Há uma semana o PSD despertou de um sonho. Desde as legislativas, em que os eleitores votaram na AD mais por medo de Pedro Nuno Santos que por entusiasmo em Luís Montenegro, e com a vitória nas autárquicas, que foi fruto da coligação com a Iniciativa Liberal, o PSD vivia na ilusão de ser o partido preferido dos portugueses. Diz-se que os vencedores não devem dormir à sombra dos louros, mas como estes não foram merecidos o PSD deixou andar. Até que na noite de 18 de Janeiro bateu na parede. E com estrondo.
Se olharmos para as presidenciais de 1986 concluímos que estas desenharam o cenário político-partidário dos anos seguintes. De certa forma, Maria de Lourdes Pintasilgo antecipou o que veio a ser o Bloco de Esquerda (e não deixa de ser curioso que Pintasilgo fosse uma católica progressista e o hoje Bloco seja liderado por um católico igualmente progressista), Francisco Salgado Zenha representava o PCP (que continuou com votações expressivas durante muitos anos), Mário Soares era a figura mais conhecida do PS europeísta que veio a dominar a vida política de 1995 a 2024, enquanto Diogo Freitas do Amaral foi o prenúncio do Cavaquismo. Nos dez anos seguintes, o PSD obteve duas maiorias absolutas com mais de 50% dos votos e as vitórias de Durão Barroso e Pedro Passos Coelho terão ainda sido resquícios desse fenómeno que uniu a direita debaixo de um partido.
Este cenário terminou definitivamente na noite de 18 de Janeiro. A pergunta que fica no ar é esta: será que, à semelhança do que sucedeu há 40 anos, estas presidenciais vão redesenhar o cenário político-partidário? Ainda não sabemos porque é demasiado cedo para termos uma resposta, como ninguém, em 1986, podia antever o que veio a acontecer em 1987 e nos anos posteriores. Mas há essa possibilidade porque existe um precedente. Assim, é legítimo que nos perguntemos como vai ser o futuro político-partidário do país. Vamos ter um PS sem concorrência à esquerda? A passagem de António José Seguro à segunda volta, apesar do apoio tardio do PS, confere a este partido um seguro de vida inesperado que se concretizará caso o socialista seja eleito presidente. Teremos um Chega que representa definitivamente a nova direita populista? André Ventura agarrou o seu eleitorado e tem a oportunidade de aumentar a percentagem da sua votação na segunda volta. Haverá um centro-direita constituído pela soma dos votos em Cotrim de Figueiredo e em Marques Mendes, e cujo destino partidário se desconhece? Cotrim tornou evidente que um bom candidato de outro partido pode causar estragos no terreno dos sociais-democratas.
O certo é que o PSD, se despertar do sonho em que se deixou embalar em Maio último, tem muito em que pensar. Dividido entre várias facções torna-se difícil ganhar as próximas legislativas. O desentendimento interno foi tal que ficámos sem saber se o mandatário nacional de Gouveia e Melo teve alguma responsabilidade na táctica de aniquilação da candidatura oficial do seu próprio partido. Junte-se um governo que, sem maioria e agora sem força política para fazer as tais reformas que são precisas, vai passar os próximos meses a ser responsabilizado pela contínua degradação dos serviços públicos. Político treinado que é, Luís Montenegro já deve ter concluído que a sua margem de manobra é curta ou mesmo inexistente. Mas esse é um problema dele. Quanto ao PSD, se ainda é o que foi outrora, já deve ansiar pelo salvador.
P.S.: André Ventura não é um fascista nem um antidemocrata. É um demagogo que, chegado ao poder, pressionará as instituições, a imprensa e o povo para levar a sua avante. Mas daí a ser fascista ou antidemocrata vai um passo muito grande que apenas descredibiliza quem faz essa acusação ao mesmo tempo que lhe dá mais força. É um populista que promete tudo a todos, desde subsídios a descida de impostos. É o que for. As suas propostas implicam aumentar despesa pública e reduzir a receita. O resultado é uma bancarrota ao género da de José Sócrates. Mas o combate a Ventura não se faz isolando-o e fazendo dele o opositor de um sistema em crise com o qual os portugueses estão descontentes. A resposta adequada não é ir a reboque da agenda de Ventura, mas que os moderados imponham a sua própria agenda. Os portugueses vivem com dificuldades no acesso à saúde e à habitação. Recebem salários baixos. Sabem que vão ter reformas que de pouco servirão na velhice. Estão preocupados com as mudanças que ocorrem na sociedade portuguesa. Perante um avolumar de problemas, levaram durante 30 anos com políticos e governantes que pouco ou nada fizeram para os resolver. E agora são encostados à parede pela esquerda e por algumas personalidades de centro-direita que os acusam de serem fascistas se não apoiarem e votarem num candidato que pouco fez por lhes melhorar a vida e nada mais promete que não seja chegar a consensos. Os tais consensos responsáveis pelo imobilismo das últimas décadas. A nossa democracia tem mais de 50 anos e o fantasma do fascismo tem cada vez menos peso político porque as gerações mudaram. Perceber isto é também uma arma política. Mas há mais. Dividir o país entre democratas e antidemocratas em nada difere da táctica de Ventura em dividir os portugueses entre bons e maus. Entre verdadeiros e falsos portugueses. A divisão não é caminho nem solução. Alinhar nesta estratégia é seguir os termos impostos pelo adversário. É dar-lhe vantagem logo à partida. Em França, o centro-direita e os socialistas seguiram a mesma táctica. Falharam. Mas em Portugal há esta ideia, quase certeza, que somos melhores que os outros. Até que batemos na parede. E com estrondo.