Hoje o céu de Roma parece mais pesado, como se carregasse o peso de uma espera que corta o coração. No Hospital Gemelli, um homem de 88 anos, Jorge Mario Bergoglio — o nosso Papa Francisco —, luta para respirar. A pneumonia que o aflige não dá tréguas. Dizem-nos que está alerta, que passou a noite em paz, mas que a dor está mais forte, insistente, enquanto o oxigénio lhe chega em grandes doses e o sangue, esse fio de vida, é-lhe dado por transfusões. O Vaticano fala em “condição crítica” e “prognóstico reservado”, e eu, sentado aqui a escrever-te, sinto um nó na garganta que me custa a explicar.
Não é só um Papa que ali está, deitado ou sentado na cadeira onde se recusa a render-se ao cansaço do corpo. É um homem bom, um pastor que trocou os sapatos vermelhos do poder por pés quase descalços, como os dos pobres que nunca deixou de abraçar. Lembro-me de o ver, há anos, nas imagens que guardo dentro de mim: aquele sorriso aberto, os olhos a brilhar quando falava dos esquecidos, dos que vivem nas periferias do mundo, da esperança. Ele, que veio de Buenos Aires com um sotaque simples e uma mala pequena, trouxe-nos uma Igreja que cheira a povo, a pão partido, a lágrimas partilhadas.
E agora, neste inverno que lhe vai roubando o fôlego, penso em tudo o que ele nos deu. Penso na Laudato Si’, aquele grito de amor pela terra, escrito com a urgência de quem sabe que o tempo é curto. Penso nas vezes em que se ajoelhou diante de prisioneiros, refugiados, vítimas, a pedir perdão em nome de uma Igreja que ele queria mais humana, mais próxima, mais ferida pela rua do que protegida nos palácios. Lembro-me do dia em que, na pandemia, sozinho na Praça de São Pedro, sob a chuva, nos disse que estávamos todos no mesmo barco. E eu chorei, porque ele estava certo.
Hoje, enquanto o mundo reza por ele, vejo-o como um avô que nos ensinou a sermos melhores. Imagino-o agora no quarto do hospital, com o olhar tranquilo de sempre, mesmo que o futuro esteja preso a um fio frágil. Dói-me saber que ele sente dor, que o corpo já não lhe obedece, mas há algo em mim que quer acreditar que ele sente também o nosso amor, as nossas preces, as mãos invisíveis que o seguram de todos os cantos do planeta.
Francisco, Jorge, homem de Deus e dos homens, tu que fizeste da humildade a tua coroa e da compaixão o teu cajado, não estás sozinho. Estamos contigo, como tu estiveste connosco, e se este for o teu inverno mais frio, que saibas que o teu calor ainda nos aquece. Que o teu coração, mesmo cansado, ouça o nosso: obrigado, Papa bom, por nos mostrares que a santidade não está nas vestes, mas na maneira como caminhas ao lado dos que caem.
Descansa, ou luta, se ainda tiveres forças, mas sabe que cá fora, choramos por ti, rezamos por ti e amamos-te como tu nos amaste. E se o céu te chamar, que te receba com o mesmo calor com que acolheste os últimos deste mundo, porque tu, mais do que Papa, és um homem bom.
Que o teu exemplo nos ensine: até nas noites mais longas, há estrelas que insistem em brilhar.