“(…) o Chega é um sintoma. É um partido que se apresenta contra o regime, mas não é o partido que está a destruir o regime, quem está lentamente a destruir o regime são os grandes partidos que mandam no regime, que traficam o regime, que transacionam tudo e seguem a opinião da turba e as exigências demagógicas das redes sociais.”
Sérgio Sousa Pinto, Expresso

Não continuem a querer enganar-se a si próprios. Reparem que André Ventura é completamente indiferente a que o digam de extrema-direita. Sabem porquê? Porque… NÃO é.

O Chega é um partido de direita, de direita direita, o mais à direita. O CDS nunca se assumiu realmente como um partido de direita (quase não é nada hoje). Nunca se afirmou da direita, direita que na Democracia até agora nunca tivemos.

Repare-se: CDS, Centro Democrático Social. Não é “direita”, é “centro”. E mais, é “democrático”, e mais ainda, é “social”. Como então o PPD: Partido Democrático Social.

Fenómeno resultante do estigma a que o regime anterior condenou a direita, o pensamento e o nome, na emergência do regime democrático nenhuma formação política ousou afirmar-se e designar-se direita, nem, na verdade, sê-lo. Uma deficiência à partida, que viria a limitar e condicionar toda a história subsequente do regime e do País.

Só o PS, com o Homem de coragem e sem complexos que naquele período de brasa teve a liderá-lo, pôde resistir a esse auto-engolimento. Resistência que a designação “socialista” e os aliados na Europa e na América permitiram.

O que lamentavelmente não impediu que a democracia e o País sejam ainda hoje feridos por um absurdo complexo relativamente ao marxismo e ao PCP que aquele período e a época antecedente deixaram em muitos socialistas e em muito da intervenção política e governativa do PS. Complexo que hoje só uma ignorância cada vez mais inaceitável explica hoje.

Aquilo a que assistimos agora – 50 anos depois! – é à ultrapassagem, à rectificação desse constrangimento inicial que perdurou.

Constrangimento que no quadro endémico de baixo nível de instrução e cultura da sociedade portuguesa, hoje agravado exponencialmente pela tragédia educativa verificada, com brevíssima pausa, nos últimos 40 e tal anos, se deve a um poder ideológico e de facto do PCP, nunca sustentado, aliás, na realidade social do País.

E acontece que este momento histórico em que parece verificar-se finalmente a superação desse condicionamento inicial, com a emergência de uma direita a assumir-se como tal (com um centro a ganhar assim espaço maior e mais claro) de que estavam órfãos tantos portugueses, surge no tempo de uma falência de credibilidade dos partidos, dos políticos, logo das suas designações tradicionais. E a novidade do nome é a novidade da coisa, esta exprime-se naquela.

Note-se que as novas designações, entre nós e noutros países da Europa, nem mesmo deixam perceber só por si a posição que os novos grupos políticos vêm ocupar no espectro da velha dicotomia “Esquerda”, “Direita” ou “Centro”. Podemos, Vox, Ciudadanos, France Insoumise, Republique en Marche, Rassemblement National, Chega, etc.

Do mesmo modo, também as propostas políticas concretas dessas novas formações vão no sentido duma crescente perda de significado, credibilidade, funcionalidade, da divisão, esquerda direita.

Muito significativo ainda é o facto dos novos nomes remeterem para “acção”, intervenção imediata, e também para a impossibilidade de uma caracterização social, económica e de estatuto cultural, dominante nos respectivos militantes, apoiantes e eleitores.

E surge a lembrança inevitável do nome União Nacional escolhido por Salazar num mesmo contexto de descrédito dos partidos e da democracia.

Tudo isto sintoma e reflexo, note-se, de uma crise do modelo democrático na forma intocável, “sacralizada”, que tem revestido. Uma crise induzida pelo facto de amplas camadas das populações se sentirem hoje esquecidas pelas elites políticas, afastadas da partilha de prosperidade inimaginável que a democracia liberal gerou desde há 100 anos e continua a prometer.

Realidade e frustração atribuídos, redutora e ingenuamente, em exclusivo aos partidos tradicionais, aos governantes que foram ocupando o poder, ao regime político, enfim.

E é neste contexto de expectativas frustradas, de displicência, cobardia reformadora, venalidade dos “que traficam o regime, transacionam tudo e seguem a opinião da turba e as exigências demagógicas das redes sociais”, que brotam e engordam os populismos, ante-câmara dos fascismos.