Não vale a pena comparar sondagens: já todos se convenceram de que as eleições, para o PSD, vão ser um desastre. Também não vale a pena perder tempo com as trapalhadas de Rui Rio: o problema do PSD não está só nas personalidades, mas nas más ideias. Uma vez que toda a gente fala de Rio, falemos nós dessas ideias.

A estratégia de Rio de aproximação ao PS não é uma excentricidade. Pelo contrário. O PSD e a direita em geral habituaram-se quase desde o princípio da democracia a depender dos socialistas. Em 1975, persuadiram-se de que tinham sido salvos por Mário Soares; em 1976, que só podiam chegar ao governo aliados ao PS. Mesmo quando, a partir de 1979, conseguiram maiorias absolutas, os dois terços da revisão constitucional impediram-nos de cortar esse cordão umbilical. Para os antigos quadros do PSD e do CDS, a lição foi clara: nada se podia fazer no país sem os socialistas. Alguns, a partir daí, foram mais longe: só o PS podia de facto governar e reformar. Foi assim que Guterres foi muito elogiado pela capacidade de governar sem “crispação”, ou que Sócrates foi recebido como o reformador liberal de que o país precisava.

Quando Rui Rio fala das reformas estruturais que quer fazer com o PS, é esta a história de que tem por detrás. Mas há outra coisa: depois de vinte anos a passar pelo poder apenas em épocas de ajustamento, como em 2002 ou em 2011, o PSD começou a acreditar que o povo o confundira com a austeridade, e que nunca mais teria os votos de que são feitas as vitórias em Portugal: os dos dependentes do Estado, isto é, funcionários públicos e pensionistas. O êxito eleitoral de 2015, apenas agravou a sensação de impotência: já nem ganhando eleições ficam no governo. Tal como o PCP e o BE, também o PSD concluiu que precisava do Estado e do seu clientelismo, e que só a promiscuidade com o PS de António Costa o podia levar até lá. Foi nisto que os caciques do PSD votaram em Janeiro deste ano.

A dúvida que se levanta a esta estratégia é a de saber se o PS corresponderá ao afecto. Vamos admitir que sim, que talvez o PS esteja interessado em enquadrar o PSD de Rio numa geringonça aumentada: em 1980, além da UEDS, os socialistas também contaram com a ASDI na sua FRS. Vamos admitir ainda que, inviabilizando de facto quaisquer reformas — uma vez que o PS, para se manter como “charneira” do regime, não as pode fazer –, esta estratégia deixaria no entanto o PSD em condições de romper a nova geringonça em nome do reformismo, como Cavaco Silva fez em 1985, quando pôs fim ao Bloco Central. Então, o que está errado nesta abordagem?

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O problema que Rio e os seus correligionários não parecem capazes de ver é que, se o PSD, o CDS e os outros partidos que estão à surgir à direita representam hoje alguma coisa, para além de algumas tradições e “aparelhos”, é precisamente a desconfiança e o repúdio do domínio socialista do Estado, agora enredado no politicamente correcto do Bloco, no egoísmo sindicalista do PCP e nos processos judiciais do socratismo. Por isso, a oportunidade da direita democrática em Portugal se afirmar e crescer não é com o PS, mas contra o PS. António Costa não pode salvar o PSD, porque quanto mais o PSD esperar de António Costa, menos o país vai esperar do PSD.

Dir-me-ão: essa desconfiança e repúdio do domínio socialista ainda não chegam para perturbar o sono de António Costa. Pois não. Mas existem, num país constrangido pela mediocridade e precariedade de tudo, e expandir-se-ão quando a conjuntura mudar. O que falta saber é quem protagonizará então esses sentimentos, se a direita do regime, se uma outra qualquer força política, menos disponível para ressalvar continuidades. Não, António Costa não pode salvar o PSD, mas o PSD e o CDS ainda podem salvar outra vez o regime. E é isto que talvez conviesse salvaguardar.