Há um termo muito popular entre os devotos do atual presidente norte-americano: Trump derangement syndrome. É uma expressão que podemos traduzir como “síndrome dos enlouquecidos por Donald Trump”. Claro que para os trumpistas estes maluquinhos não são eles, são todos os críticos de Trump. Os trumpistas vêm-se como uma vanguarda, defensores dos verdadeiros interesses do povo contra as falsas elites globais. Esta argumentação também é usada na Europa, onde ser um trumpista devoto implica defender em toda a linha um membro da elite rica de outro país, apesar de o próprio Trump ser claro que só lhe interessa os interesses dos norte-americanos, e  de não esconder a sua hostilidade à União Europeia e à NATO, com políticas que ameaçam a segurança e a prosperidade dos europeus. Veja-se a tentativa desesperada de um acordo lucrativo com a Rússia – com Putin, de caminho, a humilhar os enviados de Trump, deixando-os plantados durante horas, para ficar claro quem manda – ignorando a garantia de segurança dada pelos EUA aos ucranianos, em Budapeste, em 1994, e o dever de solidariedade e consulta dos aliados europeus por via do Tratado fundador da NATO. Veja-se as tarifas que prejudicam nomeadamente as exportações portuguesas para os EUA que estavam em crescendo.

Há quem perca a cabeça por causa da sua aversão a Trump? Sem dúvida que sim. A prova mais chocante disso é que Trump foi alvo de várias tentativas de assassinato. Ora, a violência política numa democracia é sempre inaceitável. Um observador objetivo terá, no entanto, de reconhecer que não há só excessos e violência inaceitável entre os opositores a Trump. Veja-se o ataque violento ao Capitólio, em janeiro de 2021, por apoiantes de Trump. Mais de 1.500 foram condenados em tribunal pelos crimes cometidos nesse assalto sem precedentes à sede da democracia americana. Se houvesse dúvidas sobre as simpatias de Trump nesse caso elas ficaram esclarecidas quando os indultou.

O uso generalizado do termo Trump derangement syndrome por muitos trumpistas é, portanto, uma tentativa de insultar quem possa ter o atrevimento de criticar o objeto da sua devoção. Quando alguém, como eu, que analisa a política internacional e, inevitavelmente, escrutina o líder da maior potência económica e militar mundial (os EUA não precisam de voltar a ser grandes, já o são há mais de um século) isso é, ridiculamente, apresentado pelos trumpistas fanáticos como resultado de uma fixação irracional em Trump. E, claro, a implicação é que quem sofre desta “doença” não pode acertar nas suas análises. Estou completamente à vontade nesse campo.

É verdade que há quem confunda a sua detestação de um líder político com a certeza do seu insucesso. Mas também há quem confunda a sua devoção a um ídolo político com a certeza do seu sucesso. Misturar análises com preferências pessoais é sempre um erro, mas não é exclusivo de trumpistas ou de anti-trumpistas. Muitos anti-trumpistas confundem capacidade de argumentação racional com a capacidade de ganhar eleições. Foi um erro que procurei evitar, por isso achei que Trump tinha hipóteses de ser eleito, em 2016, e, escrevi aqui, meses antes da eleição de novembro de 2024, que o cenário mais provável nessas presidenciais seria uma vitória de Trump. Nunca tive problemas em reconhecer que Trump é hábil no jogo da política eleitoral. Nunca neguei que tem bons instintos na identificação de problemas e oportunidades na política internacional – da riqueza mineral da Gronelândia, até à relevância estratégica do canal do Panamá, passando pela necessidade dos europeus gastarem mais na sua defesa. Mas muitos trumpistas confundem a capacidade de ganhar eleições com a capacidade de governar ou de implementar promessas contraditórias como aumentar tarifas e baixar os preços. Também há muitos trumpistas que caem na contradição de declarar Trump um líder sem precedentes que vai refazer os EUA e o Mundo, para depois negarem que, consequentemente, está a tentar destruir o regime constitucional americano ou a ordem global vigente há muitas décadas. Na verdade, como também aqui escrevi, e como se tem confirmado repetidas vezes, este segundo mandato de Trump, potenciado por um quadro de lealistas em posições chave, está a ser mais radical do que o primeiro. Trump e os seus próximos têm testado a todo o tipo de limites, normas, precedentes e tradições na política interna e externa dos EUA. Também se tem confirmado que a Europa estava em negação sobre o nível de hostilidade desta nova Administração aos interesses do Velho Continente, ou a ameaça representada pela admiração e vontade de fazer negócios com ditadores, inúmeras vezes declarada por Trump.

Este escrutínio de Trump não tem nada de louco. É o escrutínio normal de um líder tão poderoso e com tanto impacto global como o presidente dos EUA. Menos ainda é de estranhar quando Trump é, deliberadamente, tão polémico, tão provocador, tão disruptivo. Gerar controvérsia para ter visibilidade é mesmo o principal motor da política espetáculo de Trump. Ignorar isso é não perceber, ou não querer perceber, o atual líder norte-americano e muita da política na era das redes sociais.

Em suma, é evidente que embora a etiqueta de maluquinho de Trump possa fazer sentido para alguns críticos mais desvairados de Trump, em coerência teria de ser usado também para muitos dos seguidores acéfalos do político norte-americano. Na prática, é, as mais das vezes, usada como uma tática do trumpismo fanático para tentar descredibilizar e condicionar a crítica ao seu ídolo, representa mais uma prova de que o trumpismo facilmente descamba num intolerante culto da personalidade em que só um doente poderá ter alguma coisa negativa a dizer sobre Trump.

Não é estranho ou ilegítimo que haja europeus que, por simpatia ideológica, admirem certos aspetos da ação política de Trump. O que é bizarro é que haja, na Europa, trumpistas tão fanáticos, tão dedicados, que não considerem como legítima qualquer crítica do dito cujo, mesmo quando se trata de apontar ações contrárias aos interesses europeus e portugueses. Na verdade, não deveríamos espantar-nos. Temos muitos exemplos na história de pessoas dispostas a ignorar ou até a trair os interesses da sua pátria ao serviço de uma ideologia. Veja-se os muitos comunistas de diferentes países que mostraram uma devoção cega a sucessivos inquilinos do Kremlin. Houve na Europa estalinistas e maoismo, hoje há putinistas e trumpistas, aliás, aparentemente, cada vez mais alinhados. É esse um dos privilégios de se viver na Europa livre. Se deixarmos de poder debater livremente Donald Trump será um sinal de que a Europa já não é, afinal, plenamente livre, esperemos que não se chegue a esse ponto.