A questão é muito antiga. Remonta aos dois grandes períodos da controvérsia iconoclasta bizantina (séc. III-IV; séc. VIII-IX), que marcaram o primeiro milénio da era cristã. Na primeira fase da controvérsia, os Padres da Igreja (sobretudo, S. Atanásio de Alexandria e S. Gregório de Nissa) viram a necessidade de reformular os conceitos de “pessoa” e de “imagem”, demarcando-se da interpretação grega. Partindo da Revelação, entenderam que o conceito cristão de “pessoa” devia ser definido à luz do dinamismo intra-trinitário e que a natureza humana, criada à imagem de Deus, encontra aí a sua identidade; ser “pessoa” é, portanto, um “ser-em-relação”, no amor. O mesmo para o conceito cristão de “imagem” que, tendo origem na imagem intra-divina (o Filho), se define como consubstancial ao modelo que a origina, relacional, sacramental. Ao contrário do conceito grego que difere do modelo de origem: cópia, reprodução, representação, instrumentalização, imitação, virtual. O primeiro e o segundo concílios de Nicéia (325 e 787) acolheram esta distinção, linguística e teológica, dos conceitos. Os Padres da Igreja tinham muito claro que a intenção primordial de Deus é a Incarnação, tornar-se visível na natureza humana, com ou sem o pecado original. Ou seja, mesmo que não tivesse havido a corrupção da natureza humana, pelo pecado original, Deus teria incarnado. Para os cristãos, o mundo real fundamenta-se na certeza de que Deus, em Jesus Cristo, se uniu à natureza humana e mantém-na mesmo depois de morto e ressuscitado.

Porém, muitos bispos dos primeiros séculos mantiveram-se filiados no pensamento grego, que os impediu de aceitarem as novas categorias cristãs de linguagem. Isto teve como consequência prática o surgimento de diversas doutrinas como o arianismo, o monofisismo, o monoenergismo e o monotelismo que negavam o realismo da Incarnação; para eles, nas longas disputas cristológicas, Deus não podia ter assumido duas naturezas – humana e divina – numa só Pessoa (o Verbo). A Incarnação é aqui entendida apenas como um estado de transição depois do qual o Verbo regressa à sua origem, em Deus. Estas doutrinas foram rejeitadas pelos sucessivos concílios, sobretudo no III de Constantinopla (680-681). Foram as doutrinas divergentes, fiéis ao pensamento grego, que contribuíram para a discriminação da mulher; muitos bispos, da primitiva Igreja, nunca aceitaram verdadeiramente a concepção virginal de Maria de Nazaré, nem a natureza humana de Deus, em Jesus, que incarnou homem. Apesar de estas disputas terem ficado resolvidas no primeiro milénio da era cristã, através dos concílios, foram-se reacendendo em épocas posteriores. Hoje, mais do que nunca, entraram numa nova fase.

A negação da maternidade virginal de Maria, bem como a consequente rejeição das duas naturezas em Deus, faz com que o Novo Testamento seja interpretado à luz do Antigo Testamento, assente na autoridade dos Patriarcas. A fé de Abraão prevalece sobre a fé de Maria. Por isso, é comum afirmar-se – na Igreja Católica – que o Cristianismo é uma religião abraâmica, no alinhamento com a religião Judaica e o Islão. O facto de o Cristianismo ser também uma religião monoteísta não significa que, obrigatoriamente, se designe como religião abraâmica. É, pelo contrário, uma religião cristológica-mariana: de natureza esponsal. Deus assume, em Maria de Nazaré, a natureza humana da qual resulta a união hipostática: Jesus de Nazaré «é a imagem do Deus invisível» (Cl 1, 15; 2 Cor 4, 4), divino e humano.

Mas, pelo facto de muitos considerarem – de novo – que a Incarnação foi apenas um estado transitório, que Deus não mantém a sua natureza humana na eternidade, obstinam-se na separação entre o Jesus histórico e o Cristo da fé. Assim sendo, fica decapitado o Corpo místico de Cristo. Sem a Cabeça, identificada com a humanidade divina de Jesus de Nazaré (homem), as mulheres podem finalmente receber o ministério ordenado. Pelo não reconhecimento da união hipostática.  Foi o que aconteceu no protestantismo, luteranismo e anglicanismo. Perante isto, numa celebração eucarística realizada por mulheres deixa de se tornar visível a humanidade de Jesus Cristo, homem, e não se realiza a transubstanciação. O ministério ordenado feminino fica ao nível de uma representação simbólica e, portanto, virtual. Porque a Igreja Católica defende que, na consagração eucarística, Jesus Cristo, vem à identidade do sacerdote como Cristo Cabeça. Ou seja, actualiza a sua presença, no tempo e no espaço. Por isso, só decapitando o Corpo místico de Cristo é que as mulheres podem celebrar missa. Ao contrário do que pretendem demonstrar todos aqueles que lutam pela ordenação sacramental das mulheres, mais não fazem do que consolidar a visão patriarcal com sede no Antigo Testamento. É, pois, contraditório. Os debates centram-se sobretudo na vertente legalista e sociológica da questão.

Outra coisa é a ordenação diaconal permanente, de mulheres, pela consagração baptismal; o sacerdócio comum dos leigos – adquirido no Baptismo – permite que a mulher possa celebrar a liturgia da Palavra, distribuir a Eucaristia na Missa, exercer a direcção espiritual, celebrar o rito ordinário da comunhão aos doentes, administrar o viático, celebrar as exéquias. Tudo isto quando faltam sacerdotes ou, quando em reduzido número, eles necessitam da ajuda dos leigos. Mas este ministério laical, atribuído a homens e mulheres, já existe há muito na Igreja Católica; desde as primeiras comunidades cristãs. Contudo, é preciso preparação humana, doutrinal e teológica. No Sínodo Pan-amazónico debateu-se a possibilidade de conceder às mulheres a potestade, permanente, deste ministério. A única questão é deixar claro que a atribuição do diaconado permanente não lhes dá acesso ao ministério ordenado. E é isto que o Papa Francisco vai ponderar com base no relatório final do Sínodo. Uma questão pacífica do ponto de vista doutrinal e teológico.

Por fim, o celibato dos padres só é contestado quando tem por base o mesmo problema da rejeição das duas naturezas, humana e divina, no Verbo. De novo, a negação da união hipostática. A discórdia é arrastada também, para esta questão, por todos aqueles que não acreditam que Jesus de Nazaré, o Cristo, mantém a sua natureza humana – de homem – na eternidade de Deus. Que o sacerdote dá visibilidade a Jesus Cristo, célibe. Além disso, quando na Igreja Católica o amor divino é compreendido e ensinado à luz do amor humano, na fecundidade da união conjugal, é evidente que se põe em causa qualquer vocação ao celibato e a compreensão do mesmo. Precisamente, o contrário daquilo que os Padres da Igreja fizeram quando demonstraram que só com base na Revelação divina, da vida íntima de Deus, se pode entender verdadeiramente a revolução do Cristianismo: «Se alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas» (5, 17).

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A autora conta com várias publicações literárias, entre elas «A Mulher na Igreja Católica – Um desafio Teológico», Vieira da Silva Editora, 2017. Foi colaboradora do Jornal da Santa Sé «L’Osservatore Romano», entre 2010-2013, publicando temas relacionados com a mulher na Igreja, entre outros. O seu último livro «Cultura da Moda e Globalização – Os sacerdotes de um novo culto», Vieira da Silva Editora, 2018, está também na Biblioteca do Conselho Pontifício da Cultura, para consulta e estudo.