Os políticos mais perigosos que existem são aqueles que querem controlar as palavras. É óbvio: quem controla as palavras, naturalmente, controla o pensamento. Um político ungido com a autoridade de disciplinar e proibir o vocabulário é sempre infinitamente mais poderoso do que outro que possa apenas proibir e disciplinar comportamentos. É a diferença entre mandar no corpo dos outros ou mandar na cabeça dos outros.

Em Espanha, onde a política já cruzou várias vezes a fronteira do absurdo, uma deputada do PSOE com um triste currículo lembrou-se de decretar o policiamento da palavra “cancro”. É extraordinário: todos os socialistas apoiaram esta ideia. É espantoso: a oposição do PP também. Foram 307 votos a favor, 33 contra (do Vox) e 6 abstenções.

Chegámos a isto: a classe política espanhola concorda que é necessário “promover o uso de uma linguagem justa e responsável da palavra cancro” — sendo que, claro, é ela a definir o que se considera “justo” e “responsável”. Pior: a classe política espanhola defende que “é urgente” abandonar a utilização da palavra cancro como “sinónimo de insulto ou desqualificação” ou, atenção ao detalhe, “como metáfora”.

Os políticos com impulsos autoritários, de facto, odeiam metáforas. As cabeças literais sempre foram mais fáceis de pastorear. Usar uma metáfora é um exercício de imaginação — e, por isso, de liberdade. Aplicando os novos ditames do poder espanhol, o poeta britânico Wilfred Owen não poderia ter escrito o famoso verso “obsceno como um cancro” para descrever o sofrimento dos soldados na I Guerra Mundial. E Barack Obama não poderia ter dito num dos seus discursos que os Estados Unidos “estão no Afeganistão para impedir que um cancro se espalhe novamente pelo país”. Em Espanha, a partir de agora, um cancro só pode ser um cancro. É a única palavra do dicionário que não pode ter mais nenhum significado. Como é evidente, em breve alguém perguntará por que razão se deve parar aqui. Não será mais prudente aconselhar igualmente o fim das metáforas que envolvam problemas cardíacos, comuns em relatos românticos? Ou terminar com as metáforas que envolvem mudez, regularmente utilizadas para transmitir surpresa, pasmo ou espanto? E porquê pararmos nas doenças ou nas condições físicas? Que outras características humanas terão de ser protegidas da terrível e ameaçadora força das metáforas?

Como bons cobardes, ao tomarem esta decisão abstrusa os políticos espanhóis esconderam-se atrás de terceiros. Segundo eles, estão apenas a atuar a pedido de associações de doentes. É um argumento que pretende calar a oposição a esta medida. Afinal, ninguém no espaço público quererá aparecer como alguém desprovido de empatia e que contraria os desejos e pedidos de quem passou por um cancro. Ninguém, excepto, por exemplo, o escritor Arturo Pérez-Reverte, que felizmente costuma preferir a coragem à prudência. Nas redes sociais, pediu “permissão” àqueles que o seguem para “ser grosseiro” e reagiu à aprovação do diploma com uma liberdade linguística que, parece-me, dispensa tradução: “Me va a regular el uso de las palabras su puta madre”.

Tendo em conta o estado a que isto chegou, talvez seja útil contar uma história. No livro “O imperador de todos os males — uma biografia do cancro”, Siddhartha Mukherjee lembra que na década de 50 havia um espesso silêncio a rodear a doença. Fanny Rosenow, que tinha tido cancro da mama, decidiu que iria fazer tudo para contrariar aquele ambiente de sussurros e murmúrios. Por isso, criou um grupo de apoio a doentes e decidiu comprar uma página de publicidade no New York Times para anunciar as datas e horas das reuniões. Telefonou para o departamento comercial do jornal, mas, estranhamente, depois de a ouvirem, passaram a chamada para a redação. Ao fim de uns minutos, surgiu em linha um dos editores do jornal. Ligeiramente embaraçado, informou-a: “Peço desculpa, mas o New York Times não pode escrever as palavras ‘mama’ ou ‘cancro’ nas suas páginas. Talvez queira mudar o anúncio para dizer que vai existir um encontro sobre doenças do aparelho respiratório”. Obviamente, o anúncio nunca foi publicado. A virtude pública manteve-se reluzente, mas as doentes que poderiam ter recebido ajuda e conforto tiveram de continuar isoladas e desapoiadas. Quando se começa a proibir palavras, metafóricas ou literais, nunca se sabe exatamente como é que as coisas acabam. Mas sabe-se, sobre isso não há dúvida, que acabam sempre mal.