O último debate das presidenciais, que opôs Gouveia e Melo a Marques Mendes é, simbolicamente, um separador que vai reduzir ainda mais o universo de pessoas disponíveis para se dedicarem à política. A diversidade e diversificação de formações e percursos profissionais, tão importante na generalidade das carreiras, passa a ser um pecado para quem quer servir os cidadãos na política. Vão sobrar os trabalhadores por conta de outrem e os funcionários públicos ou partidários, desde que tenham feito um caminho sem sobressaltos. Os consultores jurídicos ou de outras áreas passam a estar banidos.
O modelo de ataque a Marques Mendes começou com Cotrim de Figueiredo, não se entendendo desde logo muito bem como é que um liberal entra por esses caminhos. E nisso tem sido acompanhado, de forma bastante mais agressiva, pelo militar Gouveia e Melo. Que serviu o país e quer unir os portugueses, mas que presta um mau serviço à democracia ao combater o seu adversário lançando-lhe lama para cima. São dois outsiders da política, Gouveia e Melo e Cotrim de Figueiredo, que se estão a esquecer da importância que a classe política tem para qualquer democracia. E ao atirarem lama para os seus adversários ficam eles próprios igualmente manchados.
De repente o país, na versão Gouveia e Melo e Cotrim de Figueiredo, deixou de poder ter consultores. Chamemos-lhes “facilitadores de negócios” como disse Gouveia e Melo. O que é que isso significa? São pessoas, em geral advogados, juristas ou economistas que ajudam empresários e investidores a navegar nas regras e nos pequenos poderes do país.
Será isso um crime? É, se estivermos perante um crime de tráfico de influências definido como “aquele que, por si ou por interposta pessoa, com o seu consentimento ou ratificação, solicitar ou aceitar, para si ou para terceiro, vantagem patrimonial ou não patrimonial, ou a sua promessa, para abusar da respetiva influência, real ou suposta, junto de qualquer entidade pública, nacional ou estrangeira”.
A vantagem da regulamentação recente do lobby é que permite que a actividade daquilo que Gouveia e Melo designou como “facilitador de negócios” possa ser concretizado sem que se confunda com tráfico de influências.
A questão que se deve colocar é se a actividade que Marques Mendes desenvolveu está ou não enquadrada no crime de tráfico de influências. E até hoje não teve qualquer acusação ou sequer suspeita que o tenha feito. Não é nenhum santo, podemos ter as mais variadas opiniões e considerar até que o fez, mas nunca foi sequer alvo de suspeitas por parte da Justiça. Se entramos pelos domínio das nossas opiniões, deixamos de ser um Estado de Direito e passamos a julgamentos no pelourinho. E está a ser por aí que Gouveia e Melo e Cotrim de Figueiredo estão a entrar.
Criar estas confusões num país em que a maioria das pessoas não confia nos partidos e nos políticos é alimentar a fogueira que queima a democracia. Nem André Ventura entrou por esse caminho em que Gouveia e Melo e Cotrim de Figueiredo entram para combater Marques Mendes.
O lançamento das primeiras insinuações por Cotrim de Figueiredo, na entrevista ao Expresso, que depois não conseguiu defender no debate com Marques Mendes, atingiu neste último debate com Gouveia e Melo um patamar completamente inacreditável. É lamentável ver um candidato ex-militar a acenar com títulos de jornais para concretizar o seu combate ao adversário.
Depois há ainda os números de milhares de euros que se acusa o adversário de ganhar, sem nunca se dizer durante quanto tempo foram ganhos. Assim se explora a iliteracia das pessoas, boa parte delas incapazes de fazerem umas contas de dividir para concluírem que para uma pessoa com aquele perfil e carreira acaba por não ser muito. Assim se explora também o miserabilismo.
Soma-se a seguir, neste cocktail que um dia nos explode nas mãos, a moda da queixa anónima ao Ministério Público. Mais uma vez o objetivo não é que se faça justiça, mas sim e apenas lançar lama sobre o adversário político. No estado em que está a Justiça e conhecendo a crença de boa parte dos portugueses de que os políticos escapam à lei, a queixa anónima é suficiente para manchar a reputação.
É este o país que Gouveia e Melo e Cotrim de Figueiredo querem? Um país em que se combatem politicamente os adversários lançando sobre eles suspeições sobre a sua seriedade e transparência? Gouveia e Melo e até Cotrim de Figueiredo podem chegar a Presidente, não o sabemos. Mas estão a cometer um erro que pagaremos caro. Teremos cada vez menos pessoas com carreiras e mundos diversificados disponíveis para servir o país na política. E alimentamos a desconfiança dos portugueses na classe política.