro, se alguém as quiser ouvir.

E é aqui que regresso a Ricardo Leão. O autarca que é quase demonizado pela elite socialista que influencia o Largo do Rato e os media faz mais pelo partido do os bem pensantes de esquerda. Porquê? Porque encara o problema da imigração com os olhos dos seus munícipes, enfrenta a questão das barracas com coragem e não se esconde atrás de teorias bem intencionadas. Gerir uma autarquia é isto: é estar próximo das pessoas. Mas gerir um partido não deveria ser muito diferente. Talvez por isso é que Leão teve maioria absoluta e é o autarca mais representativo do PS neste momento. Não é Luísa Salgueiro, que sai da liderança da Associação Nacional de Municípios, apesar de ter renovado a sua maioria absoluta em Matosinhos.

6 O que deve José Luís Carneiro fazer? Em primeiro lugar, não tendo sido o responsável pela estratégia autárquica do PS — foi Pedro Nuno Santos — a sua posição à frente do PS não está em causa. Mas Carneiro tem de mostrar outra capacidade de liderança que não teve até ao momento. O secretário-geral do PS tem sido uma espécie de refém da ala costista que lhe estendeu o tapete vermelho da unanimidade para permitir que chegasse ao Largo do Rato sem contestação.

A principal prova disso é o facto absolutamente ridículo de António José Seguro ainda não ter recebido o apoio oficial do PS. Carneiro e Seguro estão objetivamente mais próximos em termos de história pessoal, de pensamento, de ação e de estilo de liderança, do que alguma ver Carneiro estará de Costa. Portanto, José Luís Carneiro tem aí uma hipótese de mostrar que é líder: apoiar Seguro, mesmo contra muitos dos costistas — que têm uma espécie de preconceito pessoal herdado de António Costa desprovido de qualquer sentido político. Tendo em conta os resultados das sondagens também não deve ser algo muito complicado.

Em segundo lugar, José Luís Carneiro tem de recentrar o PS sem tibiezas. O PS é um partido do centro-esquerda que sempre lutou contra o Partido Comunista Português e grupúsculos da extrema-esquerda, como aqueles que vieram dar lugar ao Bloco de Esquerda. Cortar com a gerigonça, afastar o PS de posicionamentos estruturais próximos do PCP ou do Bloco é um imperativo estratégico para que os socialistas recuperarem credibilidade.

Um parêntesis rápido: como é possível alguém no PS pensar em aliar-se ao Bloco de Esquerda — um projeto político que já não representa praticamente ninguém, que tem apenas uma deputada e uma candidata presidencial com uma indicação de voto inferior a 2%? A presença de Mariana Mortágua ao lado de Alexandra Leitão deve explicar uma parte da surpreendente vitória folgada de Carlos Moedas em Lisboa, quando se pensava que seria uma eleição disputada até ao último voto.

Regressando a José Luís Carneiro. O secretário-geral do PS tem se deixar de conversas sobre “linhas vermelhas”. Sejamos francos: essa conversa é uma treta que apenas favorece o Chega, além de ser profundamente anti-democrática. Se Portugal é uma democracia representativa, como vamos colocar um cordão sanitário em redor dos 1,4 milhões de eleitores que votaram no Chega — um número praticamente igual aos que votaram no PS? Só o PCP e o Bloco de Esquerda, partidos historicamente anti-democráticos e ungidos da sua (falsa) superioridade moral é que podem pensar em estratégias políticas suicidas como essa.

O PS tem uma boa oportunidade nas próximas semanas para ganhar juízo. Ou quer ser um partido relevante, como sempre foi, ou quer ser contaminado com teorias que só o isolam das preocupações essenciais dos portugueses. Em breve, serão discutidos no Parlamento os nomes que vão substituir os três juízes conselheiros do Tribunal Constitucional que já terminaram os seus mandatos e os representantes da Assembleia da República no Conselho Superior da Magistratura e no Conselho Superior do Ministério Público, além do cargo de provedor de Justiça. Ao contrário do que os bem pensantes dizem, a democracia tem a ganhar com listas únicas negociadas entre PSD, Chega e PS.

E, finalmente, o tema da imigração — que é um tema fulcral para o eleitorado do centro-direita e do centro-esquerda. José Luís Carneiro tem de estabilizar, de uma vez para sempre, a política do PS sobre esse tema. Das duas uma: ou a política de António Costa estava errada (como Pedro Nuno Santos assumiu) ou então estava completamente certa (e os portugueses é que estão errados quando entendem que o Governo Costa falhou nessa área)?

A questão resume-se a uma frase: ou o PS se aproxima do centro (deixando para trás os seus antigos parceiros da geringonça) e acompanha as preocupações essenciais do eleitorado ou a sua queda estrutural vai agravar-se nas próximas eleições legislativas.