Percebe-se porque é que o 25 de Novembro incomoda tanta gente à esquerda. Obriga-os a reconhecer que a democracia em Portugal foi construída, não apenas contra a ditadura salazarista a 25 de Abril de 1974, mas também contra a tentativa de tomada do poder pelos comunistas em 1975. Põe em causa a lenda de que a democracia é obra exclusiva da esquerda, em que a direita é um hóspede com direitos limitados.
Durante anos, PCP e extrema-esquerda insistiram em que o 25 de Novembro era a “negação do 25 de Abril”. Como se o 25 de Abril consistisse, não na democracia prometida em 1974, mas no socialismo imposto em 1975, antes de eleições. Só a direita teria razões para comemorar a “contra-revolução” do 25 de Novembro. Agora, variou-se: afinal foi uma “derrota da direita”, que já não teria o direito de comemorar nada. Mas que derrota foi essa? Foi uma derrota que apenas esquerdistas podem conceber. Para eles, quem não é de esquerda só pode desejar o retorno do “fascismo”. Não tendo voltado o “fascismo” a 25 de Novembro, a direita teria perdido. Sim, eles são assim absurdos.
A história é outra. O PCP, apesar do fracasso do seu golpe, conservou por mais uns anos as “nacionalizações” e a “reforma agrária”. Foi um compromisso que poupou confrontos, mas frustrou quem esperava uma recuperação imediata de direitos e garantias. Francisco Sá Carneiro e Jaime Neves exprimiram essa impaciência. Mas mesmo os mais insatisfeitos nunca se esqueceram do essencial: é que o PCP, a 25 de Novembro, perdeu o poder militar que lhe tinha permitido, com 12% dos votos, infiltrar o Estado e avançar com uma revolução marxista que o povo, em eleições, rejeitou. Sem a coacção do que Álvaro Cunhal chamava a “esquerda militar”, os portugueses puderam eleger as maiorias de direita que em 1982 libertaram o país de tutelas revolucionárias e em 1989 de uma economia marxista. A direita perdeu?
Para as antigas colónias, abandonadas a ditaduras e guerras civis, o 25 de Novembro veio tarde. Em Portugal, viabilizou a transição para a democracia de tipo ocidental que o PCP e a extrema-esquerda sempre rejeitaram. Já houve uma esquerda que sabia essa história. Estava no PS. No PS que em 1975 enfrentou o golpismo comunista. No PS que em 1976 fez uma maioria com o PSD e o CDS para eleger presidente o general Eanes, comandante operacional do 25 de Novembro. Quando é que essa memória passou a incomodar os dirigentes socialistas? Talvez quando, com António Costa, decidiram que valia tudo para se agarrarem ao poder, até aliar-se ao PCP e à extrema-esquerda (após uma primeira tentação em 1987, frustrada por Mário Soares). Em 2015, a “geringonça” não foi uma mera conveniência aritmética. Foi a via pela qual Costa tentou relançar o caciquismo provinciano de José Sócrates combinando-o com o radicalismo universitário do BE. Para quem no PS quer preservar essa combinação, a imagem de Mário Soares ao lado de Francisco Sá Carneiro na manifestação do Terreiro do Paço de 9 de Novembro de 1975 não dá jeito. Dão mais jeito as teorias esquerdistas do 25 de Novembro como “negação do 25 de Abril” ou “derrota da direita”.
Seria bom que os dirigentes do PS recuperassem a memória. Do PS, porém, deve tratar quem está no PS. À direita, conviria perceber que a democracia neste momento depende dela. Depende dela, porque depende de uma prosperidade e de uma coesão social que só uma maioria reformista poderá proporcionar. Ora, essa maioria apenas é possível à direita. A controvérsia sobre o 25 de Novembro serviu para demonstrar isso. A responsabilidade histórica dos líderes do PSD, Chega, IL e CDS não podia ser maior.