Há uns anos escrevi neste espaço que Marcelo contava com a sua popularidade para presidir conforme lhe aprouvesse. Nessa altura, em Junho de 2019, o Chega ainda não tinha representação parlamentar e o PS governava sem ter ganho as eleições. Marcelo encontrava-se no auge da sua popularidade e o país rendia-se ao seu charme. O pendor parlamentar do sistema semi-presidencialista, saído da reforma constitucional de 1982, limitava-lhe a acção, mas não o impedia de condicionar a actuação de um governo fraco, porque sem apoio parlamentar. Várias vezes, Marcelo atirou com o barro à parede para ver se pegava, até que uma pandemia lhe alterou os planos ao permitir uma maioria absoluta de António Costa, em Janeiro de 2022. De então para cá, Marcelo definhou politicamente para se tornar num simples mestre de cerimónias. Mas abriu um precedente.
Em 2026 vamos ter eleições presidenciais e há a possibilidade de André Ventura passar à segunda volta contra Gouveia e Melo. Há dias, uma amiga disse-me, para logo mudar de ideias, que talvez não fosse mau de todo se Ventura acabasse em Belém porque isso significava o fim do Chega. Ela corrigiu-se de imediato porque os dois concluímos o óbvio: que Ventura em Belém continuaria a chefiar o Chega e a determinar a actividade dos seus deputados, com a força acrescida de uma vitória eleitoral. Ou seja, pela primeira vez desde o 25 de Abril, teríamos um presidente da República a fazer oposição ao governo com o apoio directo de uma bancada parlamentar. Eanes não conseguiu ir tão longe e Soares e Marcelo suspenderam a militância nos respectivos partidos. Ventura não fará nada disso porque, ao contrário dos anteriores presidentes, a chefia do Estado não será o culminar da carreira política, mas um passo no caminho para mandar no país. Utilizo a informalidade do verbo ‘mandar’ porque o objectivo de Ventura é, não o de presidir, mas o de dar ordens.
De Belém, Ventura conta dominar São Bento e, dessa forma, determinar a acção do governo. Vencer as legislativas será um pró-forma. Uma justificação do que Ventura pretenderá fazer a partir de Belém. Não é preciso perceber muito de política para se concluir que o sistema ficará virado do avesso, com as regras a serem aplicadas por políticos menores, vassalos de Ventura e sem legitimidade própria. Os deputados do Chega que hoje idolatram o líder no Parlamento, venerar-lhe-ão no Palácio de Belém. Deputados, presidentes de câmara, presidentes de junta de freguesia, homens e mulheres colocados no Estado que passará a ser colonizado, não por um partido, mas por um homem, responderão por ele, perante ele e de acordo com ele. Não perante povo que não os reconhece.
E não. Não será preciso rever a Constituição. Uma série incontável de plebiscitos e referendos serão suficientes. Não acreditam? É que já houve alguns plebiscitos e Ventura já se referiu ao próximo para ‘legitimar’ a sua liderança após os últimos escândalos que pairam sobre o Chega. O ataque é a melhor defesa e André Ventura não é político de ficar de espera. Muitos dos que lêem estas linhas podem pensar que se trata de um pesadelo improvável. Se acham isso, recordem-se de Trump e do Brexit. Ninguém esperava, mas aconteceu e os EUA lançam tarifas sobre o Canadá e a ameaçam a Europa. O Reino Unido deixou a UE e a extrema-direita vai ter uma votação forte na Alemanha. Mesmo que não acabe, a União Europeia terá mais com que se preocupar do que com André Ventura. Nós sim, não Bruxelas, temos a obrigação de estar atentos para evitar algo de que nos vamos arrepender para o resto das nossas vidas.