Tenho dado bom uso aos 52 dias por ano de acesso gratuito aos Museus, Monumentos  e Palácios nacionais. O cenário que tenho encontrado não me tem propriamente  surpreendido: um Património Cultural fantasma, esquecido, com pouca estratégia e apresentado sem qualquer rasgo de ousadia.

Destaco algumas evidências: da sinalética improvisada e rudimentar à ausência de  suportes que ajudem a guiar a visita, do staff que não se encontra identificado nem  preparado para interagir com o público à total ausência de elementos que ajudem a  tornar a experiência da visita mais imersiva. Da falta de mediação cultural até às más condições sanitárias disponibilizadas aos visitantes. Da fraca presença nos meios  digitais aos horários rígidos que impedem que qualquer um possa equacionar uma  prazerosa ida ao Museu no fim de um dia de trabalho. E o silêncio… O silêncio  sepulcral dos espaços grita mais que qualquer outra coisa. Porque é um silêncio que se  impõe profundamente e que não dá espaço para uma experiência alegre e vivida. Como é que não há espaço para a música durante uma visita a um Museu ou a um  Palácio? Porque não trabalhar todos os sentidos? Dei por mim quase a segredar ao  ouvido de um assistente de sala quando lhe perguntava se havia ainda mais escultura  portuguesa nas reservas do Museu. Dou por mim quase com medo de fazer barulho  naqueles espaços tão certos, tão imaculados, tão vazios de alma.

Para quem não está familiarizado, os Museus, Monumentos e Palácios nacionais são  37 no total e distribuem-se por 21 cidades e vilas, de norte a sul de Portugal, e são  geridos pela Museus e Monumentos de Portugal E.P.E, uma pessoa colectiva de direito  público de natureza empresarial. Surgiu aquando da extinção da Direção-Geral do  Património Cultural. Ano após ano, reestruturação após reestruturação, liderança após  liderança, continuamos no mesmo lugar. Estamos presos a práticas ineficazes que não  permitem alavancar o nosso Património Cultural como tão bem merece, como tão  urgentemente precisa.

A percentagem do Orçamento do Estado para a Cultura, por muito pequena que seja, não serve como desculpa e a falta de recursos humanos também não. Só interessa  olhar para o que concretamente pode ser feito. Só interessa perceber de que forma é  que podemos fazer mais com o que temos e isso tem, inevitavelmente, de partir de  uma mudança de mentalidade. Como é que os responsáveis do sector estão a olhar  para os equipamentos culturais que gerem? Quais os eixos estratégicos de acção?  Quais as prioridades definidas?

Se queremos um Património que seja verdadeiramente vivido por todos não há outra  via senão a de incluir mesmo todos na construção destes espaços comuns. Uma boa  nota para o Museu Nacional de Arqueologia que promoveu, recentemente, uma  iniciativa de Escuta Externa. Porque não adoptar a prática nos vários Museus,  Monumentos e Palácios nacionais?

Os meus 29 anos de vida, cinco dos quais a trabalhar de perto com o sector da Cultura,  permitem-me perceber que estamos presos a uma mentalidade que insiste em gerir o  Património Cultural como coisa do passado. Precisamos de um olhar de futuro, capaz  de inovar, criar e empreender. Faço parte da próxima geração que vai assumir a  responsabilidade por este extraordinário legado. A cada geração cabe sempre a  missão de cuidar do Património Cultural, assegurando a transmissão para a geração  seguinte. Esta transmissão implica um profundo sentido de cuidado e um enorme  compromisso em imprimir no Património Cultural as marcas do tempo presente. Só  assim podemos ter um Património Cultural que transcende o próprio tempo e que se  faz vivo e presente, atual e relevante.

Acredito que só uma mudança de mentalidade pode ser o ponto de partida para um  futuro mais risonho para o Património Cultural em Portugal. Como é que olhamos para  o Património Cultural? O Património existe para ser vivido, existe para ser um lugar de futuro, capaz de acompanhar a sociedade e os seus desafios. O Património é, também,  um lugar de respostas e só existe verdadeiramente se for para ser de todos. Que todos  o sintam como seu. Porque o é. Não concebo outra maneira de compreender o  Património Cultural se não a partir de um olhar de comunidade e de espaço comum. O  Património tem de ser um lugar privilegiado para a inovação, para a criação, para a  juventude, para as pessoas. O que é que nos está a impedir de dar passos em frente e  de dar futuro ao nosso Património? Já chega de o condenar ao passado.

Feliz o dia em que se ouvirem gargalhadas altas nos Museus, Monumentos e Palácios  nacionais. É sinal de que, finalmente, são espaços vividos por todos.