Conservatório Nacional

Os “pilares” da nossa cultura

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No mesmo dia em que ministro e Presidente prometiam salvar a Cornucópia assisti, no Conservatório Nacional, a um concerto. E descobri o seu Salão Nobre num estado deplorável, tal o estado de abandono.

É importante ver (e digo isto sem qualquer sombra de ironia) como o ministro da Cultura ou o Presidente da República se envolveram na salvação do Teatro Cornucópia, mas isso só não chega, pois arriscam a transformar-se numa espécie de bombeiros que não terão mãos para apagar todos os fogos.

No mesmo dia em que Luís Filipe de Castro Mendes e Marcelo Rebelo de Sousa tentavam impedir o encerramento desse teatro, eu fui assistir a um concerto do jovem pianista português Raúl da Costa no Salão Nobre do Conservatório Nacional de Lisboa. Um concerto de um pianista talentoso e promissor num salão que de nobre poderá ter o que ainda não ruiu devido aos modernos pilares metálicos existentes.

O edifício do Conservatório Nacional, que, a julgar pelo nome, deverá ser o principal, o “farol da música” em Portugal, ainda tem marcas de um passado glorioso, ainda guarda nas suas paredes placas que testemunham a passagem por aí de vultos da música portuguesa como Vianna da Mota.

Mas o seu interior encontra-se num estado deplorável, decrépito, a começar pelo Salão Nobre. O estado de abandono é visível nos belos tectos de estuque vítimas da incúria humana, nas traves metálicas que impedem a queda dos balcões, no cheiro a humidade e a abandono da carpete incolor que cobre o chão, nos bancos que não devem ter sido arranjados nenhuma vez depois dessa sala ter sido construída.

Foram edificadas novas e enormes salas de espectáculos e exposições em Lisboa, no Porto e noutras cidades, algumas de gosto arquitectónico polémico e outras muito pouco utilizadas, mas as autoridades “esqueceram-se” do principal viveiro de músicos, cantores, etc.

Verdade seja dita, nos últimos 30 anos, foram abertas numerosas escolas de música na província, que contribuíram para revelar novos talentos, mas, por outro lado, não se criam condições para que eles se possam desenvolver. Quer queiramos, quer não, o Conservatório de Lisboa deveria ser um dos principais trampolins para os palcos nacionais e internacionais.

Resta apenas a saída de Portugal, quando os estudantes têm famílias com recursos que permitam fazer isso ou quando conseguem uma bolsa de estudo. Claro que um jovem que anseia a um patamar elevado na música clássica tem de frequentar obrigatoriamente escolas estrangeiras, mas isso não é razão para lançar o Conservatório Nacional ao abandono.

O edifício do Conservatório fica situado num dos bairros antigos de Lisboa, a poucos metros de locais por onde passam milhares de turistas por ano. Porque não restaura-lo e transforma-lo em mais um polo de atracção para aqueles que veem visitar Lisboa? Bem restaurado, o seu Salão Nobre não fica atrás, tanto pela beleza, como pela acústica, da Sala Rakhmaninov do Conservatório de Moscovo.

E falei em Moscovo, como poderia falar de São Petersburgo, Viena, Berlim ou Paris, onde espectáculos de música clássica atraem anualmente milhares de turistas. Não se pode dizer que em Lisboa não se faz nada nesse campo, mas poder-se-ia fazer muito mais. Por exemplo, transformar o Conservatório Nacional em mais um foco das artes clássicas. Será que não seria possível desviar algumas pequenas verbas das que estão a ser utilizadas para um sem número de obras nas ruas da capital para salvar o edifício situado na Rua dos Caetanos, Nº 29? Será mais urgente acabar a construção do Palácio da Ajuda do que salvar património rico já existente?

Nos últimos anos, Portugal transforma-se num destino turístico apetecível. Alguns eternos descontentes com tudo (paga-se por ter cão e paga-se por não ter) preconizam desgraças sobre o futuro de cidades como Lisboa ou Porto devido à “invasão” dos turistas, mas o dinheiro destes é que tem permitido salvar os bairros antigos dessas cidades. Sempre que vou ao Porto, encontro edifícios restaurados e a cidade melhora a olhos vistos.

Aproveitando também esta onda, devemos salvar o numeroso património histórico e cultural do nosso país que se encontra em ruínas ou em vias de desaparecer, sendo para isso necessário elaborar um programa de desenvolvimento cultural sustentável. É importante que o fado e o cante alentejano tenham sido considerados Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, mas não nos podemos esquecer da restante cultura, nomeadamente da música clássica.

P.S. Se surgir a oportunidade de assistir a um concerto do pianista Raúl da Costa, não a percam. Um jovem talento com um grande futuro pela frente.

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