A letra da música “Puff the Magic Dragon” é uma alegoria sobre a perda da idade da inocência, onde as cores do imaginário gradualmente perdem o brilho e transformam-se num mundo de sombras. Há quem também diga, que por detrás dessa imagem está uma apologia ao consumo de drogas.

Enfim, seja pela perda de inocência ou pelo abuso de substâncias alucinogénias, o certo é que hoje em dia, estamos muito mais familiarizados com os dragões e com a potência dos seus “dracarys”.

Nas últimas duas décadas, temos assistido à emergência do sagrado dragão chinês que impunemente tem arrebatado um conjunto de ilhas no pacífico e que alarga silenciosamente os seus domínios na Ásia e África, para além de prosseguir com uma política feroz de controlo das tecnologias de informação. Enquanto nos últimos anos, temos assistido em céu aberto ao esbracejar ruidoso de um dragãozinho fumegante, que volta e meia se entretém a varrer a planície com “fogo e fúria”.

Infelizmente para os europeus, depois de São Jorge ter vencido e morto o dragão, os seus habitantes tornaram-se demasiado relaxados e nas últimas décadas excessivamente mesquinhos. Ignoraram por completo a necessidade de conservar o espírito aguerrido de São Jorge, para assegurarem a defesa dos ideais democráticos, onde a procura de um equilíbrio estável entre as liberdades individuais e o poder do Estado, é a pedra basilar da democracia social europeia.

Foi em nome do excesso da procura das liberdades individuais que a Europa perdeu muito do seu espírito de solidariedade e coesão social, as quais foram contraditoriamente e cinicamente amplificadas por movimentos de populismo de esquerda. Estes romperem com o sentido holístico da democracia, ao enfatizarem a supremacia das partes sobre o todo, invertendo a prioridade dos direitos e sacrificando o bem comum a troco de uma qualquer causa particular. Mas não deixa de ser curioso, que é agora a emergência do populismo de direita na Europa que se propõe aumentar a discricionariedade da ação do Estado, reprimindo aleatoriamente liberdades individuais que estão tão enraizadas nos princípios da solidariedade entre os povos.

Claro que em Portugal andamos sempre atrasados e perdidos nos anacronismos, onde somos remetidos para o exotismo das excepções. Aqui chegámos a um ponto absurdo, em que se é censurado por se denunciar a existência de um inequívoco populismo de esquerda, que perversamente sustenta um governo e impunemente incrementa o poder discricionário do Estado. E simultaneamente, presenciamos embaraçosamente o surgimento “endiabrado” do populismo de direita, que se perde entre os discursos vagos do saudosismo do império e onde desgraçadamente se gosta mais de futebol e de sardinhas do que política…

Mas à parte disso, o ponto a aclarar é que a Europa tem vivido num regime egocêntrico e excessivamente aburguesado, subestimando importantes ameaças e dando-se muitas vezes ao luxo do escárnio e maldizer, sobre aqueles que sempre lhe deram a mão quando precisaram.

A prova disso mesmo foi a forma como subestimaram a exportação do modelo comunista no pós-guerra, com os famosos “idiotas úteis”, e a forma como sempre chacotearam os diferentes presidentes Norte-Americanos, subestimando as suas qualidades intrínsecas, com exceção feita a Jonh F. kennedy e a Barack Obama. Mas enquanto o primeiro procurou travar a exportação do modelo comunista, o segundo, independentemente das suas boas intenções, foi um dos grandes responsáveis pela emergência silenciosa do sagrado dragão chinês e da exportação do seu modelo ideológico.

Com a chegada de Donald Trump, tornou-se evidente que mais uma vez os europeus subestimaram um presidente americano e em todas as suas dimensões, mesmo os mais insignificantes, ao ponto de agora chegarem ao ridículo de sobrevalorizarem em excesso a sua estratégia ou a ausência dela…

Os europeus em vez de aproveitarem estes tempos mais conturbados de disputa de supremacia entre duas superpotências, para se unirem e tornarem a Europa mais forte, mais parecem um conjunto solto de ovelhas tresmalhadas. Correm desordenadamente, cada uma para seu canto, transformando-se irresistivelmente em presas demasiado evidentes para poderem ser ignoradas por qualquer predador. O Brexit é o cúmulo disso mesmo.

Talvez por isso, este dragãozinho fumegante americano se excite em demasia, tendo ganho o dom de querer queimar tudo por onde passa, ao ponto de estar convencido que é a potência do seu “dracarys” o grande responsável pelo aquecimento global…

Na realidade, vivemos numa nova era de dragões, onde o dragão sagrado chinês procura com o maior sucesso impor o seu domínio, enquanto o dragãozinho fumegante ciente dessa ameaça, cospe labaredas para todo o lado, não resistindo à tentação de queimar primeiro os alvos mais fáceis, para demostrar o quanto tem de feroz e de impiedoso.

Para o mal de todos, este tem sido o maior erro cometido por este último cuspidor de fogo alado, cuja dimensão da sua vaidade impede-o de enxergar o esvaziamento da sua estratégia. Quando assistimos a uma desproporção do uso da táctica, é geralmente sinal que já comprometemos a sobrevivência de uma qualquer estratégia. Na prática, ficámos inevitavelmente encurralados no nosso ego, uma vez que já perdemos a confiança dos nossos amigos e estamos totalmente à mercê dos nossos inimigos.

A construção de instituições internacionais e o desenvolvimento de uma rede de aliados foram os dois principais alicerces que permitiram aos EUA afirmarem-se como a maior superpotência do pós-guerra. O que o dragãozinho fumegante tem feito através do seu “dracarys” é descredibilizar essas instituições e enfraquecer as relações com os seus aliados. Só pelo simples facto de o fazer dessa forma, está a fortalecer as outras potências, como a China e a Rússia, que se regem por outros valores que nada tem a ver com a defesa da liberdades civis, na medida em que são sociedades onde sempre imperou em absoluto, o culto do poder discricionário do Estado!

É neste sentido, que a Europa nesta nova era de dragões tem que encontrar o seu São Jorge, fortalecer a sua união e dar voz aos seus princípios, os quais têm servido para a emancipação de tantos povos ao longo de tantos séculos. É preciso que alguém feche a culatra do dragãozinho fumegante e o ajude a direcionar o seu “dracarys”, mas é mais urgente ainda impedir o avanço de forças ocultas, internas e externas, que com propaganda enganosa promovem silenciosamente o aumento do poder discricionário do Estado…

Por isso, quando ouvirem de novo a canção “Puff, the Magic Dragon”, não se esqueçam que a idade da inocência já passou, que o presidente americano apesar de inconsequente e envaidecido, não é alucinado e que o sagrado dragão chinês tem um “dracarys” que volta e meia queima…