Rui Rio

Pode António Costa salvar o PSD? /premium

Autor
465

Se o PSD e o CDS representam alguma coisa, é o repúdio do domínio socialista do Estado. Por isso, a oportunidade da direita democrática em Portugal se afirmar e crescer não é com o PS, mas contra o PS

Não vale a pena comparar sondagens: já todos se convenceram de que as eleições, para o PSD, vão ser um desastre. Também não vale a pena perder tempo com as trapalhadas de Rui Rio: o problema do PSD não está só nas personalidades, mas nas más ideias. Uma vez que toda a gente fala de Rio, falemos nós dessas ideias.

A estratégia de Rio de aproximação ao PS não é uma excentricidade. Pelo contrário. O PSD e a direita em geral habituaram-se quase desde o princípio da democracia a depender dos socialistas. Em 1975, persuadiram-se de que tinham sido salvos por Mário Soares; em 1976, que só podiam chegar ao governo aliados ao PS. Mesmo quando, a partir de 1979, conseguiram maiorias absolutas, os dois terços da revisão constitucional impediram-nos de cortar esse cordão umbilical. Para os antigos quadros do PSD e do CDS, a lição foi clara: nada se podia fazer no país sem os socialistas. Alguns, a partir daí, foram mais longe: só o PS podia de facto governar e reformar. Foi assim que Guterres foi muito elogiado pela capacidade de governar sem “crispação”, ou que Sócrates foi recebido como o reformador liberal de que o país precisava.

Quando Rui Rio fala das reformas estruturais que quer fazer com o PS, é esta a história de que tem por detrás. Mas há outra coisa: depois de vinte anos a passar pelo poder apenas em épocas de ajustamento, como em 2002 ou em 2011, o PSD começou a acreditar que o povo o confundira com a austeridade, e que nunca mais teria os votos de que são feitas as vitórias em Portugal: os dos dependentes do Estado, isto é, funcionários públicos e pensionistas. O êxito eleitoral de 2015, apenas agravou a sensação de impotência: já nem ganhando eleições ficam no governo. Tal como o PCP e o BE, também o PSD concluiu que precisava do Estado e do seu clientelismo, e que só a promiscuidade com o PS de António Costa o podia levar até lá. Foi nisto que os caciques do PSD votaram em Janeiro deste ano.

A dúvida que se levanta a esta estratégia é a de saber se o PS corresponderá ao afecto. Vamos admitir que sim, que talvez o PS esteja interessado em enquadrar o PSD de Rio numa geringonça aumentada: em 1980, além da UEDS, os socialistas também contaram com a ASDI na sua FRS. Vamos admitir ainda que, inviabilizando de facto quaisquer reformas — uma vez que o PS, para se manter como “charneira” do regime, não as pode fazer –, esta estratégia deixaria no entanto o PSD em condições de romper a nova geringonça em nome do reformismo, como Cavaco Silva fez em 1985, quando pôs fim ao Bloco Central. Então, o que está errado nesta abordagem?

O problema que Rio e os seus correligionários não parecem capazes de ver é que, se o PSD, o CDS e os outros partidos que estão à surgir à direita representam hoje alguma coisa, para além de algumas tradições e “aparelhos”, é precisamente a desconfiança e o repúdio do domínio socialista do Estado, agora enredado no politicamente correcto do Bloco, no egoísmo sindicalista do PCP e nos processos judiciais do socratismo. Por isso, a oportunidade da direita democrática em Portugal se afirmar e crescer não é com o PS, mas contra o PS. António Costa não pode salvar o PSD, porque quanto mais o PSD esperar de António Costa, menos o país vai esperar do PSD.

Dir-me-ão: essa desconfiança e repúdio do domínio socialista ainda não chegam para perturbar o sono de António Costa. Pois não. Mas existem, num país constrangido pela mediocridade e precariedade de tudo, e expandir-se-ão quando a conjuntura mudar. O que falta saber é quem protagonizará então esses sentimentos, se a direita do regime, se uma outra qualquer força política, menos disponível para ressalvar continuidades. Não, António Costa não pode salvar o PSD, mas o PSD e o CDS ainda podem salvar outra vez o regime. E é isto que talvez conviesse salvaguardar.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
10 de junho

A função social da esquerda /premium

Rui Ramos
616

Talvez a direita, noutros tempos, tenha tido o papel de nos lembrar que não somos todos iguais. As reacções ao discurso de João Miguel Tavares sugerem que essa função social é hoje da esquerda.

Rui Rio

Por este Rio abaixo! /premium

Luís Reis
303

Rio autopromoveu-se para além do limiar da sua incompetência, mas não para além do seu ego. O Princípio de Peter pode ser agora rebaptizado: o Princípio de Rio. Esse Princípio será também o seu fim.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)