Esta semana, depois das aberrantes declarações de Donald Trump, sobre as quais já escrevi, o Vice-presidente dos Estados Unidos afirmou que o papa deve ter “cuidado” quando fala de teologia. Felizmente que isso não se aplica ao presidente americano. Fico mais descansado. No entanto, se esta é a recomendação dada ao Santo Padre, nem imagino o que o Sr. J. D. Vance sugeriria a um simples padre de província como eu. Todavia, antes que todas as minhas declarações passem a ser sujeitas a exame prévio pelas autoridades americanas, aqui deixo, como testamento espiritual, algumas reflexões. Just in case.
A Bíblia está repleta de violência, mas usar a Bíblia como pretexto para atrocidades, violações da paz e caprichos bélicos não é só errado, imoral e descabido; é hediondo. A Bíblia é uma enorme obra de tapeçaria e, por isso, absolutizar uma expressão é descontextualizar. Como a Palavra de Deus não é adversária da palavra humana, a Bíblia reflete inevitavelmente a cultura e a violência de que os próprios autores eram testemunhas, vítimas ou cúmplices. Neste sentido, algumas notas: 1.ª) A Bíblia não inventa a violência; ela reflete a crueldade e animalidade do coração humano, colocando um espelho diante de nós; 2.ª) A “violência” divina manifesta-se como um ato de justiça contra os opressores e em defesa dos mais fracos; 3.ª) O aparece como “vingança” de Deus é o restabelecimento da justiça através de um quadro legal, e não uma retaliação arbitrária; 4.ª) A violência divina não se abate apenas sobre os inimigos, mas também sobre o próprio escolhido; 5.ª) O Deus de que a Bíblia fala, no meio de tantos sobressaltos, escolhe ser a vítima da violência humana, vence-a esgotando-a em Si mesmo, toma uma opção, promete o Paraíso a um criminoso antes de morrer. Para Deus, o amor não é igual ao ódio, nem a justiça igual à injustiça.
Outro ponto importante é recordar que a teologia cristã assenta em dois pressupostos: 1.º) Existe um só criador e tudo o resto é criatura; 2.º) Nenhum de nós é Deus, mas a nossa vida é sagrada. No entanto, um grande número de novos líderes políticos entende-se a si mesmo como salvador do Estado. Ora, como cristãos, já tivemos um Salvador e não precisamos de outro. Como cristãos, temos sempre o dever de relembrar que nenhum líder é Deus, nem age em nome de Deus. Como cristãos, respeitamos o poder, reconhecemos-lhe uma legítima autonomia, mas iremos sempre denunciar todo o poder que se quer assemelhar ao poder do faraó do Egito. E, já agora, não lhes temos medo. A História milenar da Igreja está ferida de contradições, mas entre luzes e sombras sempre emergiu o mesmo fio condutor: a defesa da dignidade humana, contra todo o tipo de aldrabões.
Deus não existe para salvar a cultura ocidental, mas nenhuma cultura ocidental prevalecerá se não defender a emergência da paz. Que cultura ocidental existe senão aquela que deriva das palavras de Jesus, segundo as quais são “Bem-Aventurados os pacificadores”? Que cultura ocidental existe senão aquela que aprendeu a olhar para a guerra como uma “carnificina inútil” (Bento XV) e “uma derrota da humanidade” (João Paulo II)? Que cultura ocidental existe senão aquela que, sim, sobre os ombros de Agostinho e Tomás de Aquino, desenvolveu a possibilidade de legítima defesa e de uma guerra justa, mas unicamente caso se verifique “que o prejuízo causado pelo agressor à nação ou comunidade de nações seja duradouro, grave e certo; que todos os outros meios de lhe pôr fim se tenham revelado impraticáveis ou ineficazes; que estejam reunidas condições sérias de êxito; que o emprego das armas não traga consigo males e desordens mais graves do que o mal a eliminar” (CIC, 2309)? Que cultura ocidental existe senão aquela que reconhece que “toda a ação bélica, que tende indiscriminadamente à destruição de cidades inteiras ou vastas regiões com os seus habitantes, é um crime contra Deus e o próprio homem, que se deve condenar com firmeza, sem hesitação” (CIC, 2314)? Que cultura ocidental existe senão aquela onde o conceito de guerra justa deriva do conceito de dignidade humana e não o contrário?
E, já agora, isto não é política. Pelo menos, partidária. É teologia. Até porque o Papa quando fala, não fala para emitir opiniões, e ao contrário do que o Sr. J. D. Vance insinuou, não há teologia sem moral. Lamento. Mas nada temamos. J. D. Vance vai lançar um livro chamado Communion: Finding my way back to faith. Será uma ótima oportunidade para o vice-presidente explicar teologia ao Papa. Se não resultar pode desistir do bloqueio ao estreito de Ormuz e bloquear o Rio Tibre, colocar tarifas ao Vaticano, promover um embargo à Santa Sé, ou fazer beicinho. O Papa nem deve dormir com medo das consequências.