Não há dúvidas que existe uma necessidade urgente na descarbonização, de forma transversal a todos os setores e à escala global.
Há muito que este processo de substituição dos combustíveis fosseis por energias mais “limpas” tem sido léxico comum nas mais brilhantes dissertações dos políticos “modernos”.
Para além disso, na nossa velha Europa, acresce o tema revolucionário do pacto ecológico, com metas bastante exigentes e sobre as quais recai uma garantia de compromisso de execução na sua totalidade até 2050.
Olhando para o cardápio destas medidas e aos prazos de execução é, claramente, percetível a colossal dimensão dos custos associados a esta manobra verde, mas, em lado algum, é descrito como e quem pagará essa fatura.
É incontestável que uma estratégia industrial para uma economia circular, onde se incluem medidas como um plano de acão da economia circular, focada nos sectores intensivos como têxteis, construção, produtos eletrónicos e plásticos ou a definição de novas políticas para fabricação de produtos mais sustentáveis, através do recurso a materiais reutilizáveis e/ou recicláveis têm como objetivo claro um modelo mais ecológico para o bem de todos.
Do mesmo modo posso referir a mobilidade sustentável que tenha por fim proposta para a promoção das energias alternativas no abastecimento de transportes, incluindo aviões ou mesmo a revisão da legislação dos standards de emissões automóveis para chegar a zero numa década, tem o mérito de pensar num futuro mais “limpo” para as gerações vindouras.
Por outro lado, também não coloco em causa a boa intenção no que diz respeito a uma política agrícola mais verde, com a inclusão de um plano de ação para a substituição de alguns fatores de produção por outros mais sustentáveis na produção agro pecuária ou mesmo na estratégia “Farm to Fork”.
A questão central continua em aberto, quem pagará todas estas boas práticas implementadas de uma forma cega e em contra-relógio? Os utilizadores dos produtos produzidos com praticas sustentáveis? Os automobilistas? Os consumidores? Os empresários?
A implementação de uma estratégia verde, feita a régua e esquadro, de igual forma e com a mesma velocidade para todos os estados-membros da EU, só trará mais assimetrias sociais se não coexistirem políticas publicas de financiamento destes novos modelos de vida.
A estratégia “Farm to Fork” é um bom exemplo do que de mau pode suceder. Em Portugal é certo que implicará uma inquestionável limitação ao objetivo da soberania alimentar, colocará em causa a competitividade em relação a mercados terceiros, diminuirá a produtividade por hectare, aumentará os custos de produção e, consequentemente, ampliará os preços dos alimentos para os consumidores/famílias.
Até agora os únicos pagadores desta fatura verde são as famílias, que veem os preços a aumentar dos alimentos, energia e dos transportes, para percentagens bem maiores que o aumento real dos seus rendimentos. E se para uns é apenas perda de poder de compra para outros, este aumento de custos, representa a impossibilidade de adquirir determinados alimentos de qualidade.
Urge, como tal, uma clarificação de quais são as políticas publicas defendidas por cada partido que permitam uma mitigação destes custos para os consumidores/famílias e empresas. Por outro lado, é imperativo que os portugueses estejam devidamente esclarecidos sobre a pegada de carbono de cada bem ou serviço que adquirem e mesmo qual o impacto ambiental de cada setor económico.
Tem de existir uma forma justa de avaliação do peso carbónico dos alimentos até chegarem à prateleira do supermercado. É necessário avançar para rotulagem do índice carbónico (é essencial que os consumidores possam, no momento da compra, comparar o custo de carbónico de 1 kg de carne de vaca Minhota com 1 kg de soja importada da América do Sul). Uma medida que deve ser promovida e financiada a nível europeu, para que os encargos não recaiam, mais uma vez, sobre a produção.
O mesmo se passa em relação aos setores económicos. Este novo paradigma ambiental já devia ter “obrigado” que as avaliações publicas dos setores não se limitassem a mostrar o seu “peso” no PIB, mas também o seu custo carbónico. É, provavelmente, a única forma de clarificarmos quem mais terá de se requalificar para esse tal futuro ambientalmente sustentável.
A questão da transição verde necessita de menos demagogia e mais pragmatismo. Sem radicalismos e somente com propostas políticas transparentes e devidamente quantificadas no que respeita ao custo carbónico e a quem compete ser onerado por isso é que farão, justamente, que não sejam as famílias a pagar a totalidade de uma conta para as quais elas contribuem muito pouco.