Ainda imbuído do espírito de concórdia da quadra festiva, tenho dedicado o tempo a reflectir nataliciamente sobre os grandes conflitos da nossa era e formas de os resolver. Debrucei-me sobre a guerra da Ucrânia (que solucionei enquanto emborcava os restos da Consoada); sobre a questão Israelo-Palestiniana (despachada nos 15km que corri de penitência por ter emborcado os restos da Consoada); e sobre o choque que opõe o Ministro da Educação e os críticos, na sequência das declarações sobre o mau estado das residências de estudantes. Esse acordo de paz gizei-o eu na retrete, após tomar dois DulcoLax para terminar o serviço começado pela corrida.
A forma encontrada para satisfazer as partes é dar razão a ambas. O Ministro tem razão ao garantir que não culpou quem tem rendimentos mais baixos. E os seus críticos também têm razão ao dizer que ficou subentendido que a culpa da degradação das residências de estudantes é de quem tem rendimentos mais baixos. É possível que pessoas de baixos rendimentos não sejam responsáveis pela degradação das residências e, ao mesmo tempo, a responsabilidade pela degradação das residências seja de pessoas de baixos rendimentos.
Vejamos. O que Fernando Alexandre disse foi que as residências universitárias ocupadas exclusivamente por estudantes de rendimentos mais baixos tendem a degradar-se. Ao fazê-lo, não está a afirmar que os estudantes de rendimentos mais baixos estragam mais que os outros. Está a afirmar que as residências degradadas não têm a manutenção necessária. Que é prestada por profissionais de uma ocupação que, geralmente, aufere os rendimentos mais baixos. Ou seja, não é os pobres cuidarem mal das residências, é os pobres não cuidarem delas. Porque quem os devia contratar para efectuarem esse trabalho não o faz.
A questão é que o administrador público, a gerir orçamentos limitados, escolhe a que necessidades dá prioridade. As necessidades hierarquizam-se consoante a capacidade reivindicativa de quem as tem. E, por norma, as tais pessoas de rendimentos baixos não protestam muito. É por isso que, na hora da decisão, as suas exigências são desconsideradas.
Há uma razão para os hotéis de 5 estrelas terem melhor serviço do que o de 1 estrela. Os clientes, como pagam mais, esperam mais. Num hotel de 5 estrelas, os empregados esforçam-se por manter os hóspedes satisfeitos, porque caso não o façam e os hóspedes se aborreçam, correm o risco de o hotel perder clientes, receita e, no fim de tudo, funcionários. Os clientes nem admitem o contrário. Já num pardieiro de 1 estrela, se o hóspede se queixar da água que está fria ou a cama que é desconfortável, caso tenha a sorte de chegar à fala com o estalajadeiro, será para ouvir: “As baratas não se queixam”. O hóspede até se pode aborrecer, mas não terá grande alternativa. É, na realidade, um monopólio de serviço bera.
Como as residência de estudantes em questão. Em Portugal, os supostamente igualitários serviços públicos funcionam com a lógica mais selvagem do mercado: quem tem poder para reivindicar, é mais bem servido. Quem não tem alternativa, come e cala. Como o serviço público é de borla, as pessoas acham que não lhes custa nada e por isso não têm o direito de se queixaram. Mas têm, porque são cidadãos e pagam impostos.
O problema da segregação não se resolve acabando com a escolha. Quer dizer, resolve-se, mas a mal: se as pessoas só tiverem uma opção, todas as vão usar, é certo, mesmo que seja de péssima qualidade. Mas a melhor maneira de promover a miscigenação social é tornar o serviço público, que é de graça ou barato, de tão boa qualidade quanto o privado. Assim, quem puder optar pelos dois vai escolher mais vezes o público, porque a poupança não será conseguida através da renúncia à qualidade.
De cada vez que sai uma notícia no Correio da Manhã sobre desacatos em hospital causados por uma família, a maioria das pessoas pensa: “Olha, lá estão os ciganos outra vez!”. Já eu penso: “Que tia minha terá adoecido e que primo é que estará a fazer um escândalo?”. É que, na minha família, sabemos exigir.
Ao fim de dois dias de internamento, os médicos sabem disso, os enfermeiros sabem disso, as auxiliares sabem disso. Temos dificuldade em aceitar que a nossa tia fique indefinidamente à espera, sem comer. Em pé ou numa maca no corredor. Com uma única casa de banho disponível para dezenas de pessoas, suja, sem papel higiénico, sem tampa da retrete, sem sabão para lavar as mãos e toalha para secar. Sem receber informações sobre quanto tempo mais vamos estar à espera.
Quer dizer, dificuldade em aceitar tem toda a gente, ninguém gosta de ser destratado. Só que a minha família diz isso em voz alta. A maioria das pessoas tem medo de protestar, porque os serviços públicos estão construídos de forma a parecer que nos estão a fazer um obséquio. Que é por sorte que somos atendidos em tempo útil. Que é por especial gentileza que nos deixam enviar por mail um documento que na realidade já lá está, mas do qual, não se sabe porquê, é necessária nova cópia. E que resolverem-nos o problema à primeira é uma indulgência. Sempre muito agradecidos pela mercê.
Pois. Mas não a minha família insolente. Nós sabemos que é Serviço Nacional de Saúde e não Favor Nacional de Saúde. E se algum de nós tivesse capacidade de frequentar o ensino superior, faríamos o mesmo nas residências de estudantes.