Chego à terra (com o prazer de poder ter uma “terra” que nomear e a que chegar) para os dias de Natal e estranho a escassez de luzes. Não há forma de medi-lo – não ao alcance de um cidadão banal -, apenas como comparar com as imagens impressas na memória de Natais passados. Dificilmente, uma informação podia ser menos subjectiva; é mera – para usar uma das palavras do ano e, em geral, do nosso tempo – percepção, mas parece dar corpo visível a uma sensação crescente nas últimas semanas e nos últimos anos: o apagamento do Natal. O processo da sua trivialização ou desencantamento (a dessacralização já tinha acontecido há muito, mas tinha sido substituída por um encantamento mais ou menos pagão, mais ou menos heterodoxo, tempo sincrético aberto a todas as fés e manifestações de um conjunto de valores, apesar de tudo, razoavelmente comuns).
É estranho quando somos sempre nós a terminar as conversas com as “boas festas” com que antes nos sentíamos positivamente bombardeados de toda a parte. No fim de uma compra ou à saída do café, na despedida de um encontro com um amigo ou de uma reunião de trabalho que, “em princípio”, “se não nos virmos antes”, votos de “bom Natal”. Olham-nos com uma certa surpresa, agradecem com atrapalhação, nalguns casos apanhados tão desprevenidos que nem se lembram de devolver. É como se, de repente tivesse havido um fenómeno de amnésia colectiva, ou, pelo menos, um factor qualquer de distracção que nos tivesse deixado a olhar para outro lado e não reparado que, entretanto, deste, o Natal chegara. Ou talvez nos andemos todos a tornar, cada vez mais, minúsculas peças de uma engrenagem qualquer, um relógio do tempo desnaturalizado, higienizado, liofilizado, ou pior, anestesiado, traumatizado, que já não nota, não sente, não sabe ou não quer parar.
Partilho o tema com alguns amigos e conhecidos – sempre a ínfima esfera privada, muito aquém da objectividade. Concordam. Ninguém sente, ninguém anda a sentir. Um deu-se conta de que era Natal no fim-de-semana, nas compras, entre canções e embrulhos; outro segunda-feira, quando se pôde dar ao incrível privilégio de apresentar “Música no Coração” aos filhos e até à mulher que, os deuses a abençoem, também nunca o tinha visto (o equivalente àquelas senhoras das reportagens da TVI que viviam em Sobral de Monte Agraço e nunca tinham visto o mar).
Arranja-se mesa nos restaurantes sem especial dificuldade, quando os antecipávamos a transbordar de jantares de Natal das empresas. Trocam-se telefonemas e emails de trabalho até quase à hora da consoada. Na rádio e na televisão, as notícias e a programação do mundo seguem aparentemente iguais, indiferentes, tão distraídas ou exaustas do assunto como as pessoas na rua surpreendidas pelas nossas “boas festas”. Algumas pessoas dizem aos jornais que vão passar o Natal sozinhas porque sim, por opção, porque querem “silêncio”.
Talvez seja de as campanhas de Natal durarem, cada vez mais, uma estação do ano, começarem logo assim que uma pessoa arruma o material de praia e irem até ao último dia de trocas em Janeiro. Ou de termos enchido o calendário de celebrações, como crianças grandes com medo de se aborrecer, do dia dos namorados ao Halloween, do Saint Patrick à Black Friday, do Ano Novo chinês à rentrée, dos Santos Populares (que também já duram quase tanto como o Natal) ao dia do pai e da mãe e dos irmãos e dos animais e da árvore e da criança e do feriado que nem sabemos o que festeja, mas achamos crime contra a humanidade se acaso não nos deixarem festejar.
Sim, talvez seja de andarmos sempre em festa, de termos de estar sempre em hiper-estimulação, do horror que desenvolvemos à “normalidade”. Talvez não haja menos luzes – até mais – e não as vejamos não porque não estejam lá, mas por saturação, por encadeamento, porque cegámos e já nem notamos. Talvez seja dos nossos omnipresentes ecrãs, sempre acesos diante dos olhos e nos tabliers dos carros e nos placards nos cruzamentos, nos cafés, nas lojas, no trabalho e em casa. Por estarmos sempre a receber notificações, disparos de dopamina, recompensas para o bovino scroll com que agora pastamos o tempo que, antes, não tinha de nos estar sempre a premiar por, simplesmente, continuarmos a existir.
Talvez seja o desgaste ou o exaurimento disto tudo que já não nos deixa sentir, como dantes, o tempo do Natal, mesmo os pais de crianças pequenas, habituais alambiques desse sortilégio que destila qualquer trivialidade em magia. Ou então, o mal venha da descrença, do pessimismo, do medo perante o mundo que enfrentamos. Da ameaça de apocalipses que se acotovelam por um lugar no pelotão de fuzilamento: político, tecnológico, climático. Mais os filhos emigrados e a incerteza numa reforma, a espera para o hospital e o insaciável galopar da renda de casa. Quem consegue pensar em deuses nascendo em estábulos, há dois mil anos, para nos salvar? Ou sequer num Pai Natal, espécie de Deus disfarçado para o mundo moderno que as longas barbas denunciam, para nos abraçar e encorajar com o seu perdão e mimo, alentando-nos para mais um ano que aí vem? Se até o Chris Rea decidiu deixar-nos há três dia – logo agora, Chris Rea, a sério, que a notícia chegou pelo autorrádio, quando tantos conduziam (ou voavam) para casa, talvez até interrompendo a tua canção?
Ou talvez seja apenas uma impressão, a tal percepção, subjectiva, equívoca, sem qualquer verdade objectiva, apenas literária. Talvez não faltem luzes, afinal, nem gente a sentir mais o Natal do que alguma vez antes – e, nesse caso, benditas sejam. Mas, pelo sim, pelo não, vale a pena lembrar que é precisamente na noite mais escura que mais importa seguir as estrelas. Se nenhuma se apresenta visível, acendamo-la nós.
Boas festas.