Nesses meses em que estou acompanhando Portugal à distância, me parece que uma breve síntese do que é transmitido acerca do país seria o frio avassalador, o escancarado problema dos custos de habitação, o assombroso número de pessoas desalojadas ou sem condições de se manterem em suas casas e o tal polêmico altar-palco para a Jornada Mundial da Juventude de agosto desse ano, que acontecerá entre Lisboa e Loures, estimado em 4,2 milhões de euros.

Li que além do valor da obra, ainda são estimados 8 milhões de euros para retirar contentores, três milhões em uma ponte para pedestres e diversos outros gastos paralelos. De acordo com as conversas dos meus colegas de Observador Ricardo Conceição e João Francisco Gomes no podcast A História do Dia, os gastos do evento podem chegar a 150 milhões de euros, partilhados entre o governo português, a câmara de Lisboa, a câmara de Loures e a Igreja.

Certamente o palco ficará como uma benfeitoria à cidade, podendo servir a uma série de outros eventos que gerarão turismo e entrada de verbas no país. Assim como não há dúvidas de que a Jornada Mundial da Juventude, em si, enquanto evento internacional, poderá trazer benefícios financeiros a Portugal. Quando o evento ocorreu em Madri houve um superávit, quando ocorreu no Rio de Janeiro foi deficitário. Tudo depende de questões de gestão e de estabelecer prioridades.

Fico muito pensativa sobre tudo isso. Qual seria a reação popular se uma despesa dessa monta fosse destinada a um evento evangélico? Ou a um evento relacionado a qualquer outra religião que não a católica. Portugal é, evidentemente, um país preponderantemente católico, mas até onde deve ir a participação do Estado em um evento desse tipo? Quanto dinheiro público pode ser injetado num evento ligado a uma Igreja?

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Me pergunto, pensando na visão dos próprios católicos – bem como reflito como quem estudou a vida inteira em uma escola franciscana, seguida da Faculdade de Direito, pós graduação e mestrado em uma universidade pontifícia – sobre as despesas da própria Igreja com esse tipo de evento quando tantas entidades de solidariedade social católicas passam por dificuldades financeiras extremas num cenário pós pandêmico e de guerra na Europa.

Me pergunto, por fim, o que Jesus Cristo pensaria sobre tantos milhões de euros empregados num evento que acontece num país onde a situação de habitação passa por um momento tão delicado, onde muitos não conseguem se proteger do frio e das chuvas e onde milhares de famílias dependem de instituições de caridade para conseguir comer.

Me pergunto, enfim, se Jesus Cristo subiria num palco de quase 5 milhões de euros para falar sobre amor ao próximo, sobre justiça social, sobre solidariedade. Me pergunto se refletir sobre Jesus Cristo é, efetivamente a intenção primordial do evento. Talvez seja a minha pergunta que esteja errada. Talvez não seja sobre Cristo, mas sobre a instituição em si, sobre números de fiéis, sobre outras coisas, que podem ter sua relevância, mas que não são propriamente reflexões sobre a fé ou sobre o outro.