Nas últimas semanas tornou-se difícil separar episódios isolados de um padrão deliberado. Drones não identificados caem sobre a Polónia, caças russos rasgam o céu da Estónia sem aviso, e aeroportos dinamarqueses e alemães fecham portas diante de objetos suspeitos. São episódios que não chegam a provocar baixas, mas que perturbam rotinas, obrigam a respostas militares e semeiam dúvidas na solidez da NATO. Putin não está a declarar guerra ao Ocidente — está a corroer-lhe os nervos, um incidente de cada vez.

Ao mesmo tempo, o Estreito de Taiwan mostra a versão asiática desse mesmo manual tático. O aumento continuado de incursões da Força Aérea Chinesa que atravessam a linha média do Estreito e que violam ou circulam persistentemente a Zona de Identificação de Defesa Aérea (ADIZ) de Taiwan não é acaso nem mero exercício: é uma rotina cuidadosamente ensaiada. Em números, os cruzamentos e as entradas na ADIZ aumentaram de forma consistente nos últimos anos, transformando aquilo que antes era exceção em instrumento diário de pressão. A repetição cria habituação e corrói, lentamente, a percepção de separação entre os dois lados.

Há um nome académico para isto: “salami slicing”. A expressão descreve uma táctica de ganhos incrementais — cada fatia isolada é pequena, negligível por si só, mas o total é alterador do mapa. Moscovo usa-a com drones e incursões aéreas contra Estados europeus que fazem parte de uma aliança; Pequim usa-a no Pacífico contra um Estado insular cuja defesa depende em parte de dissuasão e do capital político de aliados distantes. O método explora a rigidez das democracias: um governo liberal, sujeito a ciclos eleitorais, opina e litiga publicamente; reage mal a crises múltiplas e constantes, porque não tem os mecanismos centrais e unilaterais de tomada de decisão que um regime autoritário dispõe.

Coloca-se a questão: quem copia quem? A resposta pode não ser linear. É provável que o padrão tático seja menos uma cópia directa e mais um efeito de espelho: regimes autoritários observam resultados táticos e estratégicos alheios e adaptam-nos às suas geografias e capacidades. Putin vê que a ambiguidade e a repetição desgastam alianças e moldam percepções; Xi observa até que ponto uma pressão contínua desconstrói a normalidade sem provocar um conflito direto. O resultado é uma convergência pragmática: aprendizagens mútuas e uma língua comum de coerção que combina militarismo de baixa intensidade, operações híbridas e desgaste diplomático.

O perigo para o Ocidente não é só militar, mas civilizacional e infraestrutural. Quando a narrativa pública se acostuma a incidentes não fatais, a linha que separa o aceitável do intolerável vai esbatendo. As operações tornam-se assim um jogo de paciência: quem se cansa primeiro? Quem esgota a tolerância interna sem perder a estabilidade do seu regime? Democracias que respondem por retórica e sanções, mas hesitam militarmente, permitem que o equilíbrio do quotidiano mude sem grande ruído. É mais fácil reinstituir defesa aberta do que recuperar soberanias quotidianas corroídas.

Portugal tem aqui uma exposição peculiar devido à sua posição de ”hub” atlântico de cabos submarinos. Estes conferem ao país uma importância estratégica crescente, onde muitos sistemas intercontinentais dependem deste equipamento, tornando-o um ponto frágil na nossa costa. Os cabos submarinos não são apenas infraestruturas económicas; são artérias críticas da soberania digital. Um corte físico pode provocar falhas de serviços, isolamento temporário de instituições, e criar janelas de oportunidade para espionagem e manipulação de tráfego. Portugal, que se pavoneia com estas infraestruturas, precisa de uma estratégia nacional e europeia que diversifique pontos de presença, aumente redundâncias terrestres e integre defesas físicas e legais contra interferência e sabotagem.

No fundo, há dois papéis essenciais para os Estados-membros: primeiro, quebrar a complacência sem cair em alarmismo — explicar que as tácticas de erosão são reais e têm lógica; segundo, empurrar para a agenda pública respostas práticas que as democracias conseguem aplicar sem transformarem tudo numa escalada militar imediata. Medidas de reforço de dissuasão colectiva, investimento em capacidades de defesa contra drones, regras de interação claras, ciber-resiliência e protecção física de infraestruturas críticas são políticas plausíveis. Ao mesmo tempo, é preciso uma narrativa estratégica que volte a pôr as democracias no papel de iniciativa: em vez de só contestar cada fatia tomada pelo adversário, desenhar e operacionalizar ”contra-fatias” diplomáticas, económicas e tecnológicas, que aumentem o custo de continuar a fatiar.