Um amigo meu costuma contar a seguinte história. Um dia foi falar a uma iniciativa do PSD na Maia, nos tempos em que Vieira de Carvalho era o Presidente da Câmara. Depois de ter defendido a direita durante a sua intervenção e de ter seguramente entusiasmado os assistentes, um militante do PSD disse-lhe durante o almoço: “sabe senhor Professor, nós aqui somos todos do PSD. Já erámos do PSD antes do 25 de Abril.” Para lá da graça da história, há aqui uma questão importante: as heranças do Estado Novo na democracia portuguesa. Quase ninguém gosta de tratar deste tema porque os regimes políticos precisam de mitos fundadores. A ruptura absoluta com o Estado Novo é o mito fundador da democracia portuguesa. Mas não corresponde à realidade.

Estas considerações ocorreram-me a propósito das recentes declarações de Ferreira Leite sobre alguns sectores da direita e também sobre uma iniciativa de independentes, o Movimento Europa e Liberdade. Ferreira Leite fez duas afirmações graves e reveladoras do seu pensamento anti-democrático. De um modo deselegante e pouco educado, usou o termo “desprezo” para descrever o que sentiu sobre a iniciativa MEL. O uso desse termo sobre uma iniciativa de profissionais independentes sem qualquer ambição partidária, mas com vontade de discutir publicamente temas relevantes para o nosso país, mostra como o Estado Novo vive no pensamento de Ferreira Leite. Era mais ou menos isto, “desprezo”, que as principais figuras da União Nacional sentiam sobre qualquer iniciativa pública que lhe fugisse ao controlo e que questionasse o pensamento dominante. Ainda bem que pessoas como Ferreira Leite gozam do direito de exprimir as suas opiniões mas sem terem os meios para impedir o pensamento livre.

A antiga líder do PSD disse ainda que prefere um PSD pequeno do que de direita. O ponto mais relevante não é a recusa de um PSD de direita. Ferreira Leite dirá seguramente o mesmo em relação a um PSD de esquerda. Também prefere um partido pequeno a um PSD de esquerda. O que Ferreira Leite quer mesmo é um grande partido que não seja nem de esquerda nem de direita. Eis a grande ambição anti-democrática de Ferreira Leite para o Portugal do pós-25 de Abril: chegar ao poder contra a distinção fundamental dos regimes democráticos, esquerda contra direita. Aliás, já em 2009, Ferreira Leite havia revelado o seu verdadeiro pensamento político quando defendeu a suspensão da democracia para se conseguir fazer reformas. Ou seja, em democracia, no combate entre a esquerda e a direita, não é possível tomar as decisões importantes para o país. No fundo, Ferreira Leita revela o pensamento Salazarista de que os portugueses não sabem viver em democracia, ou pelo menos de se governarem como deve ser.

A rejeição das categorias de esquerda e de direita foi sempre um dos traços centrais no Estado Novo. Não há qualquer declaração de Salazar ou de Marcelo Caetano, um dos grandes ideólogos do antigo regime, a declararem o Estado Novo como um regime de direita. Para eles, a divisão entre esquerdas e direitas era um traço dos sistemas democráticos, e não dos regimes autoritários como o Estado Novo, que estava para além dessas divisões.  Foram as esquerdas que, depois do 25 de Abril, construíram o mito que o Estado Novo era de direita para legitimarem o seu poder e sobretudo limitarem a legitimidade das direitas. Não é por acaso que sempre que há uma direita forte em Portugal, as esquerdas usam imediatamente a acusação de “fascista”. Foi assim com Sá Carneiro, com Cavaco e com Passos Coelho.

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