Prezo muito a liberdade individual. Defendo que cada pessoa avalie o que é melhor para si e decida em conformidade. Por isso sou a favor da eutanásia. Não é uma posição absoluta, não tenho certezas, não estou totalmente convencido que o Estado deva ter o poder de matar (ainda que muito condicionado). Receio que possa vir a haver motivações menos puras e altruístas, mas, tendo de me comprometer com uma posição, é esta: sou a favor da eutanásia.

Felizmente, a angústia que a dúvida me causa é mitigada por partilhá-la com outros apreciadores da liberdade. Que, descubro com alegria, são muitos mais do que julgava. São pessoas que, até hoje, achava estarem nos antípodas da minha posição sobre a liberdade individual. A quantidade de artigos de opinião de colectivistas que, ao contrário do que é seu costume, desta feita defendem que o indivíduo é que sabe o que é melhor para si, faz-me sentir acompanhado.

Portanto, aproveite-se o facto de o Parlamento ir aprovar este primado da autonomia individual e atalhe-se já a resolução de outros temas que nos são caros a nós, amantes da liberdade. Se, a partir de quinta-feira, as pessoas passam a poder indicar ao Estado o momento da morte, faça-se também uma lei que as deixe indicar ao Estado a escola onde desejam pôr os filhos a estudar. Atenção, não é para ser à balda! Forma-se uma Comissão Avaliadora, composta por dois professores, um auxiliar, uma directora pedagógica, um psiquiatra e um membro da Associação de Pais, que vão perguntar ao aluno se quer mesmo, mesmo, mesmo ir estudar para aquela escola longe de casa, onde se aprende melhor, ou se é um mero capricho. Tudo feito com rigor, claro. Repetem-na várias vezes: quando ele recolhe os impressos, outra vez na altura da matrícula, outra quando encomenda os livros e uma última mesmo antes de se ouvir o toque para a primeira aula. Assim, têm a certeza de que ele está consciente da sua decisão e pretende realmente ir da escola que frequenta para melhor.

Se bem que, agora que penso nisso, do ponto de vista do respeito pela individualidade, a repetição da pergunta é algo intrusiva. Uma vez devia bastar. Duas, vá, se a pessoa, por estar entubada, falar baixinho. Agora, tantas vezes é estar a chamar mentiroso a um doente. Quando pergunto muitas vezes a mesma coisa aos meus filhos, é porque desconfio que estão a aldrabar.

Bem sei que, no caso da eutanásia, as perguntas servem para ajudar a avaliar o sofrimento da pessoa, já que apenas em casos em que este se considera insuportável é que se admite a eutanásia. O que, mais uma vez, é pouco respeitador da liberdade do paciente, que está numa situação dolorosa e ainda tem de sujeitar o seu sofrimento ao arbítrio do Estado. Ora, os critérios do Estado em matéria de sofrimento são, no mínimo, estóicos. Trata-se do mesmo Estado que acha que crianças com cancro aguentam ser tratadas em barracões insalubres. É bem capaz de olhar para um moribundo que pede a eutanásia e dizer-lhe que está a exagerar, que suporta mais um bocadinho. Pior, o Estado pode escolher para avaliador um adepto do Sporting. Para um sportinguista, nenhum sofrimento é insuportável.

Outra das áreas em que esta vontade de liberalizar podia ser aplicada é a do trabalho. Já que o Estado confia – e bem! – na capacidade de um cidadão decidir quando quer morrer, podia estender essa confiança à capacidade de um cidadão decidir como quer passar o tempo até esse dia. Por exemplo, alguém que queira trabalhar 60 horas por semana em vez das 40 horas actuais, não pode. Mesmo que seja essa a sua vontade, mesmo que o patrão não veja inconveniente nisso. Se o trabalhador diz “mate-me de trabalho”, o Estado não permite. Se diz “mate-me”, o Estado já aceita conversar. Pelos vistos, a metáfora é que é ilegal. Agora é uma boa oportunidade para os paladinos da liberdade individual, em súbita maioria parlamentar, reverem isso.

Entretanto, cabe ao legislador redigir a lei com o máximo cuidado, para que não seja usada como subterfúgio para situações indignas. Por exemplo, a maioria dos projectos de lei prevê que a resposta ao pedido de eutanásia seja o mais rápida possível. Isso pode abrir a porta a abusos. Um doente que só consiga uma consulta de oftalmologia para dali a ano e meio, pode servir-se do sistema e dizer que, nesse caso, prefere a eutanásia. Marcam-na para a semana seguinte e ele, lá chegado, pede para antes lhe tratarem dos olhos, que é para focar a família uma última vez antes de se finar. Assim que lhe curam a miopia, aproveita a quinta vez que lhe perguntam se quer mesmo morrer e diz que esteve a ver melhor e afinal já não deseja, obrigado. Cautela com estes interesseiros.