Nos últimos dias, os propagandistas do Kremlin, incluindo os que desfilam pelas nossas televisões, têm mostrado grande euforia com a situação de Pokrovsk, como se se avizinhasse um desastre de dimensões apocalípticas que decidiria a guerra.
Foram precisos 4 anos para que a Rússia avançasse de Donetsk até Pokrovsk. 60 quilómetros conquistados ao preço de uma mortandade nas suas próprias fileiras. Um esforço titânico por um ganho insignificante, na fronteira difusa entre o incipiente êxito táctico e o absurdo estratégico.
Há um ano e meio, o general Agostinho Costa, qual Cassandra satisfeita, já anunciava a “iminente” queda de Pokrovsk, com a mesma fanfarronice com que previu a queda de Kiev, logo no início da invasão.
Ao fim de todos estes meses, os russos entraram finalmente na cidade e Putin propôs um cessar-fogo temporário local, para que os jornalistas pudessem confirmar em paz e com luz favorável, que a cidade estava cercada e vencida. Mas a realidade é mais teimosa do que as manobras da propaganda de Moscovo. No dia em que escrevo este artigo, não está cercada, nem vencida. Está sim, a ser disputada rua a rua, numa batalha em que o Exército russo concentra forças que superam os ucranianos em 8 para 1, e 10 para 1 em drones.
O retrato é este: cerca de duzentos russos, disfarçados de civis, arrastaram-se no fim de outubro para dentro da cidade em ruínas. A sua missão era infiltrar-se, evitar o confronto directo com as unidades defensoras, esconder-se entre escombros, silenciar civis que pudessem denunciar a sua presença e, com reforços, atacar posições ucranianas para revelar as suas posições. A maioria foi aniquilada antes de chegar ao destino. Os que entraram vivem horas curtas, brutais e anónimas.
As forças ucranianas detectam, fixam e destroem: quando a posição é confirmada, seguem-se bombas planadoras, artilharia e drones. E quando nada mais resolve, combate-se à distância em que se vê o branco dos olhos do inimigo.
Há um padrão repetido: infiltrações pontuais que conseguem sucessos locais e tentativas de exploração do sucesso, que acabam invariavelmente em desastre. Sempre que a Rússia concentra forças blindadas, os ucranianos detectam e atacam. Num caso recente, uma coluna blindada avançou em plena luz do dia. Em quarenta minutos, drones e artilharia ucraniana reduziram 10 blindados a sucata.
Por mês os russos perdem cerca de 300 blindados e 500 camiões. O punho mecanizado russo agoniza perante enxames de drones e fogos precisos. Os russos responderam com centenas de bombas planadoras, misseis e projécteis termobáricos sobre a cidade. O combate urbano é um inferno. Não há flancos, não há retaguarda. Apenas paredes, sombras, o medo da esquina seguinte e dos drones que podem vir de todo o lado.
A situação actual é fluida, mas reconhecível. Os russos chegaram aos bairros centrais, converteram caves em postos de tiro e apartamentos em fortalezas improvisadas. A luta é de proximidade, num cocktail de tecnologia e brutalidade.
A Ucrânia responde com iniciativa e inovação: há dias introduziu forças especiais helitransportadas atrás das linhas russas, a sul da cidade, para atacar depósitos, centros de comunicações e postos de comando, incendiar combustível e munições. A incursão desarticulou fluxos logísticos russos e aliviou a pressão sobre as defesas locais.
Zelensky resumiu a situação como “difícil, mas sob controlo”. É uma verdade política com nuances militares. Significa que cada metro é disputado e que nenhum avanço russo é sustentável. Os ucranianos controlam o que importa controlar, recusando a narrativa de inevitabilidade que Moscovo tenta vender.
De facto, as rotas terrestres ucranianas que abastecem Pokrovsk estão condicionadas, mas ainda não cortadas. Provavelmente em melhores condições do que as russas, segundo relatos dos prisioneiros capturados na cidade. A chamada “zona dos drones”, uma faixa mortal de 20 quilómetros de cada lado da frente, tornou qualquer veículo russo um alvo fácil.
As perdas são pavorosas. Na área de Pokrovsk, estima-se que as baixas russas desde o início da ofensiva de Verão, ultrapassem as 70 000. Em toda a frente, rondam 3 batalhões por dia, fora os desertores. São poucas as forças armadas modernas que suportam essa percentagem de baixas sem colapsar. Mas o Kremlin continua a enviar ondas de infantaria mal preparada.
Repete-se Bakhmut, transformada em cinza por obstinação de quem a quis descrever como troféu e chave para o domínio do Donbass. O terreno, porém, tem memória: a oeste de Bakhmut, Chasiv Yar continua sob controlo ucraniano. A Rússia sangra por metros; a Ucrânia adapta-se por quilómetros.
Pokrovsk tornou-se também um íman de desastre para os generais de Moscovo e para os seus ecos ocidentais que repetem, de olhos fechados, a narrativa do Kremlin. É que a sua importância estratégica é hoje muito menor do que era no passado, quando era o eixo logístico para abastecer Avdiivka.
O valor táctico e estratégico de um objectivo militar não é determinado apenas pelo mapa, mas pelas circunstâncias do campo de batalha em que se inscreve. A Ucrânia redireccionou rotas mais a oeste e Pokrovsk é agora um mero posto avançado agarrado à sua antiga relevância, mais por inércia, do que por geografia. O exército russo luta, pois, por uma cidade que já perdeu muito do seu significado militar.
Mas Putin precisa de uma vitória visível. As refinarias em chamas dentro da Rússia corroem-lhe o prestígio. Só que não haverá vitória relevante em Pokrovsk. Conquistar a cidade não mudará a equação em Donetsk porque, se cair, abrir-se-á terreno ondulado e desprotegido, couto de caça de drones, fogos de artilharia, bombas e campos minados. Os generais russos parecem seguir o guião operacional de 1943, mas em 2025, o campo aberto é um espaço transparente, letal e implacável onde nada se move sem ser visto. E nada é visto sem ser atingido.
Aconteça o que acontecer em Pokrovsk, nenhum general russo ganhará glória aqui. Apenas o frio reconhecimento de que a guerra moderna não se compadece com fantasias imperiais. Mas o saldo humano é brutal: centenas de milhares de viúvas, um cemitério mecanizado em constante crescimento e cidades reduzidas a cinzas. Putin e a sua máquina propagandística podem vender vitórias simbólicas, mas a realidade cobra-as em cadáveres. Pokrovsk é mais um sinal de que o sonho do “Império Euroasiático” se esfuma frente a uma pequena cidade, porque luta por símbolos vazios.
A Rússia combate por fantasmas e bandeiras apodrecidas; a Ucrânia luta pelo direito de existir e ajusta-se ao tempo tecnológico: enxames de drones que reescrevem as regras do combate terrestre, ataques profundos às refinarias que alimentam a maquinaria russa, fogo que corta comunicações e combustível.
É a Ucrânia que dita o tempo, o lugar e o ritmo. É a Ucrânia, não a Rússia, que decidirá quantos recursos empenhar na defesa do que resta de Pokrovsk. A Rússia atola-se novamente numa batalha de atrição, saída directamente das páginas de Clausewitz, que lhe consome homens, máquinas e prestígio.
Pokrovsk não quebrará a Ucrânia. Mas poderá quebrar, silenciosamente, o mito de invencibilidade que sustenta o poder de Putin e enterrar de vez as ilusões de grandeza de quem decidiu que valia a pena começar esta guerra. Porque os líderes russos sabem bem que o Exército Vermelho chegou a Berlim em menos tempo do que o seu exército levou para ocupar menos de 20 % do território ucraniano.
Um país envelhece na violência que semeia, o outro amadurece na coragem que resiste Putin atolou-se num pântano que não previu. Continua a lutar porque sabe que a derrota o devorará. A máquina de guerra russa prossegue, cega e brutal como um ciclope, mas cada morto grita em silêncio a mesma pergunta: Para quê?