Desde, pelo menos, um certo julgamento na Atenas antiga que terminou com um filósofo envenenado e uma cidade aliviada que sabemos que os grupos, independentemente da sua dimensão ou estatuto, tendem a exercer uma pressão de conformidade sobre os indivíduos que os integram. A psicologia social estuda há muito este fenómeno perene. Deutsch e Gerard, em 1955, num artigo que não perdeu actualidade («A study of normative and informational social influences upon individual judgment»), distinguiram dois tipos de influência social que estão na base da conformidade: normativa, quando se trata de uma influência para o indivíduo se conformar com as expectativas positivas dos outros, e informacional, quando se trata de uma influência para o indivíduo aceitar como evidência da realidade as informações obtida dos outros.

O indivíduo (a minoria por excelência) tende, portanto, a conformar-se à maioria por via deste duplo processo: a conformidade normativa oferece ao indivíduo o conforto da aceitação alheia e o aconchego da auto-avaliação positiva; a conformidade informacional oferece ao indivíduo a crença no aumento da compreensão e na redução da incerteza. Numa palavra: conformamo-nos porque procuramos a aceitação dos outros e temos aversão à rejeição dos outros. Do «animal político» de Aristóteles (que não deve ser entendido no sentido moderno de «fazer política» mas no seu sentido original de «politikón»: animal da pólis, da cidade, da comunidade: aquele que «não tiver cidade, será um ser decaído ou sobre-humano») à «espiral do silêncio» de Noelle-Neumann (que explica bem como o terror do isolamento social conduz facilmente à autocensura), o mecanismo que acciona a conformidade está abundantemente detalhado e elucidado.

A conformidade, no entanto, enquanto adequação de comportamentos individuais a normas sociais, encerra um perigo que a história, antiga e moderna, não se cansa de exibir: o de transformar, de forma imperceptível, seres humanos em rinocerontes. Porque a conformidade, dir-se-ia, é uma espécie de processo de erosão: indetectável a olho nu, não damos pela actuação incansável e ininterrupta da sua mão invisível, mas apenas pelos seus efeitos de longo prazo. Um dia a falésia meridional da nossa infância que parecia uma gárgula prestes a levantar voo surge-nos, volvidas algumas décadas, como um rosto tombado de velho adormecido. Nem demos pela passagem do tempo, «esse grande escultor». Um dia a democracia ocidental da nossa infância que parecia um oásis de inclusão e pluralismo surge-nos, volvidas algumas décadas, como um sanatório de segregação e fanatismo. A gárgula calcária, sem darmos por isso, através de um processo erosivo, transformou-se em rosto de idoso. E nós, sem darmos por isso, através de um processo erosivo análogo (uma erosão por acção do homem, uma erosão antropogénica), vamo-nos transformando em rinocerontes.

A transformação de humanos em rinocerontes é o tema da peça de teatro de Ionesco, Rhinocéros (1959), uma hilariante alegoria precisamente sobre a conformidade e que – é a minha tese – ilustra muito bem um aspecto decisivo dos tempos que vivemos. Na peça de Ionesco, um dia irrompe um rinoceronte por uma pequena cidade francesa do interior e os habitantes da cidade, naturalmente, estranham e espantam-se com o fenómeno. O segundo rinoceronte, surgido pouco depois, já espanta menos. E assim sucessivamente: quantos mais rinocerontes surgem na cidade, menos estranheza provocam nos habitantes. Aos poucos vamos percebendo que os rinocerontes não vêm de fora: os rinocerontes são afinal os próprios habitantes: são as pessoas da cidade que se estão a transformar em rinocerontes.

Habituámo-nos, em nome de apaziguar rinocerontes, a que fanáticos discípulos de tiranos nos chamassem fascistas, racistas, colonialistas, supremacistas, sexistas (o inventário, como a biblioteca de Borges, nunca terá fim) e nos impusessem uma culpa histórica e colectiva por crimes que nem nós perpetrámos nem eles suportaram.

Primeiro estranha-se, depois entranha-se, disse o poeta. Faltou dizer: depois estranha-se quem, continuando a estranhar, se recusa a entranhar. Como na peça de Ionesco, também nós, nas democracias ocidentais, começámos por estranhar os fanáticos paquidermes que um dia surgiram a alvoraçar e a barrir no meio da praça. Nessa altura ainda éramos capazes de os chamar pelo nome: sabíamos que um rinoceronte é um rinoceronte é um rinoceronte. Mas como os estragos que faziam eram de pouca monta e como temos uma certa tendência para nos deixarmos encantar pelo exótico, fomos tolerando a sua presença. Fomos normalizando a existência de rinocerontes no meio da cidade. Hoje, há cada vez mais rinocerontes e já se começa a questionar os seres humanos que ainda não expelem barridos nem têm pelo menos um corno no meio da testa. Um dia, em maioria, os rinocerontes tomarão conta disto: os rinocerontes serão os novos humanos e os humanos os novos rinocerontes.

Habituámo-nos, em nome de apaziguar rinocerontes, a que fanáticos discípulos de tiranos nos chamassem fascistas, racistas, colonialistas, supremacistas, sexistas (o inventário, como a biblioteca de Borges, nunca terá fim) e nos impusessem uma culpa histórica e colectiva por crimes que nem nós perpetrámos nem eles suportaram. Normalizámos a nossa própria capitulação dando-lhe o nome auto-sacrificial de moderação (há todo um fanatismo da moderação ainda por estudar). Na peça de Ionesco, enquanto os rinocerontes invadem a cidade, as pessoas moderadas vão debatendo se se trata afinal de rinocerontes africanos ou asiáticos, de um corno ou de dois cornos, e os lógicos (os intelectuais são sempre os mais idiotas) vão-se alheando no desenvolvimento de silogismos profundos como: «Todos os gatos são mortais. Sócrates é mortal. Logo, Sócrates é um gato.»

Agora já normalizamos a vandalização e o entaipamento de estátuas e memoriais, a retirada de episódios de clássicos da comédia ocidental ou de clássicos do cinema ocidental. Auto-condenados a agradar fanáticos, amanhã normalizaremos um novo Index Librorum Prohibitorum que não poupará Aristóteles (é uma questão de tempo até os rinocerontes começarem a farejar as páginas sobre a escravatura e a mulher), Shakespeare (que foi macho, caucasiano, cristão, e não consta que tenha sido não-binário ou sequer membro de alguma ONG ambientalista) nem Camões (que não se esquivou a tecer comentários de teor descaradamente sexista acerca das «lácteas tetas» de uma deusa feminina objectificada que inexplicavelmente passaram incólumes pelo olho censor de frei Bartolomeu).

Tem-se falado muito de Orwell nos últimos tempos. Mas os porcos de Orwell só triunfam no final. Antes do triunfo dos porcos de Orwell, triunfam os rinocerontes de Ionesco. Onde se humanizam os rinocerontes, acaba-se a rinocerontizar os humanos. Em cidade onde triunfaram os rinocerontes, é o humano que tem vergonha de si mesmo: «Eu não sou belo, eu não sou belo. (Ele arranca os quadros, atira-os ao chão com raiva, dirige-se ao espelho.) Eles é que são belos. Eu estava errado! Oh, como eu gostaria de ser como eles. Não tenho corno, infelizmente! Que feio, uma testa lisa.». No final da peça de Ionesco, toda a cidade se rinocerontizou. Onde havia humanos, há agora apenas rinocerontes. Menos um: Bérenger. Que não se rende: «Je suis le dernier homme, je le resterai jusqu’au bout! Je ne capitule pas!». A questão hamletiana de Bérenger é também nossa: ser ou não ser um rinoceronte – eis a questão.