De tempos a tempos, reacendem-se debates apaixonados sobre os direitos humanos. Falamos de direitos laborais, civis e existenciais. Reivindicam-se novas garantias, discutem-se velhas injustiças, propõem-se reformas. Todavia, o que tem faltado, e muito são os debates sobre os deveres, os nossos deveres, laborais, civis e existenciais. Estamos em modo automático a sobreviver adaptando-nos ao que nos envolve. Há muita discussão e muito pouca concretização. Neste ruído constante o que parece faltar cada vez mais é a capacidade de assombro — esse impulso humano de se indignar, de se comover, de reagir.

A história da Humanidade é feita de lutas por direitos. Uns foram conquistados em décadas, outros levaram séculos. Mas todos implicaram uma condição essencial: o reconhecimento da dignidade humana. Esse reconhecimento nasce, ou deveria nascer, do espanto moral — da recusa em aceitar o inaceitável, da vergonha perante a injustiça, da compaixão ativa face ao sofrimento.

Hoje, essa capacidade está em risco. Olhamos para as tragédias do mundo com um misto de cansaço, distância e anestesia. Gaza está em ruínas. A Ucrânia sangra todos os dias. Em Israel, o medo é uma constante. No Irão, a repressão é rotina. E no Ocidente, multiplicam-se os comentários, as análises, os protestos seletivos — mas já poucos se espantam. A avalanche de horrores cobre-nos com uma caspa fina de indiferença.

Já não é a barbárie que nos choca.

É o silêncio que já não nos incomoda.

O direito à vida — esse direito primeiro, consubstancial à nossa condição humana — está a ser esmagado pela violência, pela guerra, pela geopolítica cínica e, mais grave ainda, pela passividade. Quando os encarregados de zelar por esse direito se limitam a assistir, neutralmente, ao seu atropelo, tornam-se cúmplices. Há uma linha fina entre os autores da selvajaria e os promotores da sua normalização.

Mas talvez o mais preocupante de tudo seja a nossa complacência ética. Falamos muito de direitos, pouco de deveres. Exigimos respeito, mas raramente nos interrogamos sobre o compromisso moral que cada um de nós tem com o próximo — seja ele vizinho, refugiado ou inimigo. A balança está desequilibrada.

Podemos perder conforto, segurança e até liberdade — e continuar a viver, adaptando-nos. Mas se perdermos a capacidade de assombro, se deixarmos de nos escandalizar, de sentir repulsa, de reagir, então perdemos algo essencial: a humanidade.

É tempo de nos perguntarmos se ainda somos capazes de nos espantar. Se a resposta for não, então sim, temos motivos para estar verdadeiramente alarmados.