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Crónica

Quando o povo é manso também se abstém, qual a surpresa? /premium

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Nenhuma oposição ao nosso manso declínio terá sucesso – como as eleições mostraram – se não se tiver a audácia de ser diferente e fazer sonhar com um país melhor, mais do que este Portugal poucochinho

Aqui há uns meses passei pelo calvário de ter de renovar o Cartão de Cidadão. Aquilo a que assisti nas longas horas que passei numa Loja do Cidadão deixou-me siderado. Sabia que as filas eram longas, que o tempo de espera podia ser de horas – não tinha ideia que balcões como o da Segurança Social esgotavam as senhas para 9 ou 10 horas abertura ao público ainda antes de estarem a funcionar. E que noutros serviços o panorama não era muito melhor.

Mas aquilo que verdadeiramente me surpreendeu foi a passividade dos cidadãos. Como se ser mal servido num serviço público já fizesse parte da nossa natureza. Como se tivéssemos perdido todos os critérios de exigência. Como se continuássemos a ter medo de medo de esboçar mesmo o mais modesto protesto.

Amochamos e seguimos em frente, porventura ruminando um praga.

Sendo assim, nem sei bem por que devemos surpreender-nos com os elevados níveis de abstenção. Bem pode o Presidente da República vir pregar que “quem não for votar, depois não venha dizer que se arrepende” porque, na verdade, talvez muitos portugueses nem saibam do que se arrepender, tal o estado de apatia e conformismo em que vivemos.

Há alguns dias a TVI transmitiu, no horário de maior audiência, uma daquelas reportagens que é bem o retrato do país – e do Estado que temos. Cito-a, como podia citar tantas outras. Contava-nos a história de uma Segurança Social em ruptura mas onde um diretor distrital anda a organizar festas para os funcionários no horário de serviço. Dava-nos conta de alguns casos concretos de entre as centenas (milhares?) que existem de injustiças criadas pela ineficiência desses mesmos serviços, mostrava-nos o desespero de pessoas concretas que esperam dezenas de meses, às vezes anos, por prestações que lhe eram devidas e vivem na miséria, permitia-nos testemunhar a arrogância dos boys que dirigem aquela máquina kafkiana (não há de resto Ministério onde, governo a governo, maioria a maioria, seja maior a ganância dos boys pelos lugares do que o da Solidariedade Social).

Alguém se indignou? Alguém achou que havia mentirinhas e más desculpas a mais no discurso das autoridades? Nada que não se esgotasse no tempo que dura um fósforo a consumir-se.

Por isso quando, terça-feira, vi o Governo precipitar-se para suspender a acção – hesito no termo a utilizar – de assalto na via pública aos contribuintes que tinha sido montada numa rotunda de Valongo pela Autoridade Tributária e pela GNR, não fico descansado.

Não fico descansado porque não era a primeira vez que se montava aquele estendal na rua (terá sido a quinta vez) e só vi o Governo intervir quando o escândalo chegou aos órgãos de informação e às televisões. Não fico descansado porque vivemos num país onde a administração pública acha que pode montar operações daquelas, que pode apreender viaturas por dívidas porventura irrisórias, que pode intimidar e aterrorizar, e que se calhar ainda fica à espera de receber no fim um prémio de desempenho por cumprimento de objectivos.  Não fico descansado porque este ano o ministro Centeno, que fingiu ter ficado chocado com a operação, estabeleceu uma meta de crescimento de 8,6% das cobranças coercivas pela Autoridade Tributária. Não fico descansado quando verifico que muitos juristas consideram aquela actuação legal (e se calhar têm razão) e até constitucional (e se calhar também têm razão), o que me deixa de cabelos em pé sobre o quadro jurídico que protege os nossos direitos, liberdades e garantias.

Finalmente – e não menos importante – não fico mesmo nada descansado quando aquelas acções decorrem em terras onde noutros tempos se celebrava a Maria da Fonte mas onde hoje, aparentemente, ninguém sequer se dá ao trabalho de parar para dizer àqueles funcionários que estavam a exorbitar. Deviam ter todos mais que fazer.

Traduziu-se esta anomia da cidadania numa taxa de abstenção historicamente elevada? Sim, é porventura uma das explicações, mas a abstenção nem sequer foi demasiado elevada ou surpreendente se a compararmos com anteriores eleições europeias e olharmos para o número total de eleitores que foram às urnas, que até subiu (3.314 mil este ano, 3.283 mil há cinco anos). O mal é mesmo estrutural e devemos sobretudo inquietarmo-nos com o que sucedeu nas últimas Presidenciais e com o que pode suceder nas próximas Legislativas.

Bem sei, porque já vivi anos suficientes e li quanto baste, que de um momento para o outro as coisas podem mudar. Um dia é a calmaria, no outro a tempestade, pois este ainda é o mesmo povo que, no dia 31 de Março de 1974, proporcionou a Marcello Caetano uma grande ovação num estádio de Alvalade a abarrotar para um Sporting-Benfica e, menos de um mês depois, encheria as ruas de cravos vermelhos. Eu vivi esses dias, vi nas ruas a celebrar pessoas que nunca imaginei poder ver.

O nosso primeiro António, o de Oliveira Salazar, durou os anos que durou porque percebeu que para esse bom povo paz e sossego tinham mais valor do que grande promessas de riqueza. O nosso segundo António, o de Oliveira Guterres, afogou-se no pântano quando a riqueza que prometeu, a de um Portugal à imagem da Expo 98, soçobrou nos escombros da ponte de Entre-os-Rios. Já este nosso terceiro António, o “babuche” Costa, durará enquanto mantiver as pessoas tranquilas, mesmo que o país vá ficando cada vez mais na cauda da Europa. Aprendeu com Guterres (e com Sócrates) a não correr riscos, a não fazer ondas, logo a não fazer reformas nenhumas.

Pode-se contrariar isto quando toda a indignação do país nunca vai além de um insulto numa rede social, quando muito de um dia de frenesim? Pode-se contrariar isto quando os partidos da oposição deixaram criar a ideia de são mesmo “todos iguais” e nada já os distingue das “contas (supostamente) certas” de Centeno? Pode-se contrariar isto quando à anomia paralisante dos mais velhos se junta a indiferença individualista dos mais novos?

Eu sei que muitos, olhando para os resultados das últimas europeias, ficam com vontade de atirar a toalha ao chão. Eu prefiro apontar-lhes o exemplo do improvável e inesperado discurso que o treinador do Benfica, Bruno Lage (perdoem-me todos os que não são benfiquistas), fez no dia da conquista do título quando, depois de sublinhar que o futebol é apenas o futebol, sublinhou: “Há coisas mais importantes no nosso país pelas quais temos de lutar. Se se unirem e tiverem a mesma exigência que têm no futebol na nossa economia, na nossa saúde, na nossa educação, nós vamos ser um país melhor. Temos de ser mais exigentes”.

Tão simples: temos de ser mais exigentes. E podemos começar exactamente por aí, por exigir para sacudir esta indiferença que nos faz aceitar o inaceitável com um encolher de ombros. Depois será mais fácil discutir políticas, política e até ideologia para sabermos como podemos ser melhores. Mas o país que amocha nas filas das Lojas do Cidadão, que olha para o lado quando vê a GNR e o fisco feitos assaltantes de beira de estrada e que vai engolindo a conversa do “crescemos mais que a média da zona euro” quando estamos a ficar para trás de quase todos os do nosso campeonato, é um país que necessita de muito mais do que de líderes que lhes falem apenas um poucochinho diferente.

Caso contrário é só uma questão de tempo e de descaramento, até descobrirmos que, escravos do fisco, até nós teremos medo de sair de casa, não aconteça tropeçarmos num qualquer “cobrador do fraque” da sempre insaciável Autoridade Tributária.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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