G20

Putin-Trump: primeiro encontro de namorados

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Trump e Putin são mestres em “fazer surpresas”, mas não são de esperar resultados palpáveis deste encontro, mas apenas promessas de cooperação na solução dos graves problemas do mundo.

O encontro dos presidentes dos Estados Unidos e da Rússia, que se irá realizar este dia 7 à margem da cimeira do G20, poderá ser comparado ao primeiro encontro entre dois namorados: ou o namoro termina aí, ou dá origem a uma relação mais ou menos atribulada.

Nem a Casa Branca, nem o Kremlin têm altas expectativas, mesmo quando as relações entre Moscovo e Washington estão no nível tão deplorável como o actual. Dmitri Peskov, porta-voz de Putin, espera apenas “o estabelecimento de um diálogo de trabalho que será certamente vital para todo o mundo no plano do aumento da eficácia da solução da massa crítica dos conflitos e problemas que aumenta de dia para dia”.

Não está previsto que o encontro seja longo, mas o facto de se realizar sentado poderá significar que se prolongue mais além do planeado. Os homens do Kremlin certamente estarão com um cronómetro na mão para medir se Trump dará mais tempo a Putin do que o concedido a Petro Poroshenko, durante a sua visita recente à Casa Branca.

A propósito, a Ucrânia irá ser um dos temas centrais das conversações, numa altura de grande tensão no Leste desse país. Na véspera, a Rússia e os representantes das regiões separatistas russófonas de Lugansk e Donetsk abandonaram as conversações com as autoridades de Kiev sobre a troca de prisioneiros. A Ucrânia está disposta a falar do tema apenas “com a OCSE e a Rússia agressora”. Nos últimos tempos, assistimos a uma escalada deste conflito na Europa que já provocou, segundo dados ucranianos, mais de 2700 soldados ucranianos mortos e mais de 10 mil feridos. Desde o início do ano que morreram 120 soldados e 47 civis ucranianos devido aos confrontos com os separatistas. As Nações Unidas falam de mais de 9 mil mortos e 20 mil feridos desde 2015.

Até agora os Estados Unidos não participam no “Quarteto da Normandia” (Alemanha, França, Rússia e Ucrânia) que tenta encontrar, sem qualquer resultado real além do congelamento parcial do conflito, uma saída para este grave confronto na Europa e tanto Kiev como Moscovo esperam que Washington dê um novo impulso a este processo de paz. Porém, Dmitri Peskov receia que Putin não tenha tempo e possibilidade de apresentar a sua “opinião sobre os antecedentes e causas da guerra civil na Ucrânia”.

O segundo tema será a Síria, onde o mínimo incidente poderá provocar sérios confrontos entre as forças militares russas que apoiam o dirigente sírio Bashar Assad e tropas da coligação ocidental que apoiam a oposição. Isto é cada vez mais possível à medida que os terroristas do Estado Islâmico forem desalojados da Síria e do Iraque e caso aumente a intervenção militar internacional.

Porém, as divergências entre os Estados Unidos e a Rússia na região são tão grandes que não se pode esperar resultados muito concretos do encontro.

Em relação à Coreia do Norte, Trump certamente irá pedir a Putin que pressione mais Kim Jong-un com vista a travar o programa nuclear militar e o fabrico de mísseis. Moscovo tem algum poder de pressão económica sobre Pyongyang, mas nada será conseguido sem a colaboração da China.

À difícil solução dos graves problemas internacionais citados vem juntar-se o facto de tanto Trump e Putin estarem de “mãos atadas” nos seus próprios países. A mínima cedência do Presidente norte-americano a Putin irá aumentar o fantasma da ingerência do Kremlin na política interna dos Estados Unidos, da dependência de Trump em relação a Putin, mas na Rússia também não ficarão contentes se o seu dirigente se afastar muito da retórica anti-americana constantemente transmitida pelos órgãos de informação russos.

Donald Trump e Vladimir Putin são mestres em “fazer surpresas”, mas parece que ainda não será agora na Alemanha que consigam “tirar o coelho da cartola”. Por isso não são de esperar resultados palpáveis deste encontro, mas apenas promessas de cooperação na solução dos graves problemas do mundo.

Numa época em que a situação internacional se agrava a olhos vistos, em que o perigo de novas guerras e conflitos aumenta (por exemplo, o confronto potencial entre o Qatar, por um lado, e outros países do Golfo Pérsico; o endurecimento retórico nos discursos de Washington e Teerão), o diálogo entre Washington e Moscovo, entre a Rússia e a União Europeia deveria ser mais intenso e frutuoso, mas os interesses de cada um destes grandes jogadores no xadrez internacional continuam acima das reais necessidades da Humanidade.

Por isso, já será bom se o primeiro “encontro de namorados” der origem a uma relação mais ou menos estável, pois é difícil acreditar que daqui saia casamento.

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