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A semana teria sido maravilhosa para o Governo sem as notícias de empregos de familiares de socialistas que são ministros e deputados. A captura do Estado pelas elites urbanas ficou exposta como nunca

Os sintomas já se detectavam há algum tempo. Ironicamente, o Governo classificado como sendo o mais de esquerda, nos anos mais recentes em Portugal, é exactamente aquele que mais controlado é por um pequeno grupo urbano chame-se ele socialista, bloquista ou até comunista.

A própria estratégia orçamental de controlo do défice público orientou os recursos para a recuperação dos rendimentos da população urbana, directa ou indirectamente dependente do Orçamento, e sacrificou as pessoas que precisam dos serviços públicos. Sim, todos precisam de serviços público, como Saúde e Educação, mas há uns que precisam mais do que outros, quer por terem rendimentos mais baixos quer porque vivem em sítios onde não há escolha.

A captura do Estado pelas elites urbanas e partidárias atingiu a sua exposição máxima nos últimos dias em que se revelaram teias de empregos entre familiares do PS.

Vale a pena começar por separar o que é do que não é relevante. Um desses contributos está no artigo de São José Almeida intitulado “Da imaturidade endogâmica de uma democracia”. É preciso distinguir o que é diferente. Os ministros Eduardo Cabrita e Ana Paula Vitorino, marido e mulher, fazem há anos carreira política pública no PS e não é de estranhar que sejam ministros do mesmo Governo além de nada de novo ter acontecido. Mariana Vieira da Silva, filha de José Vieira da Silva, também já fazia parte do Governo, foi apenas promovida a ministra e é uma escolha directa do primeiro-ministro. Nada a dizer nem a apontar a estes casos.

O mesmo já não se pode dizer de outros casos e especialmente da dimensão que assumem, como se pode ler neste trabalho do Observador. Como diz Vital Moreira “o número conta” e o tipo de nomeação também. As nomeações que ligam Pedro Nuno Santos e Duarte Cordeiro são talvez a que mais criticas merecem, como critica merece a defesa que o agora ministro das Infra-Estruturas fez no Facebook sobre a nomeação da sua mulher. Ouviram-se algumas opiniões a defender que se estava perante comportamentos de misoginia ou machismo, nas criticas feitas às nomeações, mas parece existir mais machismo na defesa de Pedro Nuno Santos.

Paralelamente atingiram-se também níveis de disparate, numa vertigem de busca de laços familiares, como acontece no artigo do El Pais onde se diz que Ana Paula Vitorino é filha de António Vitorino ou quando se afirma que Pedro Marques é da família de Maria Manuel Leitão Marques – Vital Moreira faz aqui uma síntese dos disparates que se têm dito.

Os disparates que se disseram ou as falsas ligações familiares não apagam o problema de base: há neste Governo um excesso de ligações familiares e de amizade que atravessa todo o Executivo, incluindo-se nele o primeiro-ministro. Há na recente governação do país, onde se inclui não só o PS, mas também o BE e o PCP, redes de ligações que têm as suas raízes na escola, na faculdade e na família com uma elevadíssima concentração urbana e em Lisboa. (Perdoem-me que reviste o que escrevi na altura dos incêndios de Outubro de 2017 com o título “Uma tragédia escolhida por nós”).

Uma das marcas desta legislatura é a captura do Estado por elites urbanas. O semanário Expresso, citando um histórico socialista, diz que “este PS é agora de gente que andou nos mesmos liceus de Lisboa, nas mesmas faculdades, frequentam os mesmos restaurantes, vão aos mesmos concertos… Estão fechados no mesmo círculo”.

O problema não está apenas no PS mas também nos partidos que suportam o Governo. Aos poucos vamos percebendo que o BE é igualmente um partido de elites urbanas mais jovens – o caso Robles é um exemplo disso – e que o PCP que decidiu apoiar este Governo tem a mesma marca de ligações históricas com o PS de António Costa.

Nada disto seria um problema se não influenciasse, como está a influenciar, o desenho das políticas públicas; se não afastasse ainda mais da política a população que não vive em Lisboa ou à mesa do Orçamento do Estado; se não levasse alimento aos discursos populistas contra os políticos.

A captura do Estado pelas elites partidárias urbanas é um perigo e nestas últimas semanas ficou exposta como nunca até aqui. O PS, o BE e o PCP cometem um erro grave se não olharem de frente para este problema e se não o combaterem. Cometem um erro grave com consequências que lamentavelmente cairão sobre todos nós.

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Rui Ramos
354

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