Após semanas de estudo exaustivo, sinto-me enfim habilitado a proceder a uma análise ponderada dos candidatos presidenciais, ou pelo menos dos candidatos que participam dos debates televisivos. É verdade que vi até agora cerca de zero debates, mas tenho contado com o espírito de sacrifício dos jornalistas desta casa, que se sujeitam aos sucessivos martírios para depois descrevê-los e avaliá-los. O resto do riquíssimo folclore que envolve as eleições apanho aqui e ali, através de vídeos, pedaços de entrevistas e episódios sortidos que amadores se dão ao trabalho de partilhar nas “redes sociais”. Chega e, digo-o com enfado, sobra.

André Ventura

De todos os candidatos, é um dos dois com o extraordinário bom gosto de me seguir no Twitter, actual X. Um pormenor tão irrisório bastaria para cativar a minha preferência? É evidente que sim. Infelizmente, o dr. Ventura não limita a campanha a esse ponto forte e espalha-se em considerações por temas menores como a corrupção, a imigração e a economia. A corrupção e a imigração vá que não vá, mas na economia teima em exibir uma costela socialista que, para quem garante estar fora do regime, é estranhamente típica de quem vive lá dentro.

O que seria necessário para eu votar nele: que tivesse uma epifania e desatasse a defender a privatização da TAP, da CGD, da RTP, da CP e do convento de Mafra. E mantivesse a opinião durante quinze dias.

António José Seguro

Trata-se, sem dúvida, do proverbial choninhas inofensivo – e isto é um elogio. É também, ou parece ser, um sujeito educado e decente, o que é outro elogio. Falta é ouvi-lo responder à pergunta que ainda não lhe fizeram: não tem vergonha de ter construído uma carreira política sob o beneplácito do eng. Guterres? Além disso, tem a agravante de não me seguir no Twitter, que acumula com a atenuante de não ter lá conta. A circunstância de o PS o apoiar pesaria em seu desfavor, mas o facto de o apoio ser fictício pesa-lhe favoravelmente.

O que seria necessário para eu votar nele: que negasse três vezes ter sequer chegado a conhecer o eng. Guterres.

Catarina Martins e António Filipe

Ele é o candidato de um partido que resiste à realidade, ela tem o apoio de um partido que desistiu da realidade. Estão de acordo em tudo: sobre a greve, os “trabalhadores”, a NATO, os EUA, Trump, o capitalismo, o Médio Oriente, a Venezuela, o Nobel da Paz, etc. Só simulam discórdia a propósito da guerra na Ucrânia, acerca da qual o comunista do PCP finge equidistância e a comunista do BE mente desalmadamente.

O que seria necessário para eu votar neles: nela, que prometesse exercer o mandato a partir de Gaza; nele, que ameaçassem oferecer-me um apartamento com varanda em Moscovo.

Henrique Gouveia e Melo

Um belo dia, o almirante pediu uma corda para se enforcar na hipótese de se meter na política. Um dia triste, meteu-se na política e, em certo sentido, enforcou-se mesmo, dado possuir a eloquência de um telégrafo. E a consistência de um pudim: dia sim, dia não muda de inspiração e pertença ideológica de acordo com o espaço disponível nas sondagens. À medida que o espaço encolhe, a disponibilidade de Gouveia e Melo alarga-se. Tem apoios sonantes e não necessariamente apelativos nas pessoas de Rio, Isaltino e Sócrates.

O que seria necessário para eu votar nele: que as teses dos teóricos das conspirações se confirmassem e os efeitos secundários das vacinas se manifestassem na cabina de voto.

João Cotrim Figueiredo

É, ou pelo menos diz ser cinco ou seis vezes por frase, “liberal” (embora fique atrapalhado quando o acusam de querer a “flat tax” e a privatização da CGD). E o que é que isso significa para um presidente? Que só dará posse a governos liberais? Ficaríamos sem governo durante dez anos, o que de resto seria uma benesse assaz liberal. Outro ponto forte é a aparente incapacidade de o dr. Cotrim Figueiredo se manter num cargo por muito tempo, o que poderia implicar o supremo milagre de ficarmos sem governo e sem presidente. A terceira virtude é seguir-me no Twitter.

O que seria necessário para eu votar nele: que jurasse desistir em favor de Milei.

Jorge Pinto

O Júlio Pires destaca-se dos adversários pela irreverência, pela competência e pela assertividade. O Jaime Pinheiro é frontal. O Joel Pimentel diz o que tem de ser dito sem rodeios. O Joaquim Piedade não tem medo de chamar os bois pelos nomes e de gritar que o rei vai nu. O José Pinho é um jorro de sangue-novo no meio de um ambiente político enquistado. O Januário Pimenta é progresso, modernidade, ousadia, agregação da esquerda. O Jacinto Piteira é inconfundível. Estou a brincar: sei lá quem é o João Pina.

O que seria necessário para eu votar nele: fixar-lhe o nome e reconhecer-lhe a existência.

Luís Marques Mendes

Eis o candidato de quem achou a presidência do prof. Marcelo espectacular e irrepreensível. Como o mentor, assegura que nunca terá uma opinião clara sobre assunto nenhum, excepto Israel, Trump e as vitórias da selecção da bola. É apoiado por Pacheco Pereira e orgulha-se disso. Não me segue no Twitter, mas segue Kamala Harris, o sr. Trudeau do Canadá e, claro, o presidente de Angola. Em princípio, promete a solitária vantagem de não passar 68% do tempo na praia, a mudar roupa íntima, mas o seu cadastro no bodyboard não garante nada. A desvantagem é que não poderá inaugurar o mandato com uma visita a Fidel Castro: Fidel já morreu, e o dr. Marques Mendes visitou-o antes.

O que seria necessário para eu votar nele: estar bêbado (eu ou ele).