Esta semana, num dos momentos de maior tensão da sua vida política, Luís Montenegro fez uma citação sem fazer uma citação: “Saber estar e romper a tempo, correr os riscos da adesão e da renúncia, pôr a sinceridade das posições acima dos interesses pessoais — isto é a política que vale a pena.” Foi assim, com drama, que o primeiro-ministro acabou o discurso que fez na abertura do debate sobre a moção de censura do PCP. Não explicou que a frase não era dele, mas, na verdade, também não era preciso. Todos os laranjinhas a conhecem, palavra por palavra, como se fosse um mantra. A frase, que poderia estar escrita em pedra na sede do PSD, foi originalmente escrita, claro, por Francisco Sá Carneiro.

Desde Camarate, todos os presidentes do partido acharam, de uma forma ou de outra, que eram um bocadinho Sá Carneiro. Mas Luís Montenegro é um caso diferente. Ele não se limitou a procurar inspiração retórica para terminar um discurso decisivo — está a imitar, ao detalhe e ao milímetro, o plano executado por Sá Carneiro quando esteve envolvido num sarilho semelhante ao que vai agora levar à queda do governo.

A polémica que fragilizou Sá Carneiro tem, de facto, muitas parecenças com a atual: envolveu acusações de recebimento indevido de dinheiro, envolveu a família próxima do primeiro-ministro, envolveu pedidos sucessivos de esclarecimento, envolveu uma declaração com todos os membros do governo e envolveu uma comissão parlamentar de inquérito lançada pelo PS.

O caso, que ficou conhecido como “Watergate português”, durou anos. Tudo começou antes do 25 de Abril, quando Francisco Sá Carneiro e o irmão Ricardo pediram, legitimamente, vários empréstimos ao Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa para comprarem ações. Até que, quinze dias depois da revolução, a Bolsa fechou e as autoridades suspenderam todas as transações de títulos. Nesse momento, Francisco Sá Carneiro tinha uma dívida de 7900 contos ao BESCL e o irmão Ricardo devia 5900 contos. Partindo destes factos incontestados, surgiu uma acusação pesada: utilizando documentos fornecidos pela comissão administrativa que tomou conta do banco a seguir às nacionalizações, o PCP afirmou, de forma trovejante, que Sá Carneiro tinha aproveitado a confusão do período revolucionário para não pagar a dívida.

O jornal “O Diário”, propriedade do Partido Comunista, insistiu no assunto durante vários anos — sempre nos momentos mais decisivos da vida política de Sá Carneiro. A notícia surgiu em Abril de 1976, poucos dias antes das primeiras eleições legislativas em democracia. Reapareceu de novo em Novembro de 1977, durante um sangrento confronto pela liderança do PSD que opôs Sá Carneiro e Sousa Franco. Irrompeu outra vez em Junho de 1978, quando Sá Carneiro estava a regressar ao PSD depois de se ter auto-exilado. Eclodiu uma vez mais em Agosto de 1979, um mês depois da formação da AD, coligação que o levaria a ganhar as eleições e tornar-se primeiro-ministro. E explodiu mais uma vez no Verão de 1980, a poucos meses de umas novas eleições legislativas.

Foi neste último momento que se deu uma mudança fundamental. Até aquela altura, a polémica só existira na órbita comunista. Nenhum outro jornal pegava no tema e apenas os dirigentes do PCP o usavam para acusarem Sá Carneiro de ser um “burlão” e de não ter “honradez” nem “um mínimo de vergonha”. Mas, em 1980, os comunistas passaram a ter a companhia dos socialistas. O PS, que estava a carburar os motores da campanha eleitoral, exigiu a interrupção das férias parlamentares e a realização de uma sessão extraordinária da Assembleia da República. Tudo para que pudesse ser votada a dramática criação de uma comissão de inquérito à “dívida” de Sá Carneiro.

Isto foi o que o PS fez de forma transparente. De forma encoberta, Mário Soares autorizou que fossem distribuídas nas ruas milhares de notas falsas com uma caricatura de Sá Carneiro — o então líder socialista confessaria mais tarde que achou “graça” à ideia. Na mesma altura, não se sabe por iniciativa de quem, inúmeras paredes das principais cidades do país começaram a ser pintadas com uma frase demolidora: “Sá Carneiro paga o que deves”.

Durante muito tempo, o líder do PSD e depois primeiro-ministro ignorou as acusações. Mas, com o envolvimento do PS, percebeu que não podia continuar em silêncio. Numa conversa privada, Sá Carneiro explicou ao seu assessor Santana Lopes o que lhe ia na cabeça: “Pedro, por mim, o PCP podia gritar durante cinco anos. Não lhes respondo. Mas quando o principal partido da oposição, que é um partido democrático, põe em causa a honorabilidade do primeiro-ministro, aí já devo uma explicação ao país”.

Luís Montenegro está hoje a seguir o mesmíssimo raciocínio. Também ele aceitaria a censura do PCP, mas achou incomportáveis as suspeições socialistas e a comissão de inquérito imposta pelo PS. Esta semana, no Parlamento, queixou-se: “Há partidos que assumem com lealdade que querem derrubar o Governo. Mas o PS quer derrubar mas não quer eleições já; quer que o derrube corresponda a um processo lento, de degradação e desgaste contínuo”.

O passo seguinte de Montenegro também foi igual ao de Sá Carneiro. Em 1980, o primeiro-ministro convocou um Conselho de Ministros extraordinário e, no final, falou aos jornalistas rodeado pelo governo inteiro. À frente de uma câmara da RTP, jurou estar a ser vítima de um “ataque pessoal”, de uma “calúnia” e de uma “pura difamação”. Falou longamente, mas, tal como Montenegro, deu poucas justificações sobre a polémica. Limitou-se a afirmar: “O primeiro-ministro repetidamente declarou e declara que nada deve à banca nacionalizada e, em particular, à instituição bancária que tem sido referida, a qual também já o afirmou expressamente e por escrito há mais de um ano.”

Até o calendário é o mesmo: Francisco Sá Carneiro ia ter eleições dali a dois meses; Luís Montenegro vai ter eleições daqui a dois meses. Não sei o que está na cabeça do atual primeiro-ministro, mas, em 1980, tivemos inicialmente um silêncio — e depois uma revelação. Sá Carneiro tinha apresentado uma queixa contra “O Diário” e precisava de juntar ao processo um documento com os seus argumentos. Esperou pelo último momento possível, quando faltavam escassos três dias para as eleições legislativas. Além de entregar esses papéis ao juiz, colocou-os também nas mãos ambiciosas de um jovem jornalista do semanário “O Tempo” chamado Paulo Portas. Dessa forma, os eleitores puderam ler todos os argumentos da sua defesa antes de se dirigirem à cabine de voto. Entre eles, estava este, que pode soar familiar aos leitores de hoje: “embora nenhuma exigência ética a tal o obrigasse”, o primeiro-ministro passara a responsabilidade da sua dívida para um familiar próximo — não a mulher ou os filhos, mas o irmão —, para não estar na política “na situação de devedor a um banco”; e mais tarde a dívida fora regularizada por Ricardo. Resultou: apenas 72 horas depois da publicação da notícia com as explicações do primeiro-ministro, os eleitores deram uma maioria absoluta a Francisco Sá Carneiro.

Percebe-se que esta história antiga possa tranquilizar, incentivar e inspirar Luís Montenegro. As semelhanças são, realmente, espantosas. Mas, se quer imitar Sá Carneiro, o primeiro-ministro tem de seguir o plano até ao fim: tem de contar tudo, tem de responder a tudo e tem de mostrar tudo. A “política que vale a pena” não se faz só pela metade.

Nota: as informações deste artigo são retiradas do livro “Sá Carneiro”, da Esfera dos Livros