Junte-se uma comissão de sábios, mais um estudo (encomendado como não pode deixar de ser ao professor Freitas do Amaral), adicione-se como pano de fundo vários líderes partidários a precisarem desesperadamente de uma fuga em frente que lhes permita aparecer diante do povo como portadores de algo de novo e temos o caldo de cultura mais que propício para o lançamento de um projecto que entretenha o povo, anime as televisões e lhes devolva protagonismo. Um desígnio, como soe dizer-se. O projecto-desígnio que aí vem para os salvar a todos chama-se regionalização.

Em 2019, os líderes partidários e os grandes beneficiados do regime querem aprovar na secretaria o que o povo chumbou em referendo em 1998: a regionalização. Porquê? E porquê agora? Porque não querem governar. Sabem que tal será cada vez mais difícil, para não dizer inviável, entre grevistas em auto-gestão, corporações em desatino e números que, mesmo devidamente torcidos, mostram um país cativo das cativações.

A presente classe política comprometeu-se com aquilo que sabe não ser possível garantir, teme uma nova crise e acredita que a regionalização pode ser em 2019 aquilo que a entrada na Europa foi nos anos 80: o desígnio que libertou a classe política portuguesa de se confrontar com o seu óbvio falhanço enquanto governante.

Temos pena, mas desta vez não vai haver desígnio. Os políticos portugueses se querem tratar da sua vida façam-se a ela. Mas para salvarem a sua face não nos criem problemas que não temos.

Os portugueses pagam e querem hospitais que funcionem, comboios que não percam os motores, escolas que ensinem, uma Protecção Civil que de facto os proteja e umas Forças Armadas que não os envergonhem. Exigem, suplicam e solicitam uma justiça que funcione. Rezam para que as estradas não se esboroem. O que não têm pedido é a regionalização.

Não o fizeram porque o instinto de sobrevivência de um pequeno país que conseguiu construir um Estado e definir a fronteira mais antiga da Europa não permitiu que se soltasse a caixa de Pandora das regiões. A isto junta-se a clara consciência popular de que a regionalização vai apenas acentuar os muitos defeitos do Estado sem trazer outra mudança além da multiplicação dos edifícios construídos e alugados para o efeito, dos gabinetes onde pontuarão os jovens de todas as famílias César que cada região fará florescer, sem esquecermos a crescente frota de carros obviamente eléctricos, as senhas de presença, os subsídios de alojamento para quem não vive na região, a invenção de mil e um artifícios legais para favorecer cada região em detrimento das outras, sendo que “as outras” também tratarão de multiplicar os respectivos artifícios para proteger “os seus” (veja-se o delírio das discussões orçamentais em Espanha)… E, claro, os contribuintes a pagar os custos de tudo isto, a sofrer a crescente burocracia e a consequente diluição das responsabilidades de cada vez que os relatórios, os formulários e os inquéritos passarem de um nível de decisão para o outro.

Naturalmente os sábios querem que desta vez a discussão seja feita nos seus devidos termos. Ou seja, nos termos por eles controlados e em que no final a regionalização será uma espécie de facto consumado a que só os ignorantes se opõem.

Mas por mais que isso enfastie os sábios, os autores dos estudos, o centrão e as suas margens, os boys que anseiam por novas comissões, sub-comissões, unidades de missão, observatórios… a regionalização não vai ser aprovada na secretaria. Pois tal como o moleiro acreditava que ainda havia juízes em Berlim há quem acredite – e eu acredito – que ainda há portugueses em Portugal.