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Dizer que os EUA são hoje um país dividido soa a cliché. Acontece que a complexidade da situação vivida actualmente (à qual acresce a pandemia) torna essa frase simultaneamente exagerada e atenuante das profundas divisões na política americana. Exagerada, porque a polarização entre os dois partidos (Republicano e Democrata) não começou no mandato de Trump e aprofundou-se durante décadas — para o confirmar, basta observar a evolução, nos últimos 60 anos, do comportamento de voto dos representantes de cada partido no Congresso, cada vez mais afastados e menos capazes de promover entendimentos. Mas também suavizadora da fractura política existente na sociedade americana, visto que as divergências já não são sobre meras opções políticas, estendendo-se agora aos próprios pilares da democracia americana.

Os dados de um extenso inquérito de opinião recentemente publicado pelo Pew Research Center traçam o retrato. Donald Trump termina o seu mandato no ponto mais baixo das suas taxas de aprovação (29%), isto depois de, em 2020, ter atingido níveis gerais de aprovação (45%) que, durante um período, fizeram os Democratas temer a derrota nas presidenciais de Novembro passado. O que explica a queda de Trump para níveis tão baixos? A visão crítica que muitos eleitores republicanos fazem da sua actuação desde as eleições, com acusações sucessivas de fraude e reclamação de vitória, assim como a responsabilização pela invasão do Capitólio (mesmo assim, só 52% dos republicanos considera que Trump teve alguma responsabilidade nessa invasão). Mas se Trump perdeu parte do seu apoio nas últimas semanas, seria absolutamente ilusório acreditar que isso implicará uma alteração das percepções dos eleitores republicanos, nomeadamente face a Biden, à liderança política dos Democratas e ao funcionamento da democracia americana.

Questionados sobre os resultados das eleições presidenciais, só 29% dos que votaram Trump reconhecem a vitória de Biden e 64% afirmam mesmo que o verdadeiro vencedor foi o candidato republicano. De resto, a indisponibilidade para compromissos é evidente: apenas 38% dos republicanos indicam que gostariam de ver os seus representantes eleitos no Congresso a construir entendimentos com os democratas. Do outro lado da barricada, 62% dos inquiridos que votam no Partido Democrata querem que Biden lidere consensos políticos. Por fim, a própria administração Biden/Harris é vista com desconfiança pelos derrotados nas eleições. Se Joe Biden é uma figura política tida como moderada, gerando menor hostilidade entre os adversários, o mesmo não se aplica a Kamala Harris, a primeira mulher vice-presidente: 82% dos Democratas consideram-na qualificada para o exercício dessas funções; 83% dos Republicanos julgam que não tem a competência e o perfil necessários. Não haja dúvidas que Kamala Harris gera amores e ódios. E porque o seu voto irá desempatar um Senado dividido em duas partes iguais de votos pró-republicanos e pró-democratas, isto torna-a numa figura-chave nos equilíbrios de poder actuais — muito mais influente do que o vice-presidente Pence foi para o presidente Trump.

Que pistas trazem estes indicadores sobre a presidência de Biden? A mais importante é esta: abandone-se qualquer expectativa de que esta seja uma fase de reconciliação social e política nos EUA. Sim, foi essa a ambição presente no discurso de Biden. Mas, apesar das palavras que usou, o contexto ecoou mais alto: Washington está em estado de alerta máximo, vê-se polícia em cada canto, multiplicam-se os receios de atentados contra a nova administração, sobressaiu a ausência do derrotado nas eleições. Deixou de ser uma questão de discordância política, é agora de desconfiança total nas instituições e nos adversários, transformados em inimigos mortais.

Assim, nos próximos anos, continuará a haver milhões de cidadãos americanos que, olhando para Biden, o identificarão como o rosto da fraude eleitoral. Milhões que, em Kamala Harris, encontrarão uma ameaça radical à sua forma de vida. Centenas que, de ambos os lados, nas instituições do regime, continuarão a cavar trincheiras para travar guerras em vez de encetar diálogos. É certo que Biden terá agora o poder para fazer diferente. Mas o ónus de responsabilidade para quebrar esta crispação política e institucional está também noutras mãos: nas do Partido Republicano. Compete aos republicanos decidir se querem salvar o partido, reconhecendo Trump como um acidente de percurso, ou se vão prosseguir neste caminho que se desvia dos pilares do Partido Republicano.

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