Os partidos da esquerda ocupam hoje menos de um terço dos lugares na Assembleia da República. São minoritários na liderança de câmaras municipais. As presidências dos municípios mais populosos estão confiadas a eleitos do PSD (entre os 7 maiores, Lisboa, Sintra, Vila Nova de Gaia, Porto, Cascais, Loures e Braga, só Loures é governada pelo PS). Os governos regionais da Madeira e dos Açores cabem aos partidos da direita. Só quem não queira ver é que não percebe o declínio da esquerda em Portugal, como nunca tinha acontecido desde o 25 de Abril. Estas escolhas são o resultado do exercício da democracia, mas não deixam de ser frustrantes para quem se reclama dos valores da esquerda.

Nestas eleições presidenciais há uma probabilidade significativa de o mais alto cargo da nação ser também confiado a uma personalidade ligada às forças políticas da direita e do centro-direita. Entre os cinco candidatos que disputam a ida a uma segunda volta, só António José Seguro está em linha com aquilo que os partidos da esquerda representam. Marginalizando a de André Ventura, marcada pelo iliberalismo, as candidaturas de Marques Mendes, Gouveia e Melo e Cotrim de Figueiredo não põem em causa a democracia, mas, sem prejuízo das preocupações sociais que manifestam, distanciam-se daquilo que para a esquerda tem sido a defesa do Estado Social, o combate à pobreza e às desigualdades e a promoção de uma sociedade mais justa.

Este contexto histórico justificava que, à esquerda, houvesse a perceção clara do risco da segunda volta das eleições ser disputada entre os candidatos da direita, podendo mesmo acontecer que o venha a ser pelo líder de um partido que não se revê nos princípios da Constituição, o que as sondagens confirmam. Infelizmente, não foi isso que aconteceu. O Partido Socialista foi envergonhado no apoio ao seu antigo líder e o PCP, o BE e o LIVRE optaram pela apresentação de candidaturas autónomas.

Sempre desconfiei das campanhas do voto útil, que muitas vezes são utilizadas pelos grandes partidos em desfavor daquilo que resulta de uma representação proporcional. É por isso que entendo que o voto útil deve, em primeira linha, corresponder à convicção de cada um. Mas a responsabilidade política dos partidos não deve permitir que, em função das circunstâncias concretas, se ignore aquilo que a aritmética dita. Em determinadas situações, sem abandonar os princípios, o pragmatismo, que também faz parte das armas ao dispor da luta política, justifica que se privilegie o combate ao mal maior.

Se nas eleições em que vigora um sistema de representação proporcional, as exigências do pragmatismo se atenuam, já nas presidenciais, que são unipessoais, o bom senso impõe que se tenha presente o risco da escolha poder recair sobre candidatos que se distanciem mais do que outros daquilo que defendemos. Nas eleições presidenciais em curso, as candidaturas do PCP, BE e LIVRE, retirando votos à única da esquerda que pode passar à segunda volta, podem ser politicamente responsáveis por uma segunda volta onde só estejam representados candidatos afetos à direita.

É à luz destas considerações que discordo do apoio frouxo que o PS começou por dar a António José Seguro, bem como da postura de António Filipe, Catarina Martins e Jorge Pinto de levarem as suas candidaturas até ao fim. Qualquer um deles me merece enorme respeito. Sublinho, de resto, a excelente prestação do candidato do LIVRE, que é o meu partido. Por outro lado, António José Seguro demorou demasiado tempo a afirmar os valores da esquerda e a dirigir-se ao eleitorado dos partidos que a representam. Estamos a escassos dias do sufrágio. António Filipe e Catarina Martins têm sido perentórios em recusar qualquer desistência. Discordo da opção, mas não questiono a sua legitimidade. Porém, Jorge Pinto sempre se afirmou disponível para uma desistência no quadro de um pacto republicano entre as candidaturas da esquerda, o que ainda há dias reafirmou, dizendo que “não será por mim que Seguro não será Presidente”.

Chegou a hora decisiva. Cada um tem de ter noção da sua responsabilidade histórica. Ganha-se ou perde-se por um voto. Com cinco candidatos em situação de empate técnico, António José Seguro e Jorge Pinto devem entender-se. Conversem diretamente ou através das suas direções de campanha ou como quiserem, mas a cada um cabe dar um passo na direção do outro, de forma a aumentar a probabilidade de António José Seguro ser o candidato do centro-esquerda e da esquerda a uma segunda volta. É este o meu apelo. Seguro pode ser o próximo Presidente da República.