Começo por referir que o contributo do setor privado para estas patologias é diminuto na fase aguda e sobressai sobretudo na prevenção e na fase pós-acidente vascular. Tal resulta do facto que a Via Verde instituída para este tipo de patologia em especial nos acidentes vasculares cerebrais — AVC — e não nos acidentes isquémicos transitórios — AIT — não contempla o envio destes doentes para instituições privadas. Fica uma faixa residual de doentes em que os sintomas precoces são percecionados e, o doente cliente, regular das instituições privadas as procura e nelas encontra resolução para o seu problema. Recordo que o tempo eficaz de atuação terapêutica na fase aguda é reduzido — cerca de seis horas.

Iremos percorrer os vários aspetos desta patologia realçando desde já que ela representava, em 2022, cerca de 7.7% do total de óbitos em Portugal sendo umas das mais elevadas entre as causas de mortalidade. Embora tenhamos assistido a um ligeiro decréscimo nos últimos anos continua a ser mais frequente no sexo feminino e acima dos 65 anos.

As doenças cerebrovasculares incluem os AVC, hemorrágicos ou isquémicos, e as suas consequências (incapacidade, morte), encontram-se associadas a fatores de risco (hipertensão, aterosclerose, diabetes, fibrilação auricular (patologia que iremos abordar mais detalhadamente dada a sua relevância), assim como os acidentes isquémicos transitórios (AIT).

O tratamento envolve a prevenção (primária e secundária), o diagnóstico precoce, tratamento agudo, a sua integração no sistema de emergência e, finalmente, reabilitação. O impacto da medicina privada no seu todo é difícil de quantificar, mas claramente muito relevante na fase de prevenção sobretudo no controlo/acompanhamento dos quadros clínicos da diabetes, hipertensão, aterosclerose e fibrilação auricular, patologias mais relevantes na prevenção dos AVC.

Na atualidade, muito desse acompanhamento está facilitado através dos dispositivos usáveis, nos quais a medição da frequência cardíaca, da tensão arterial e da glicemia permitem ao médico um acompanhamento regular. A literacia em saúde permite ao portador /doente um conhecimento mais profundo da sua saúde, e assim, uma melhor prevenção.

A precocidade do diagnóstico é crucial na fase aguda, pois dele depende a atuação terapêutica. A eficácia da terapêutica é substancialmente mais elevada nas primeiras seis horas, pois passado este período a situação de lesão cerebral está estabelecida, na maioria dos casos.

A intervenção deve sempre ser feita em centros especializados e, tal como acontece com a maioria das patologias, a experiência e o número de casos realizados condiciona os resultados. O facto já referido da orientação da Via Verde exclusivamente para unidades públicas limita a capacidade de resposta das instituições privadas. Procedimentos necessários e adequados na fase aguda, como a trombólise/trombectomia exigem equipamento e neurologistas intervencionistas experientes, entre outros. Estes tendem a estar concentrados em grandes centros públicos, pelas razões que referi.

Em 2024, de acordo com a DGS, houve um aumento no número de doentes com AVC agudo tratados com revascularização em hospitais públicos. Isso mostra o progresso na resposta das instituições públicas, mas no documento não há menção expressa ao papel do privado que reconhecemos diminuto. Acreditamos, contudo, que num futuro próximo surja alguma alteração na atual política e os privados possam passar a ter um papel relevante também nesta área.

A sequência diagnóstica nos casos percecionados precocemente pode ser efetuada em ambiente privado e aí, sim, o impacto destas unidades é muito relevante dada a sua tecnologia de imagem de alta qualidade, em especial na área da TAC e da ressonância magnética.

O tema da fibrilação auricular justifica uma menção, na medida em que esta patologia representa 20-30% dos AVC. Esta patologia de ponto de partida cardíaco existe em cerca de 9% das pessoas com idade superior a 65 anos, mas num estudo recente verificou-se a ocorrência da fibrilação não diagnosticada em 35,9% de doentes com idade superior a 65 anos.

Nesta patologia, a atuação das instituições privadas é muito significativa, quer no diagnóstico, quer no tratamento médico ou de intervenção. Em especial, no grupo da intervenção a utilização de sistemas robóticos só existentes nos privados tem permitido uma qualidade muito superior nas técnicas de ablação com uma obtenção de resultados excelentes e amplamente superiores aos obtidos em ambiente público. Estes flagelos com as suas graves consequências têm, contudo, sofrido uma diminuição devido ao uso mais divulgado de medicamentos anticoagulantes.

Uma palavra sobre o AIT que poderemos considerar como um pequeno AVC e que, na maioria dos casos, não acarreta lesões residuais, se acompanhado e tratado. Serve sobretudo como um alerta para uma atuação terapêutica. Nesta área a resposta dos privados é excelente, e embora não existam estatísticas que possam comprovar, seguramente que mais de 40% destes doentes são tratados em ambiente privado.

Outras áreas em que o setor privado contribui de várias formas, direta ou indiretamente, na gestão global de doenças cerebrovasculares são:

Reabilitação neurológica intensiva

Numerosos hospitais privados e clínicas oferecem programas de reabilitação para doentes que sofreram AVC, com equipas de várias áreas (fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, neuropsicólogos) permitindo assim um acesso mais rápido a programas terapêuticos multidisciplinares.

Parcerias público‑privadas e colaborações no campo da inovação e prevenção

A Região Autónoma da Madeira firmou um protocolo de cooperação com uma empresa farmacêutica para lançar um programa que visa reduzir o impacto das doenças cérebro‑cardiovasculares, combinando “data intelligence, inovação tecnológica e terapêutica” e criando uma unidade avançada de longevidade cardiovascular. Este tipo de parcerias permite trazer recursos, know‑how, inovações diagnósticas ou terapêuticas mais recentes, que, por vezes, o setor público demora mais a incorporar.

 Serviços privados hospitalares com capacidade de resposta

O setor privado hospitalar em Portugal possui hospitais com serviços de urgência, unidades de cuidados intensivos e, em muitos casos, capacidade para diagnósticos avançados. São opções para quem tem um seguro privado ou capacidade financeira.

Complemento ao SNS (Serviço Nacional de Saúde)

O setor privado reduz a pressão sobre o sistema público, especialmente em casos de reabilitação, ou quando há listas de espera. Pacientes com seguro, ou capacidade financeira, podem recorrer ao privado para aceleração de diagnósticos ou terapias.

Tecnologia e inovação

Empresas privadas de tecnologia médica podem contribuir com equipamentos, telemedicina, unidades móveis de diagnóstico (mesmo que não haja muitas implementações documentadas), colaboração em projetos pilotos ou investigação. Em resumo, o setor privado em Portugal contribui de forma relevante, sobretudo no complemento do SNS em diagnósticos ou tratamentos não emergentes, disponibilização de reabilitação intensiva e cuidados continuados; e na constituição de parcerias com entidades públicas ou farmacêuticas para prevenção, inovação, programas regionais.

No entanto, o setor público continua a ser a principal resposta nos casos agudos de AVC, coordenação das vias emergenciais (Via Verde Coronária e Via Verde AVC), trombólise / trombectomia, e atendimentos com impacto em saúde pública.

José Roquette doutorou-se pela Faculdade de Medicina de Lisboa, foi diretor do Serviço de Cirurgia Cárdio-Torácica do Hospital de Santa Marta, de 1996 a 2006, e presidente do Colégio da Especialidade da Ordem dos Médicos, entre 1998 e 2001. Foi também presidente da Sociedade Portuguesa de Cirurgia Cardio-Torácica e Vascular e da Sociedade Médica dos Hospitais Civis de Lisboa. Diretor clínico do Hospital da Luz, até 2019, é atualmente presidente do Conselho Clínico Superior da Espírito Santo Saúde – Luz Saúde e do Conselho clínico da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada. É também um dos cronistas convidados do Arterial, a secção do Observador exclusivamente dedicada às doenças cérebro-cardiovasculares.

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