Uma família em isolamento, dia 8

“Não sei até quando. Ninguém sabe.”

Isto é o que ainda não consegui dizer às minhas filhas. Não assim, sem balizas, sem horizontes à vista. Esta é a resposta que ainda não consegui dar-lhes quando me perguntam quando é que isto tudo vai acabar. Vou enrolando com uns “está quase”, “já faltou mais”, “pode demorar muito tempo mas não vamos pensar nisso”. Mas sei que não estou apenas a omitir. Estou a faltar-lhes à verdade.

E as perguntas delas, ao fim de alguns dias de adaptação a este novo estado são cada vez mais frequentes.

“Quando é que posso voltar para a escola?”
“Quando é que posso estar com a minha professora?”
“Quando é que posso brincar com as minhas amigas?”
“Quando é que elas podem vir cá a casa?”
“Quando é que vamos ver os avós?”
“Quando é que abraçar outra vez às pessoas da nossa família?”

Até aqui temos feito o que é habitual. Respondemos ao que sabemos, sem grandes detalhes, sem grandes elaborações, falando daquilo que elas têm capacidade para perceber e numa linguagem que lhes faça sentido. Respondemos a tudo, as vezes que forem precisas, para que não fiquem com dúvidas e para que estas não lhes toldem os movimentos. Quanto mais explicamos, quanto mais palavrosos somos, maior o nó que damos nas cabeças delas…

Mas os movimentos e os comportamentos estão marcados, não há volta a dar. Há um par de dias, quando me preparava para sair de casa com as duas para esticarmos as pernas ao sol, a mais nova começou a ficar lenta, a empatar, a regressar ao quarto várias vezes… Quando a mãe lhe perguntou o que se passava, a Madalena lá disse: tinha medo de ir à rua por causa do coronavírus.

Há um medo generalizado no ar, ampliado pelas ruas vazias que vemos da janela, pelas notícias que chegam de Itália e de Espanha, pelo desinfetante que agora vai sempre no bolso comigo, pelas luvas descartáveis que já descobriram no carro, pelos telefonemas constantes para os avós, pelas chamadas vídeo a toda a hora. E, nas poucas vezes que saímos de casa, o medo está sempre presente na quantidade de vezes que lhes digo para não tocarem no corrimão da escada, para não tocarem nos carros, para não tocarem nos bancos de jardim, para não tocarem em nada. Por muito que queiramos disfarçar e revestir o quotidiano com uma falsa sensação de normalidade, não há nada de normal aqui. Há apenas pais preocupados a tentar proteger filhas assustadas e frágeis enquanto disfarçamos o alarme.

Queremos que as filhas aprendam e pratiquem o amor, a empatia, a tolerância, a generosidade, a responsabilidade. Queremos que respeitem os mais velhos, que saibam ser gratas pelo que têm, que estimem o que custou a ganhar. Queremos fazer delas bons seres humanos, para quem a ajuda ao próximo seja uma coisa natural – mas isso fica um pouco mais difícil quando temos de guardar uma distância social segura para esse próximo.

A Madalena e a Carolina sabem o que se passa, na verdade. Sabem que há um vírus por aí, que é contagioso, que é resistente, que é poderoso, que mata. Um vírus suficientemente grave para levar ao encerramento das escolas e às saudades da professora, dos amigos, da família. Sabem – pelos grupos de pais no WhatsApp, que vão partilhando as conquistas dos filhos – que os amigos também estão sensibilizados. Sabem que por enquanto é com estas limitações que temos de viver. Só não sabem até quando.

Ninguém sabe. Leio previsões que falam de meses, mas que o impacto nas nossas vidas demorará anos. Leio que a pandemia vai voltar, que este surto pode ser controlado por agora mas outro se seguirá, inevitavelmente. Leio que talvez não tenham terceiro período de aulas, que os Jogos Olímpicos devem ser adiados, que o Euro 2020 vai ser em 2021, que o mundo como o conhecemos nunca mais será o mesmo. Leio sobre a recuperação económica desejada, a recessão e a hecatombe que está à vista, o tsunami que está a caminho. Darwin poderia estar a rir-se agora no túmulo, os mais fortes e mais adaptados vão sobreviver e ele sempre avisou, mas a situação é grave e não há motivos para gargalhadas .

Há um vírus no ar e só queríamos poder ter uma ideia de até quando vamos ter de fugir dele. Para eu poder responder como deve ser às minhas filhas e tranquilizá-las. E tranquilizar-nos.

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