Daqui a umas décadas, os historiadores irão escrever qualquer coisa do género: “Os ataques terroristas do Hamas a Israel no dia 7 de Outubro de 2023 foram o início de um processo político e diplomático que levou países europeus a reconhecerem o Estado da Palestina.” É um modo de entrar nos livros de história por uma má razão.
Repetindo o óbvio: o reconhecimento do “Estado” da Palestina nada vai mudar em relação ao que acontece em Gaza. E também não vai criar um “Estado” da Palestina que não existe. Há critérios objectivos, consagrados no direito internacional, para se fundar um Estado; esses critérios não existem na Palestina. Os países europeus que reconhecerem o “Estado” da Palestina não estão a fazer diplomacia — estão a comportar-se como ONGs e estão a mostrar impotência política. Se as coisas ficassem por aqui, seria patético, mas não seria muito grave.
O que é grave é mesmo a vitória que os países europeus vão dar ao Hamas. Desde logo, estão a elevar o Hamas, um grupo terrorista, acima da Autoridade Palestina. Os países europeus não reconheceram o “Estado” da Palestina por causa da AP. Vão reconhecer por causa do Hamas. Os países europeus que reconhecerem o “Estado” da Palestina estão a transformar o Hamas no principal actor político palestiniano. Os mesmos países que consideram o Hamas um grupo terrorista, preparam-se para elevá-lo a principal representante do povo palestiniano. Os responsáveis políticos europeus podem dizer e jurar que não é assim. Mas será assim que a maioria dos palestinianos entenderá a situação. O que a AP não conseguiu durante décadas de negociações diplomáticas, o Hamas conseguiu com um ataque terrorista.
Os países que vão reconhecer o “Estado” da Palestina querem fazê-lo no contexto da ONU. Lamento dizer, mas no que toca a Gaza, a ONU tem servido para legitimar discursos terroristas (já para não falar da participação de funcionários da ONU nos ataques terroristas do dia 7 de Outubro). Veja-se o recente relatório da ONU afirmando que há um “genocídio” em Gaza. No sumário dos factos relativos ao início da guerra em Gaza, o relatório diz o seguinte: “On 7 October 2023, Israel launched its military offensive in Gaza, which included airstrikes and ground operations.” Onde estão as referências aos ataques terroristas do Hamas? Onde se diz que o governo israelita começou os ataques militares em Gaza como resposta aos ataques do Hamas? Em Outubro de 2023, não havia qualquer presença israelita em Gaza. Era um território totalmente governado pelo Hamas.
Isto mostra o que muitos na ONU pensam sobre os ataques terroristas do dia 7 de Outubro: foi uma operação de legítima defesa contra a “ocupação israelita da Palestina.” Mas em Gaza, não havia ocupação israelita. Ou seja, no caso de Gaza, a ONU não tem credibilidade alguma.
Por fim, deixo uma pergunta aos responsáveis do governo português (aparentemente, Portugal também irá reconhecer o “Estado” da Palestina): colocaram como condição para esse reconhecimento que a AP e o Hamas reconheçam o Estado de Israel?