Há algo de magnético nesta foto. Ela encerra muitas mais perguntas que respostas. Porque quis Trump falar com Zelenski diante do mundo? E para quem seria a terceira cadeira que está a ser arrumada lá ao fundo? Para um tradutor? Para Macron ou Starmer que não andavam longe?
… Na verdade eu não previa escrever sobre a Ucrânia e muito menos sobre o Papa. Após dias rodeada de exaltação circunstancial em torno do Papa Francisco achei que precisava duma pausa. Cansa-me o estado de beatitude dos católicos libertos por uns dias do seu estatuto de crentes envergonhados, uma alforria que a escolha do novo papa confirmará ou não. Uma escolha menos conveniente para o sucessor de Francisco, por exemplo um daqueles nomes que chegam de África e que antes eram apresentados como o futuro e agora como um retrocesso, e logo voltaremos ao estardalhaço de grupúsculos como este e às performances dos autodenominados artistas. Mas o que me deixou mesmo à beira da exaustão foi essa espécie de transe mistico-ideológico que se apoderou de muitos crentes e sobretudo de não crentes que rapidamente transformaram o Papa Francisco numa espécie de activista do progressismo, cujo único problema era o que dizia e escrevia sobre a fé e os seus princípios. Mas esta foto fez-me mudar de ideias. Tudo é excepcional: a grandiosidade do lugar, a arte que os rodeia, o espaço sagrado, o ritual do funeral que ao lado se cumpre… e eles os dois sós enquanto criam um momento que será visto por milhões.
Uma pergunta (ou será uma inquietação?) impõe-se-me ao olhar esta fotografia: e se tudo não passar duma encenação? Não encenação no sentido de ser um faz de conta mas encenação enquanto momento concebido para causar determinada impressão. As três cadeiras (que depois passaram a duas) foram colocadas ali naquele espaço para onde confluíam os olhos do mundo para que o mundo visse Trump e Zelenski a conversarem um com o outro, frente a frente. As leituras podem ser muitas mas a mim a cada vez que olho para esta imagem torna-se-me evidente que, depois de ter encurralado Zelenski na Sala Oval, Trump usa agora este momento na magnífica Basílica de São Pedro para pressionar Putin. E também para se desembaraçar a si mesmo da imagem de aldrabado pelo líder russo.
Por ironia, Trump tem parecido na sua relação com Putin repetir o mesmo erro de Merkel: convictos da sua superioridade acreditaram não só ser interlocutores susceptíveis de fazerem a diferença na relação com Putin, como serem capazes de atrair o líder russo ao seu jogo. Nada mais ilusório nem mais perigoso do que um político que em vez de acreditar no que vê prefere acreditar no que quer ver. Merkel cometeu esse erro. Trump está cometê-lo.
Desconheço se o presidente dos EUA saiu mais lúcido da Basílica de São Pedro mas, por agora, tenho a certeza que aquilo que vimos foi “great television”. Nos próximos dias saberemos se também foi algo mais.
55 anos. Sim, Melania celebrava o seu aniversário no mesmo dia 26 de Abril em que acontecia o funeral do Papa Francisco. E é a ela que se deve um dos momentos politicamente mais relevantes desse funeral. Segundo o jornal britânico Daily Mail , quando estava a acontecer o ‘abraço da paz’, em que os presentes se cumprimentavam e Trump observava, Melania sussurrou ao ouvido do marido “Devias fazê-lo”. Ainda segundo a especialista em leitura de lábios ouvida pelo Daily Mail , Trump respondeu “Está bem” e em seguida cumprimentou o presidente da Estónia, o rei Felipe VI de Espanha e o presidente francês, Emmanuel Macron. O conselho foi objectivamente um bom conselho.
Sabemos pouco sobre esta mulher à excepção do que veste. O acontecido na tarde de 26 de Abril em Roma dá conta do seu instinto político. Talvez seja altura de se parar com as patetices e os boicotes — a Vogue, por exemplo, que faz capa com todas as mulheres dos presidentes norte-americanos, nunca fez capa com Melania depois de Trump ter chegado à Casa Branca — e tratar de perceber qual é o papel de Melania na administração Trump. E o que sussurra ao ouvido do presidente.