Luís Montenegro tem dois meses para provar ao seu eleitorado que vale a pena votar nele outra vez. Mas não só: para que o país não fique ingovernável precisa que muitos daqueles que em 2024 se abstiveram ou que votaram na IL ou no Chega agora lhe dêem o seu voto.

Mas porque hão-de fazê-lo? Ao longo dos treze meses em que tem sido primeiro-ministro, Luís Montenegro alguma vez falou para eles? Alguma vez explicou em que eram diferentes as suas políticas das de um governo socialista? Ah já sei: o seu governo mudou o logotipo; falou uma ou duas vezes sobre segurança e anunciou agora cinco PPP’s em hospitais do SNS.

Nem de longe, nem de perto isto chega para criar a onda de entusiasmo que pode levar um candidato a aspirar vencer com uma maioria se não absoluta pelo menos não exígua.

Quando o Miguel Pinheiro escreve “Montenegro está a imitar o plano de Sá Carneiro” e  faz o paralelismo entre as formas de proceder e as reacções de Luís Montenegro nesta crise e aquelas que foram tomadas por Sá Carneiro em 1980, fica-se impressionado com a similitude. Mas apenas com a similitude cronológica. Porque há uma diferença que impressiona ainda mais. E não, não é a de mais um papel ou menos um papel com explicações sobre os casos que em 1980 envolviam Sá Carneiro e em 2025 Luís Montenegro, é sim a de ser visto pelo seu eleitorado como um líder que não só faz a diferença mas, não menos importante, que faz a diferença em coerência com as suas ideias políticas. Em 1980, Sá Carneiro conseguiu transmitir essa mensagem e essa ideia de si ao eleitorado. Luís Montenegro não só não fez isso como não me parece que o venha a fazer. Ou, o que é mais importante, que considere que é assim que deve apresentar-se aos portugueses e governar.

Luís Montenegro levou os treze meses do seu governo a procurar não hostilizar a esquerda, a desencantar sempre mais um subsídio que deixava os socialistas furiosos por não terem sido eles a recorrer a tal expediente. Mas agora que muito provavelmente está a dois meses de ir a votos, vai confrontar-se com o óbvio: a esquerda nunca votará nele. O pior é que a direita não sabe porque há-de fazê-lo.

A lama. Enquanto o país discute se vai ou não para eleições, se o Governo retira a moção de confiança ou se o PS a chumba, eis que os partidos, em extraordinária sintonia (apenas o Chega e a IL estão contra), mandam a reforma de 2013 para o lixo e confirmam o decreto que promove a separação de 135 uniões de freguesias:  302 novas freguesias estão aí prontas para as próximas autárquicas.

O que é preocupante é que nem Montenegro, que aponta a eleições para evitar “país envolto em lama”, nem Pedro Nuno Santos, que diz que o PM “está na lama”, percebam que a lama é isto: um parlamento a aprovar uma alteração que quase só interessa às máquinas partidárias e a torcer a legislação de modo a que tudo isto possa estar já no mapa das próximas autárquicas.  No mundo luta-se pelo controlo das terras raras. Em Portugal temos esta fixação na lama.

O Dia da Mulher. Ontem foi o dia das pessoas com útero voltarem a ser mulheres. O Dia da Mulher tornou-se um paradoxo. Um absurdo. Afinal, durante 364 dias do ano as mulheres são pessoas que menstruam, que têm útero, que amamentam… 364 dias do ano as mulheres vêem-se ultrapassadas nas provas desportivas por homens que se sentem mulheres, perseguidas nos locais de trabalho e lazer caso recusem partilhar balneários com homens que passaram a designar-se mulheres… Chega o 8 de Março e toda esta grotesca fantasia desaparece e passamos a ter mulheres. Toda a gente se declara solidário com as mulheres e aquilo que na véspera era obrigatório repudiar, como a prisão perpétua, passa a medida avançada. Veja-se, por exemplo, o anúncio do governo italiano de punir com prisão perpétua “o feminicídio”. Agora ninguém protesta? Ninguém considera isto um retrocesso? Ninguém questiona?